L E A N D R O . D E M O R I

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Soup brasiliana, i viados

Sapatos, ternos, passarela. Automobilismo, futebol, máfia. Pasta, pizza, política, gritaria. A Itália de tantos clichês sustenta a maioria deles com poucas exceções (ninguém por aqui sai dançando a “tarantella”). Um dos clichês italianos menos famosos e que parece cada vez mais se abrir para o mundo é a adoração por travestis. A quantidade de homenzarrões com feições masculinas nítidas mesmo em um corpo transformado para feminilizar as expressões chama atenção não só em Roma ou Milão, mas em todas as importantes cidades do país.

É um fato consumado e contra isso não há muito o que fazer: talvez a mistura do conservadorismo pouco laico com a personalidade mais ou menos expansiva dos italianos tenha transformado o país no paraíso da transgressão “trans”, centro mundial dos travestis. Os brasileiros (ao menos os que consideram a prostituição uma profissão como qualquer outra) podem se orgulhar de um feito nessa nem tão nova tradição da península: somos os maiores exportadores de mão-de-obra qualificada. Travestis “brasiliani” trabalham a peso de ouro, estão espalhados por todo o país em maior número do que qualquer outra nacionalidade e chegam a faturar 10, 15, 20 mil euros por mês. Depende quase sempre do tamanho da “experiência”. Conforme depoimentos dos próprios trans, a maior parte dos clientes quer “ser a mulher” – e exige grandes emoções.

Em geral, nossos “viados” (como são normalmente chamados por aqui) vivem por seis meses na Itália e fazem uma pequena fortuna antes de retornar para o verão do Brasil. Com os euros, podem levar a boa vida tropical, muitas vezes sem precisar trabalhar enquanto estiverem em casa. Boa parte vive essa vida dupla há mais de 10 anos e não trocaria por nada as ruas e condomínios italianos pelo Brasil que antes conheciam: favelas, sertão nordestino, pobreza.

O longo caso de paixão entre parte da Itália e os travestis brasileiros vem sofrendo abalos. No último mês, uma das principais regiões do país, a Lazio, onde está Roma, perdeu seu governador por um escândalo de drogas e extorsão que tinha entre os protagonistas alguns dos nossos “trans”. Piero Marrazzo foi um famoso jornalista de TV antes de se tornar governador em 2005. Teria conhecido Natalie – codinome de um dos travestis brasileiros – em 2001, antes da vida política. Os 8 anos de relações com Natalie terminaram em outubro deste ano, quando a imprensa divulgou a existência de um vídeo que mostrava o governador com o “trans” em cenas gravadas dentro do apartamento de Natalie, na via Gradoli, em uma zona conhecida por ser um dos centros de travestis da capital italiana. Três dias depois, Marrazzo renunciou admitindo sua segunda vida no mundo “dei trans” e se refugiou em um mosteiro às portas de Roma.

O caso de Marrazzo com Natalie não se resume a um jogo de amizade, sexo e cocaína (que o governador admitiu usar frequentemente). O vídeo foi gravado por dois policiais à paisana fora do horário de serviço que, depois, passaram a extorquir Marrazzo – dinheiro em troca de silêncio, euros em troca de viver ou morrer politicamente. Os policiais teriam descoberto o endereço de Natalie e a presença de Marrazzo no apartamento graças à Brenda, outro travesti brasileiro acusado de dedurar o encontro. A história veio à tona e os policiais foram presos acusados de extorsão.

Brenda, de alegadas relações com Marrazzo, morreu nesta semana sufocada por fumaça devido a um incêndio em sua casa. Para a procuradoria, Brenda foi assassinada. Seu computador, que pode conter peças importantes para o mistério, foi encontrado no bidê do banheiro sob água corrente. Um sinal, uma ameaça a quem mais ousasse abrir a boca? O problema não seria mais Piero Marrazzo, e sim a lista de outros políticos, empresários e personalidades importantes que frequentam o mundo tropical e de perversão dos “trans brasiliani”. Muitos temem o mesmo destino do ex-governador da Lazio: o apredejamento midiático.

Há ainda outro cadáver a carregar. Um dos envolvidos no caso é Gianguerino Cafasso, denominado pela imprensa italiana como “il pusher” por seu papel na história. Cafasso, um frequentador do sub-mundo romano, se encontrou com diversos  jornalistas na tentativa de vender o vídeo. Ninguém comprou a história por dois motivos claros: a filmagem não era “mostrável”, ou seja, era suja demais para ir à público; Marrazzo não faria notícia suficiente para compensar a relação custo/benefício. No mercado dos escândalos na terra dos paparazzi, um vídeo desses pode custar facilmente 300 mil euros. No caso, era muito dinheiro para pouco personagem. Marrazzo por certo não é um Berlusconi.

Gianguerino Cafasso morreu em 12 de setembro, antes da história de Marrazzo se tornar pública, por overdose de cocaína, seu produto de uso habitual. Estava junto com outro travesti brasileiro, sua namorada Jennifer, que teria desistido de cheirar o pó por que “tinha um gosto muito amargo”. Esta semana, em nova autópsia depois da suspeita morte de Brenda, descobriu-se que Cafasso morreu por overdose de heroína, trabalhada com outro pó branco para que parecesse cocaína. A procuradoria do caso reabriu o inquérito com suspeitas de homicídio voluntário.

Depois do giallo que envolve políticos, travestis, drogas e mortes, a polícia determinou que todos os trans brasileiros que não tenham permissão para residir na Itália deixem o país. É a imensa maioria. Há condomínios inteiros em importantes cidades italianas onde só se fala português e onde o sexo alimenta famílias e cria pequenas fortunas. Como se trata da Itália, no entanto, a ordem será cumprida parcialmente. É provável que muitos fujam por medo: a maioria, no entanto, deve permanecer onde está, trocar de endereço ou, no máximo, dar um tempo no Brasil antes de voltar pra cá e continuar a vida profissional. A “soup brasiliana” dos travestis jamais terá fim.


Rio 2016

This should be a fun Olympics

[via foreignpolicy]


“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”

O jornal Corriere della Sera publicou hoje uma reportagem sobre as ruas da prostituição em Milão. O texto mostra que as recentes declarações do prefeito contra a atividade ilegal e as multas (€ 500) aplicadas na zona (ops) não estão sendo capazes de esvaziar os quarteirões do sexo na mais rica cidade italiana.

Deixarei de lado a ingenuidade geral (prostituição jamais terá fim) para me concentrar na legenda de uma das fotos da reportagem:

viado_brasiliano_corriere “Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”

Obviamente há uma falha jornalística grave na legenda.

Faltou dizer que tem “um cliente viado italiano no carro”.

Esses jornalistas,
(tsc tsc)
nunca aprendem.