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Do Estadão de hoje:

Tarso vê pressão ‘fascista’ da Itália e diz que Battisti deve ficar

BRASÍLIA – Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões “humanitárias e políticas”. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências “fascistas” nas ameaças de setores do governo italiano.

“A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana”, disse Tarso. “O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.

Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.

1. O Partido Democrático (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a favor da extradição;

2. Um de seus principais nomes, o ex-premier Massimo D´Alema, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, disse: ”Battisti é um criminoso, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e deve pagar por isso aqui na Itália, como é praxe”. D´Alema foi secretário nacional da Federação dos Jovens Comunistas Italianos, secretário nacional do Partido Democrático da Esquerda e presidente dos Democratas de Esquerda. Hoje, é vice-presidente da Internacional Socialista (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell’Ulivo (esquerda).

3. Giorgio Napolitano (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o Partido da Refundação Comunista e os Socialistas Democráticos Italianos) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.

4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas pedindo a extradição de Battisti. A moção classifica Battisti como “terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana” e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos “materialmente” por Battisti com tiros “na cabeça ou nas costas” das vitimas.

O texto lembra ainda que “a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados” que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.

Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França – mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.

O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, a melhor coisa é ficar calado.


O Brasil é um anúncio de TV

Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.

A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.

A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.

Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.

Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.

Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.

O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.

É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.

Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.