Cães
Crítica a jornalistas é o passatempo nacional mais democrático que existe: pode ser feita por qualquer um, por qualquer motivo, em qualquer contexto. Todo mundo tem opinião sobre nosso trabalho, até nós mesmos. Em acontecimentos como o dos deslizamentos no Rio [quase 600 mortos até agora] o número de críticos se multiplica.
São muitos os jornalistas na cobertura. A pergunta mais comum é por que gastar dinheiro e recursos importantes com transporte, estadia e alimentação de tantos profissionais que, em essência, fazem praticamente o mesmo trabalho. Não seria o caso de racionalizar? Mandar menos jornalistas?
Cobri deslizamentos de terra como os que acontecem no Brasil nos últimos dias, com menos vítimas, por sorte, na Calábria. A Itália é um dos países com maior risco hidrogeológico do mundo. Mas a história sobre jornalistas que me vem em mente é de quando cobri o terremoto de l’Aquila.
Nos primeiros dias parecia o inferno, dentro daquilo que a tradição ocidental imaginou como tal. Não havia ordem, lei, normalidade; só ambulâncias, helicópteros e gritos de dor e perda. As casas estavam todas abertas, deixadas pelas pessoas que fugiram no meio da madrugada. Uma visão tão espantosa em um mundo ademais tomado por grades e alarmes quanto melancólica. Poucos dias depois dos tremores começaram os saques e o exército precisou ser acionado. Ausência de piedade não é monopólio do terceiro mundo.
Caminhando pela cidade aberta em um cenário que não deve diferir muito de um bombardeamento o que mais me abatia era a conversa com as pessoas. A maioria vagava aparentemente sem direção, muitos tentavam recuperar objetos dentro das casas e eram impedidos pelos soldados, outros esperavam escavadores para tirar amigos e conhecidos do meio dos escombros.
Em situações como essas a atenção com as palavras precisa ser alta. Precisava fazer meu trabalho, ver, anotar, fotografar, mas sobretudo conversar com os moradores que têm outras preocupações prioritárias a dar entrevistas. Na maior parte das vezes sequer têm cabeça para isso. Surpreendentemente pra mim, jornalistas não são mal vistos pela maioria dos atingidos por calamidades. Em vez de má vontade, o que as pessoas mais nos pediam é que não saíssemos de lá. Tinham medo que toda a ajuda fosse embora quando os holofotes e câmeras se apagassem, quando as canetas parassem de anotar, quando fosse tudo silêncio.
Voltei para a cidade um ano depois. L’Aquila morreu. O centro ainda está bloqueado por caminhões do exército e onde ontem viviam 100 mil pessoas hoje há somente bombeiros, operários e excursões de universitários sismólogos. A imprensa foi embora — no mês seguinte outra notícia se impôs. Os moradores tinham razão.
Muitas vezes nos comportamos como cães de rua, revirando lixo, buscando feridas, priorizando a notícia ao homem. Parece um desperdício mandar tanta gente da imprensa para locais em estado de calamidade como a região serrana do Rio de Janeiro. Não é. Seria muito pior se tentassem resolver tudo no escuro.
Matéria no Jornal Nacional
Saiu ontem no Jornal Nacional da TV Globo matéria que fiz junto com a Mariana Becker. A reportagem foi feita em uma minúscula cidade de 800 habitantes, escondida nos apeninos italianos. O vídeo está aqui.
Epicentro

Viajei por horas entre estradas vicinais para chegar hoje pela manhã à l´Aquila, no centro da Itália, capital da província golpeada por fortes terremotos desde a madrugada de segunda. As cidades parecem bombardeadas, tristes, em guerra nas ruas, fantasmas dentro das casas – todas vazias e abertas pelo abandono súbito dos moradores no momento de maior pânico, durante a madrugada de dois dias atrás. Deixo aqui algumas fotos aproveitando o tempo de conexão do hotel. Amanhã volto pra lá.
[Fui enviado pelo portal Terra.]
