Serei parcial
É impossível saber o número exato de jornais italianos, são muitos os que nascem e morrem todos os anos, diz a tradição empreendedora e de imprensa do país. Há, claramente, os que contam com prestígio e leitores de forma mais ampla: Corriere della Sera, La Repubblica, La Stampa e Il Messaggero, os esportivos Gazzetta dello Sport e Corriere dello Sport e o econômico Il Sole 24 Ore.
A guerra falsamente ideológica cotidiana que diverte quem ainda acredita em esquerda e direita fica polarizada entre Corriere della Sera e La Repubblica. Diferentemente do que acontece no Brasil, são poucos os jornais que pagam de isentos por aqui – o que não significa que sejam santos, mas ao menos não partem da premissa de vender algo impossível (a isenção).
O Corriere, mesmo depois de ter aberto voto à favor de Prodi e da “centro-esquerda” em 2006, é hoje um jornal claramente Berlusconista. O diário milanese é controlado por um grupo de mais de duas dezenas de donos, entre eles, membros da família Agnelli (dona da Fiat), Pirelli, Benetton, bancos e seguradoras. É natural que siga o governo e se preocupe mais em vender carros do que em fazer a revolução.
O posicionamento do romano La Repubblica não é propriamente “de esquerda”, apesar de seu controlador ser identificado com o Partido Democrático (PD). Muito mais do que defender alguma ideologia ou xamanismo, Carlo De Benedetti, controlador do jornal, faz um ataque claro contra Berlusconi, seu inimigo pessoal depois de uma longa disputa judicial na qual De Benedetti perdeu o controle acionário da maior editora de livros do país, a Mondadori, para o grupo Fininvest, do primeiro-ministro.
É briga de bugio, mas tem seu lado positivo: já sei exatamente o que vou encontrar quando abro um ou outro jornal – algo bem mais honesto do que se dizer imparcial, como fazem os jornais brasileiros. Não por que fazer isso (se dizer isento e não ser) faça parte do plano da Midia Má brasileira para a dominação mundial. É questão de atualizar alguns conceitos – a cada dia menos pessoas acreditam em imparcialidade, a cada dia menos pessoas acreditam em esquerda e direita, a cada dia menos pessoas acreditam em deus. O mundo não anda tão mal assim, afinal.
Agora o blog da Petrobras
Todo mundo em chamas defendendo e atacando o Papa e o Cristo, recebo um e-mail pedindo pra postar sobre o blog da Petrobras.
Li muita coisa por aí, faço o resumo do mundo em dois atos:
1) Há os que odiaram a idéia por que a Petrobras “entrega” os furos dos jornalistas, os pressionando. Alguns até a chamam de “ilegal”.
Bem, bem, BEM: ilegal ela não é. No máximo, quebra uma relação de confiança entre jornalista e fonte – uma relação importante, sem dúvida, mas nem por isso um dogma. Jornalistas, aliás, quando acham que o furo vale a pena, fritam a fonte no George Foreman Grill – não deveriam se espantar, portanto, quando a brasa pega fogo do outro lado.
Isso se aplica também na parte sobre “entregar os furos ou informações exclusivas” obtidas pelos jornalistas ao divulgar as perguntas. Pode ser uma tremenda implosão no relacionamento, mas continua sendo do jogo. Além do mais, me espanto em saber que tem gente por aí entregando “furo” em perguntas via e-mail.
2) Há os que acharam genial que uma estatal tenha criado um blog para publicar as perguntas feitas por jornalistas e suas versões do fato. Acham genial por que, nossa, olha aí a tão pedida transparência. Desiludam-se, farrapos: esse blog não foi criado para dar transparência a absolutamente nada, foi criado, isso sim, para defender a opinião de quem comanda a empresa. No meio de tudo o que será postado haverá tantas verdades, mentiras e omissões quanto há em qualquer um dos jornais que foram expostos no próprio blog.
Acreditar que “A VERDADE” sobre a Petrobras aparecerá em um blog gerido pela… Petrobras? Menos.
Se não tivesse com mais coisas para me preocupar (minha vida), eu faria o seguinte: uma trolha de perguntas pertinentes, suscintas e objetivas à Petrobras. Aposto muito que jamais obteria respostas. Então publicaria todas as perguntas (sem respostas) aqui.
Ficaria tudo bem tran$parente.