L E A N D R O . D E M O R I

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Ninguém acredita nos EUA

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É opinião corrente nos programas de TV diários (são muitos) que mostram a situação do Haiti aqui na Itália. Lembram da falência completa após o Katrina em New Orleans. Chefe da Defesa Civil italiana disse ontem que dinheiro abundante não é questão central na primeira semana, o que conta mesmo é organizar as equipes de busca e socorro, saber o que fazer com elas. “Desde quando os americanos são especialistas em terremotos?”, se perguntam. “Para que servem porta-aviões e marines?”.

A Itália é autoridade no assunto, registra abalos desde a antiguidade – foram mais de 60 os “relevantes” só no século XX. Na semana passada, a terra tremia enquanto almoçávamos. Faz parte da rotina.

Estive no primeiro dia após o terremoto de L´Aquila, fiquei lá por quase uma semana. As primeiras 48 horas são fundamentais, indicam como será a operação nos dias sucessivos. Em L´Aquila, no terceiro dia, dezenas de “cidades de barracas” (tendopoli) haviam sido montadas, todos tinham onde dormir e o que comer de forma organizada — com percalços evidentes, é uma situação limite, afinal, — mas o cenário era incomparável ao mundo-cão de Porto Príncipe. No Haiti, as primeiras 48 horas foram um desastre, as horas sucessivas, a instauração do caos (veja as fotos de um “tribunal popular haitiano”, se tiver estômago).

Há um fator determinante que separa L´Aquila de Porto Príncipe: aqui há cidades vizinhas em condições de suprir o socorro e receber desabrigados; no Haiti, não.

Italianos estão indignados porque não conseguem chegar na ilha. Não têm autorização, são barrados pela burocracia e pela ausência de governo e comando no país. As melhores equipes de socorrro do mundo não assistem o Haiti, assistem ao Haiti, pela TV.

Vi, até agora, poucas fotos de cães de busca, “tecnologia” imbatível para encontrar desaparecidos e corpos. As manchetes falam nos milhões prometidos aqui e ali. Milhões que, numa hora dessas, soam como um pote de ouro em uma ilha deserta.

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Serei parcial

É impossível saber o número exato de jornais italianos, são muitos os que nascem e morrem todos os anos, diz a tradição empreendedora e de imprensa do país. Há, claramente, os que contam com prestígio e leitores de forma mais ampla: Corriere della Sera, La Repubblica, La Stampa e Il Messaggero, os esportivos Gazzetta dello Sport e Corriere dello Sport e o econômico Il Sole 24 Ore.

A guerra falsamente ideológica cotidiana que diverte quem ainda acredita em esquerda e direita fica polarizada entre Corriere della Sera e La Repubblica. Diferentemente do que acontece no Brasil, são poucos os jornais que pagam de isentos por aqui – o que não significa que sejam santos, mas ao menos não partem da premissa de vender algo impossível (a isenção).

O Corriere, mesmo depois de ter aberto voto à favor de Prodi e da “centro-esquerda” em 2006, é hoje um jornal claramente Berlusconista. O diário milanese é controlado por um grupo de mais de duas dezenas de donos, entre eles, membros da família Agnelli (dona da Fiat), Pirelli, Benetton, bancos e seguradoras. É natural que siga o governo e se preocupe mais em vender carros do que em fazer a revolução.

O posicionamento do romano La Repubblica não é propriamente “de esquerda”, apesar de seu controlador ser identificado com o Partido Democrático (PD). Muito mais do que defender alguma ideologia ou xamanismo, Carlo De Benedetti, controlador do jornal, faz um ataque claro contra Berlusconi, seu inimigo pessoal depois de uma longa disputa judicial na qual De Benedetti perdeu o controle acionário da maior editora de livros do país, a Mondadori, para o grupo Fininvest, do primeiro-ministro.

É briga de bugio, mas tem seu lado positivo: já sei exatamente o que vou encontrar quando abro um ou outro jornal – algo bem mais honesto do que se dizer imparcial, como fazem os jornais brasileiros. Não por que fazer isso (se dizer isento e não ser) faça parte do plano da Midia Má brasileira para a dominação mundial. É questão de atualizar alguns conceitos – a cada dia menos pessoas acreditam em imparcialidade, a cada dia menos pessoas acreditam em esquerda e direita, a cada dia menos pessoas acreditam em deus. O mundo não anda tão mal assim, afinal.


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