Ouvindo entrevista
Que fiz com um empresário calabrês sobre as tentativas de extorsão da máfia local, a ‘Ndrangheta.
Trecho recém degravado:
“Quantas vezes pediram [os mafiosos] para empregarmos pessoas? Muitas. Se fizéssemos isso estaríamos ‘tranquilos’. Mas negamos sempre. E sempre que negamos, sofremos atentados.
Atearam fogo em um furgão da empresa em 1985. Depois, começaram a disparar contra nossos carros, contra nossas casas. De 85 até hoje queimaram seis carros e um galpão. Recebemos telefonemas no meio da madrugada, ameaças, sofremos perseguições. Em 1995 encontrei no terreno da minha casa a cabeça de um lobo com a própria cauda na boca, costurada. Aquilo era uma recado claro: na próxima, te matamos.”
A reportagem sairá na edição de maio da revista Comunità Italiana.
Matéria no Jornal Nacional
Saiu ontem no Jornal Nacional da TV Globo matéria que fiz junto com a Mariana Becker. A reportagem foi feita em uma minúscula cidade de 800 habitantes, escondida nos apeninos italianos. O vídeo está aqui.
Caso Battisti na revista IstoÉ
Reportagem minha e do Mário Camera sobre refugiados/ex-terroristas italianos em situações semelhantes a de Cesare Battisti.
Parceria com a Cartola Conteúdo.
“Tiros, trapaças e laranjas de papel”
Artigo assinado por mim, publicado hoje no caderno “Cultura” do jornal Zero Hora. É o post prometido sobre os confrontos entre italianos e trabalhadores africanos na Calábria.
Bom final de semana.
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“Por trás dos conflitos entre locais e imigrantes africanos em Rosarno, na Itália, no início deste ano, está, mais do que o racismo, a extensa influência criminosa da máfia calabresa ‘Ndrangheta
Cerca de 6 mil afiliados; bases na Itália, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Bolívia, Inglaterra, Suíça, Holanda e outra dezena de países pelo mundo; oligopólio de mercado na Europa; controle da produção e do transporte por meio de joint-ventures; faturamento de 44 bilhões de euros ao ano. Esta potência econômica não está ao lado do Google na lista das melhores empresas para trabalhar, tampouco se pode mandar currículo para ela. A multinacional bilionária se chama ‘Ndrangheta, máfia calabresa que faz companhia às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em outra lista, o Kingpin Act, elenco seleto elaborado pelo governo dos Estados Unidos com os nomes mais perigosos e influentes no mundo subterrâneo do tráfico global de drogas.
É a inflamável ‘Ndrangheta, e não a xenofobia puramente ideológica, a responsável pela revolta de cerca de 1,5 mil trabalhadores africanos na cidade calabresa de Rosarno, na Itália, que há duas semanas incendiaram carros, quebraram latões de lixo, trancaram a principal rodovia da região, instauraram o caos. Os confrontos teriam começado por um episódio particularmente sádico. Dois italianos brancos passeiam de carro quando, no caminho, avistam dois africanos negros.
Os italianos brancos – e xenófobos – pegam um fuzil de pressão que, por acaso, está no carro, e desferem dois tiros contra os africanos negros. Feridos, os africanos contam o fato a outros africanos, também negros. Todos saem às ruas e transformam a cidade em praça de guerra. Revoltada, a população local (cidadãos brancos e xenófobos como os dois atiradores casuais) sai às ruas para defender sua terra.
O episódio dos atiradores é verdadeiro. Apontá-lo como ato de xenofobia pura e simples e dar a ele o título de causa isolada do quebra-quebra, não. As 48 horas de confrontos entre africanos, cidadãos locais e polícia caíram na vala comum do racismo que faz manchetes: italianos brancos versus africanos negros. Foi planejada exatamente para isso. A estratégia da máfia local é empurrar a população contra o governo que vem combatendo os clãs com prisões, sequestro de bens e cassação de políticos corruptos – em 2008, o prefeito de Rosarno foi preso e todos os dirigentes políticos cassados por infiltração mafiosa junto à ‘Ndrangheta. A intenção é passar a velha imagem de que, se não incomodados, os clãs mafiosos locais mantêm a ordem pública costumeira.
O crime não faz aflorar somente a desgraça dos atentados, do medo e da lei do silêncio. Toda atividade criminal de tipo mafioso busca a estabilidade social e financeira em seu território de controle. Na Campania – Napoli e seus arredores – a Camorra representa concreto, obras, prosperidade. Na Calábria, terra dos mais poderosos clãs mafiosos da atualidade, o benessere social também se reproduz pelos canais da ‘Ndrangheta. Ali, como um organismo vivo que escorre do terreno montanhoso da península, reluz a planície de Gioia Tauro e sua potente cultura de laranjas e tangerinas, gerida direta ou indiretamente pela máfia. Além disso, os clãs exercem poder sobre o principal porto de contâineres do Mediterrâneo, na cidade de Gioia Tauro, destino de 80% da cocaína que abastece a Europa. É a máfia que contrata, transporta e semi-escraviza a maior parte dos trabalhadores estrangeiros em situação precária como os que se rebelaram. É ela que, agora, em tempos de crise, degradou ainda mais suas posições sociais e os provocou esperando motim.
A simplificação da realidade tanto conforta quanto emburrece. É claro que há racismo na Itália e na Europa como um todo (e não só), mas explicar os horrores do mundo de modo familiar e conhecido para apontar de forma clara os bandidos e os mocinhos é um caminho tão fácil quanto desleal. Para entender histórias como a dos confrontos em Rosarno, ninguém na Calábria passa os olhos em artigos de antropologia social, em notícias rasteiras de jornais ou nas reconfortantes e sempre éticas declarações da ONU. Todos procuram esqueletos nos porões da ‘Ndrangheta, senhora de todas as coisas e lei de todas as leis.
Nesses porões se esconde o caso das “Laranjas de Papel”. Até 2004, uma fraude aplicada por cooperativas guiadas pelos clãs engordou mafiosos, dirigentes e donos de terra com dinheiro de subsídios da União Europeia. Para cada quilo de laranja colhida, a UE versava na conta de cooperativas rurais um percentual extra que engrossava os ganhos dos produtores. Em 2004, inspeções ruíram o sistema: dos 250 caminhões de laranja declarados em uma operação, apenas 12 existiam. Com base em papéis fraudados, milhões de euros abasteciam o sistema criminal de modo rápido e eficiente. Era a multiplicação das frutas. Há dois anos, aconteceram outras 45 prisões pelo mesmo golpe das “Laranjas de Papel”. Os 11 milhões de toneladas declarados? Jamais existiram. O tiro mortal foi desferido pela crise econômica mundial: sem o dinheiro fácil dos subsídios e com a economia no vermelho, as vagas no campo diminuíram. Grupos de coletores nômades que se revezam entre a colheita de tomates no verão e laranjas no inverno foram se acumulando sem emprego de maneira vertiginosa. Era preciso “se livrar” deles.
Após os confrontos em Rosarno, 1,1 mil trabalhadores braçais foram transferidos para outras regiões. A cidade vive, por agora, dias sem imigrantes. O tempo, no entanto, não para, laranjas e tangerinas voltarão a colorir os pés na próxima colheita e trarão de volta a mão-de-obra sem a qual a planície calabresa não sobrevive. E eles trabalharão lá, como fazem desde o início dos anos 90, vivendo em harmonia com a comunidade local – a xenofobia ideológica e sem controle não é roteiro-chave para explicar a história da revolta africana na Itália. Não porque o Estado italiano evitaria aqueles disparos que foram o estopim da crise, ou porque puniria seus autores, até hoje desconhecidos. Em Rosarno, na Calábria, ninguém tem medo do Estado. Todo mundo sabe que em Rosarno, e em toda a Calábria, a única coisa a temer é a máfia, verdadeira dona dos canos fumegantes.”
LEANDRO DEMORI *
* Jornalista, mora na Itália e estuda Investigação, Máfia e Sistemas criminais pela Associação de Jornalismo Investigativo de Roma
Ninguém acredita nos EUA
É opinião corrente nos programas de TV diários (são muitos) que mostram a situação do Haiti aqui na Itália. Lembram da falência completa após o Katrina em New Orleans. Chefe da Defesa Civil italiana disse ontem que dinheiro abundante não é questão central na primeira semana, o que conta mesmo é organizar as equipes de busca e socorro, saber o que fazer com elas. “Desde quando os americanos são especialistas em terremotos?”, se perguntam. “Para que servem porta-aviões e marines?”.
A Itália é autoridade no assunto, registra abalos desde a antiguidade – foram mais de 60 os “relevantes” só no século XX. Na semana passada, a terra tremia enquanto almoçávamos. Faz parte da rotina.
Estive no primeiro dia após o terremoto de L´Aquila, fiquei lá por quase uma semana. As primeiras 48 horas são fundamentais, indicam como será a operação nos dias sucessivos. Em L´Aquila, no terceiro dia, dezenas de “cidades de barracas” (tendopoli) haviam sido montadas, todos tinham onde dormir e o que comer de forma organizada — com percalços evidentes, é uma situação limite, afinal, — mas o cenário era incomparável ao mundo-cão de Porto Príncipe. No Haiti, as primeiras 48 horas foram um desastre, as horas sucessivas, a instauração do caos (veja as fotos de um “tribunal popular haitiano”, se tiver estômago).
Há um fator determinante que separa L´Aquila de Porto Príncipe: aqui há cidades vizinhas em condições de suprir o socorro e receber desabrigados; no Haiti, não.
Italianos estão indignados porque não conseguem chegar na ilha. Não têm autorização, são barrados pela burocracia e pela ausência de governo e comando no país. As melhores equipes de socorrro do mundo não assistem o Haiti, assistem ao Haiti, pela TV.
Vi, até agora, poucas fotos de cães de busca, “tecnologia” imbatível para encontrar desaparecidos e corpos. As manchetes falam nos milhões prometidos aqui e ali. Milhões que, numa hora dessas, soam como um pote de ouro em uma ilha deserta.
A lógica do pinheirinho de natal
Ontem fui dar minha primeira contribuição anual às festas cristãs e ao mundo ao andar pela praça da cidade jogando cascas de castanha pelo chão. As castanhas (recém saídas da brasa) estavam ótimas, as cascas eu tenho certeza que alguém com renda mensal melhor do que a minha recolheu. Gosto do natal como quase todo bom ateu, principalmente da decoração quase brega de morrer, da corrida infantil, luzinhas que piscam e bobalhões gordos de barba falsa e suas renas de madeira aterrorizantes.
Ando aproveitando ao máximo as luzinhas quase bregas desse ano porque gosto mesmo delas e já não tenho certeza quanto tempo durarão. No início do mês, a Corte Europeia proclamou que a Itália deveria retirar das salas de aula todos os crucifixos em nome do “pluralismo religioso” em órgãos públicos. Para a Corte, o Estado não pode “patrocinar” uma religião em detrimento das outras – que crescem a cada dia juntamente com a imigração. A decisão poderá ser estendida a todos os órgãos públicos: nada de crucifixos em hospitais, estações de trem, pontos de atendimento, prefeituras, palácios de governo, delegacias ou correios, nada nada, deve prevalecer a assepsia estatal, já é assim logo ali na França e etc no que concordam – surpreendentemente – boa parte dos italianos.
Andando pelas ruas e cultivando o ódio dos catadores de lixo com meus marrones, andando pelas ruas e vendo as luzes de natal pela última vez. Os acende-e-apaga (e o pinheirinho) foram colocados (e pagos) pela prefeitura da minha cidade, por seu sindaco do Partido Democrático. O prefeito pode sucumbir, já no próximo ano, em nome do pluralismo. Luzinhas de natal e arvorezinha patrocinadas pelo Estado não não, Sr. Luca Ceriscioli, que é o nome do recém eleito. Recém reeleito, aliás. Pega meu voto e ordena que uma equipe da prefeitura, paga com meus impostos, compre símbolos do cristianismo e os espalhe pelo centro histórico? Sr. Prefeito, ora Sr. Prefeito.
Ontem, em referendo, a população da Suíça proibiu a construção de minaretes, aquelas torres que adornam as mesquitas. “Nada de minaretes, Srs. muçulmanos”, disse o povo do país ali de cima, e aqui na Itália a Igreja Romana saiu em defesa das torres. A Igreja, que alega que os crucifixos são parte da cultura e da tradição italianas – e que, portanto, devem permanecer nas escolas – defende também que os minaretes são parte da cultura muçulmana e que devem ser liberados em nome do pluralismo (o mesmo que pode acabar com as luzes de natal). É claro que “cada qual com seu minarete”, que é construído com dinheiro privado e lá bem diferente de Jesus Morto no Colégio. Mas, no fim, acaba dando no mesmo: Jesus Morto e Minaretes e Luzinhas de Natal são cavalos de batalhas de propósitos nem sempre claros a quem só quer comer as castanhas e congelar no frio.
A sociedade italiana, pelo bem da integração com quem chega, pode perder seus crucifixos. A sociedade suíça, pelo bem de quem está lá, poupou a própria vista das torres de outro planeta. Eu, que só quero passear e emporcalhar a praça, posso perder a foto do ano que vem. E você até acha que certos assuntos são “coisa dos políticos” e que não tem nada a ver com isso.

Tá servido?
Soup brasiliana, i viados
Sapatos, ternos, passarela. Automobilismo, futebol, máfia. Pasta, pizza, política, gritaria. A Itália de tantos clichês sustenta a maioria deles com poucas exceções (ninguém por aqui sai dançando a “tarantella”). Um dos clichês italianos menos famosos e que parece cada vez mais se abrir para o mundo é a adoração por travestis. A quantidade de homenzarrões com feições masculinas nítidas mesmo em um corpo transformado para feminilizar as expressões chama atenção não só em Roma ou Milão, mas em todas as importantes cidades do país.
É um fato consumado e contra isso não há muito o que fazer: talvez a mistura do conservadorismo pouco laico com a personalidade mais ou menos expansiva dos italianos tenha transformado o país no paraíso da transgressão “trans”, centro mundial dos travestis. Os brasileiros (ao menos os que consideram a prostituição uma profissão como qualquer outra) podem se orgulhar de um feito nessa nem tão nova tradição da península: somos os maiores exportadores de mão-de-obra qualificada. Travestis “brasiliani” trabalham a peso de ouro, estão espalhados por todo o país em maior número do que qualquer outra nacionalidade e chegam a faturar 10, 15, 20 mil euros por mês. Depende quase sempre do tamanho da “experiência”. Conforme depoimentos dos próprios trans, a maior parte dos clientes quer “ser a mulher” – e exige grandes emoções.
Em geral, nossos “viados” (como são normalmente chamados por aqui) vivem por seis meses na Itália e fazem uma pequena fortuna antes de retornar para o verão do Brasil. Com os euros, podem levar a boa vida tropical, muitas vezes sem precisar trabalhar enquanto estiverem em casa. Boa parte vive essa vida dupla há mais de 10 anos e não trocaria por nada as ruas e condomínios italianos pelo Brasil que antes conheciam: favelas, sertão nordestino, pobreza.
O longo caso de paixão entre parte da Itália e os travestis brasileiros vem sofrendo abalos. No último mês, uma das principais regiões do país, a Lazio, onde está Roma, perdeu seu governador por um escândalo de drogas e extorsão que tinha entre os protagonistas alguns dos nossos “trans”. Piero Marrazzo foi um famoso jornalista de TV antes de se tornar governador em 2005. Teria conhecido Natalie – codinome de um dos travestis brasileiros – em 2001, antes da vida política. Os 8 anos de relações com Natalie terminaram em outubro deste ano, quando a imprensa divulgou a existência de um vídeo que mostrava o governador com o “trans” em cenas gravadas dentro do apartamento de Natalie, na via Gradoli, em uma zona conhecida por ser um dos centros de travestis da capital italiana. Três dias depois, Marrazzo renunciou admitindo sua segunda vida no mundo “dei trans” e se refugiou em um mosteiro às portas de Roma.
O caso de Marrazzo com Natalie não se resume a um jogo de amizade, sexo e cocaína (que o governador admitiu usar frequentemente). O vídeo foi gravado por dois policiais à paisana fora do horário de serviço que, depois, passaram a extorquir Marrazzo – dinheiro em troca de silêncio, euros em troca de viver ou morrer politicamente. Os policiais teriam descoberto o endereço de Natalie e a presença de Marrazzo no apartamento graças à Brenda, outro travesti brasileiro acusado de dedurar o encontro. A história veio à tona e os policiais foram presos acusados de extorsão.
Brenda, de alegadas relações com Marrazzo, morreu nesta semana sufocada por fumaça devido a um incêndio em sua casa. Para a procuradoria, Brenda foi assassinada. Seu computador, que pode conter peças importantes para o mistério, foi encontrado no bidê do banheiro sob água corrente. Um sinal, uma ameaça a quem mais ousasse abrir a boca? O problema não seria mais Piero Marrazzo, e sim a lista de outros políticos, empresários e personalidades importantes que frequentam o mundo tropical e de perversão dos “trans brasiliani”. Muitos temem o mesmo destino do ex-governador da Lazio: o apredejamento midiático.
Há ainda outro cadáver a carregar. Um dos envolvidos no caso é Gianguerino Cafasso, denominado pela imprensa italiana como “il pusher” por seu papel na história. Cafasso, um frequentador do sub-mundo romano, se encontrou com diversos jornalistas na tentativa de vender o vídeo. Ninguém comprou a história por dois motivos claros: a filmagem não era “mostrável”, ou seja, era suja demais para ir à público; Marrazzo não faria notícia suficiente para compensar a relação custo/benefício. No mercado dos escândalos na terra dos paparazzi, um vídeo desses pode custar facilmente 300 mil euros. No caso, era muito dinheiro para pouco personagem. Marrazzo por certo não é um Berlusconi.
Gianguerino Cafasso morreu em 12 de setembro, antes da história de Marrazzo se tornar pública, por overdose de cocaína, seu produto de uso habitual. Estava junto com outro travesti brasileiro, sua namorada Jennifer, que teria desistido de cheirar o pó por que “tinha um gosto muito amargo”. Esta semana, em nova autópsia depois da suspeita morte de Brenda, descobriu-se que Cafasso morreu por overdose de heroína, trabalhada com outro pó branco para que parecesse cocaína. A procuradoria do caso reabriu o inquérito com suspeitas de homicídio voluntário.
Depois do giallo que envolve políticos, travestis, drogas e mortes, a polícia determinou que todos os trans brasileiros que não tenham permissão para residir na Itália deixem o país. É a imensa maioria. Há condomínios inteiros em importantes cidades italianas onde só se fala português e onde o sexo alimenta famílias e cria pequenas fortunas. Como se trata da Itália, no entanto, a ordem será cumprida parcialmente. É provável que muitos fujam por medo: a maioria, no entanto, deve permanecer onde está, trocar de endereço ou, no máximo, dar um tempo no Brasil antes de voltar pra cá e continuar a vida profissional. A “soup brasiliana” dos travestis jamais terá fim.
Raciocinar
Do Estadão de hoje:
Tarso vê pressão ‘fascista’ da Itália e diz que Battisti deve ficar
BRASÍLIA – Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões “humanitárias e políticas”. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências “fascistas” nas ameaças de setores do governo italiano.
“A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana”, disse Tarso. “O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.“
Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.
1. O Partido Democrático (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a favor da extradição;
2. Um de seus principais nomes, o ex-premier Massimo D´Alema, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, disse: ”Battisti é um criminoso, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e deve pagar por isso aqui na Itália, como é praxe”. D´Alema foi secretário nacional da Federação dos Jovens Comunistas Italianos, secretário nacional do Partido Democrático da Esquerda e presidente dos Democratas de Esquerda. Hoje, é vice-presidente da Internacional Socialista (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell’Ulivo (esquerda).
3. Giorgio Napolitano (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o Partido da Refundação Comunista e os Socialistas Democráticos Italianos) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.
4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas pedindo a extradição de Battisti. A moção classifica Battisti como “terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana” e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos “materialmente” por Battisti com tiros “na cabeça ou nas costas” das vitimas.
O texto lembra ainda que “a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados” que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.
Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França – mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.
O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, a melhor coisa é ficar calado.
Fuoco
Começou a chover e a ventar, a partir de agora é temperatura em queda e a única vantagem de morar na praia passa a ser poder ver o mar pela janela todas as manhãs e pensar “que bom que eu moro na praia”. Mar gelado não é mar.
Ontem, já preparando o sangue pro longo inverno, resolvi preparar alguns pimentões comprados na Fiera di San Nicola, uma feira de rua gigantesca que rola aqui na cidade pra fechar o verão. Recheados com salame que eu trouxe da Hungria (condimentados com páprica) + alho, orégano, e óleo de oliva.
Mais alguns outros pratos da casa, aqui.
Imigração ilegal na Itália: muitos pontos sem nó
(Post longo, mas pode servir a quem se interessa pelo tema)
O assunto não é fácil. Moro na Itália há quase um ano, acompanho todos os movimentos em torno da questão e, ainda assim, sempre que penso em escrever algo sinto que não sei o suficiente. E não sei mesmo. É por isso que o Estadão arriscou e errou, errou feio ao tentar falar sobre imigração na Itália – por que também não sabe.
Colei abaixo a matéria publicada neste final de semana pelo jornal, comentarei trecho a trecho deixando aberta a discussão na caixa de comentários. Minha intenção é ampliar a reportagem, contextualizar parágrafos e corrigir algumas coisas, sempre deixando margem para erros que eu próprio possa cometer.
Em itálico, a reportagem do jornal. Sem formatação, minhas observações. Vamos lá.
“Contra ilegais, Itália flerta com o fascismo
Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana
ROMA – Exatos 90 anos após Benito Mussolini lançar o Manifesto Fascista, a Itália está novamente diante do racismo. Com o objetivo de combater a imigração clandestina e a criminalidade, a Justiça italiana já está condenando os primeiros estrangeiros pelo recém-criado “crime de imigração”. Por todo o país, exemplos de intolerância alimentam a polêmica sobre o governo de Silvio Berlusconi, mas também sobre a sociedade italiana, cada vez mais acusada de racismo.
Aqui há dois problemas, um de ordem histórica, outro argumentativo.
1. Há 90 anos, Mussolini e outros 120 ex-combatentes, intelectuais e engajados italianos fundavam um grupo chamado “Fasci italiani di combattimento“, destinado a combater fisicamente o avanço do comunismo. Esse grupo foi usado, assim como outros, para ajudar o governo a frear as idéias do Leste Europeu representadas, sobretudo, pelas primeiras greves. O grupo “Fasci italiani di combattimento” foi o embrião do que viria a ser o Fascismo.
O marco inicial da perseguição racial na Itália não foi a fundação do “Fasci italiani di combattimento”, e sim o decreto lei n. 880 de 1937 conhecido como “leggi razziali“. Posteriormente, outras “leis raciais” foram promulgadas, apertando a perseguição contra não-italianos. Portanto, o manifesto escrito há 90 anos não tem relação direta com o racismo, e sim a “Lei racial” de 1937.
2. Argumentativamente (e aqui vai uma opinião pessoal), comparar qualquer coisa com Mussolini, Hitler, Nazismo ou Fascismo é o caminho mais fácil para lugar nenhum.
A controvérsia sobre o que vem sendo chamado de “deriva fascista” na Itália surgiu há três semanas, quando um bote com cinco imigrantes eritreus foi resgatado na costa da Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo – a principal rota usada por imigrantes ilegais da África para entrar na Europa. Para trás, o grupo havia deixado 73 mortos, vítimas de 20 dias de sede e fome à deriva em águas territoriais europeias. A tragédia transformou-se em debate nacional depois que os imigrantes relataram ter sido avistados por embarcações que lhes negaram socorro durante o trajeto, contrariando uma lei marítima histórica.
A controvérsia sobre esse assunto, ou o estopim dele, surgiu no ano passado e se consolidou em janeiro deste ano quando a imigração ilegal passou a ser considerada, por projeto de lei, um reato passível de multa e expulsão, e não há três semanas.
O caso do barco eritreu é bem mais complexo do que o texto sugere: conforme relatos dos resgatados, o bote foi avistado por cerca de 10 embarcações (todas civis, algumas deram água mas não avisaram a marinha de nenhuma nação e não socorreram ninguém). Por fim, eles foram avistados pela marinha de Malta ainda em águas da Líbia (de onde partiram), que os monitorou também com um avião. Após receberem água da marinha maltesa, os sobreviventes foram “aconselhados” pelos oficias daquele país a continuarem remando em direção à Itália. Em águas italianas, foram salvos pelo governo local e levados à ilha da Lampedusa, ao sul da Sicília. Não por que o governo italiano seja “bonzinho”, mas por que simplesmente cumpriu a lei marítima vigente, coisa que Malta não fez e que não vem fazendo. O parágrafo descontextualizado faz entender que o socorro negado (e o peso dos mortos) cabe à Itália. É um erro grave.
A polêmica cresceu depois que a Justiça de Florença condenou o primeiro estrangeiro à luz da nova lei de “imigração clandestina”. Acusado de furtar uma bicicleta, Samer al-Shomaly, um palestino de 28 anos, foi condenado a pagar uma multa de 5 mil, pena sujeita à conversão em expulsão do país.
A condenação teve como base o Pacote de Segurança, aprovado pelo governo de coalizão de Silvio Berlusconi com o partido de extrema direita Liga Norte em 2 de julho. A legislação tornou-se símbolo do rigor da Itália em relação aos estrangeiros em situação irregular (leia quadro). O texto prevê, entre outras punições, a desapropriação de imóveis alugados a imigrantes ilegais e aumenta de 60 dias para 6 meses o tempo de detenção de clandestinos – palavra que virou sinônimo de “criminoso” no país .
Conheço pouco a lei americana ou as leis de outros países europeus, mas, do pouco que conheço, não vejo muita diferença, sobretudo, em relação à lei dos Estados Unidos. Imigrantes ilegais, na América e em outros países democráticos, também podem ser recolhidos, identificados e expulsos. A Itália não está inventando a roda. Não estou julgando se a lei é boa ou ruim, mas é forçado colocá-la em um contexto para dizer que ela “flerta com o fascismo”. Estamos falando de um imigrante ilegal que cometeu um reato, e não de um esforçado trabalhador com permissão de estadia e trabalho.
Quanto ao tempo de detenção, cabe contextualizar: o número de nacionalidades provenientes do exterior passa de 30. Muitos imigrantes, sobretudo africanos, se negam a falar qualquer coisa quando presos. Quando falam, é preciso identificar em que língua estão tentando se comunicar. Estima-se que a África possua cerca de mil idiomas (entre línguas oficiais e dialetos). Quando o tempo de detenção era de 60 dias, muitos presos eram soltos por que era simplesmente impossível saber de onde vinham.
Isso tudo por que, em casos de repatriação, não se pode mandar a pessoa de volta para o país de onde ela partiu, no caso, frequentemente da Líbia. É preciso mandá-la para casa, é preciso descobrir de que país, cidade ou tribo ela veio. O aumento da detenção provisória, conforme o governo, é para dar mais tempo a esse trabalho.
A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de críticas de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos humanos, da Igreja e de políticos de oposição na Itália e na Europa.
Traduzindo: desencadeou uma onda de críticas da esquerda. Esquerda que, ainda em 1998 (quando era governo), já fazia discursos e leis contra… a imigração ilegal, a mesma que hoje é usada para atacar a direita.
Em 2006, durante o segundo governo (de esquerda) de Romano Prodi, somente o número de imigrantes legais aumentou 21,6% no país. A taxa de ilegais, seguindo a lógica, cresceu de forma vertiginosa – e o governo pouco fez para integrá-los à sociedade. A esquerda está certa? A direita está certa? Não e não.
Esse é um dos motivos pelos quais a Itália não consegue resolver a questão: tudo se tornou, mais uma vez, uma grande brincadeira entre forças políticas alimentadas por gritaria e discussões sem fim, ambos os lados incompetentes a seu modo particular. O texto do Estadão reflete um lado, mas poderia refletir o outro (não menos verdadeiro e não menos incompetente) reescrevendo o parágrafo: “A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de adesões de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos civis italianos, de parte da Igreja que não pode se manifestar abertamente e de políticos de situação na Itália e na Europa.” As duas versões estariam “corretas”, as duas versões seriam simplistas.
Laura Boldrini, alta comissária das Nações Unidas para os Refugiados, considera a lei abusiva. “Há na Itália um estímulo ao ódio que não pode ser aceito em uma sociedade democrática. É como jogar combustível no fogo”, advertiu. “A opinião pública vem sendo alvo de uma campanha que confunde imigrantes com criminosos, ignorando que eles são importantes para a economia e para o bem-estar das famílias.”
Não, a Itália não vem sendo “alvo” de absolutamente nada. O país vive um momento, desde o ano passado, de forte discussão civil sobre o tema. Não passa um dia que não haja ao menos um programa na TV para debater a imigração – e a TV é um bom termômetro dos assuntos que pautam a sociedade deste país. Cada lado, e cada pessoa, expressa seu ponto de vista. Acreditar que haja um “estimulo ao ódio” e que ele vá transformar os italianos em xenófobos é achar que todos são robôs programáveis sem poder de decisão. Poderíamos dizer que, por outro lado, há o “estímulo à convivência pacífica” (e há), mas nem por isso todo mundo vai passar a amar imigrantes de uma hora para outra.
O “estímulo ao ódio” ao qual a Sra. Boldrini se refere é, na verdade, a opinião de parte da sociedade e da classe política italianas contra a imigração ilegal. Dizer que essa opinião “não pode ser aceita em uma sociedade democrática” é – veja só – algo nada democrático. Esse posicionamento pode (e deve) ser aceito em uma sociedade democrática, que supõe a livre expressão de idéias e pensamentos. Ele deveria ser contestado se fosse um pensamento imposto em um regime ditatorial, o que não é o caso. Conclamar o que pode ou não pode ser “aceito em uma sociedade democrática” nesta discussão é pobre e apelativo – ainda mais vindo das Nações Unidas, que deixam que Itália, Grécia, Espanha e outra nações-fronteiras se virem com a imigração ilegal que, no fundo, é um problema europeu e supranacional.
O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, tem posição semelhante: “A Itália não sabe lidar com o fenômeno da imigração porque o conheceu relativamente tarde. Há 10 ou 15 anos, ainda se considerava um país de emigrantes. Ainda não considero o conjunto da sociedade italiana racista, mas é verdade que grupos políticos e setores minoritários da sociedade têm um discurso racista, xenófobo e islamofóbico.”
Reli o parágrafo para ver se tinha perdido algo, mas acredito que não perdi. O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, NÃO tem posição semelhante à de Laura Boldrini. Enquanto ela pinta uma Itália inclinada ao ódio e à criminalização de estrangeiros, uma Itália que aceita opiniões que “não podem ser aceitas em uma sociedade democrática”, ele relativiza apontando duas coisas verdadeiras e fundamentais (essas, sim, parte importante da discussão): a Itália não sabe lidar com a imigração, pois ela é relativamente nova no país, e os setores radicais são minoria.
Além do mais, e Itália é um país de diversidades culturais e sociais enormes, não há unanimidade em praticamente nenhuma questão. Na cidade onde moro há um dialeto incompreensível. Na cidade vizinha, 20 km distante daqui, há outro, diferente deste e também incompreensível a quem é de fora da comunidade. Este é o país reunificado depois passar pela queda de Roma, por séculos vivendo em feudos, cidades-estados, domínios papais, franceses, austro-húngaros e de reis estrangeiros. É tarefa difícil dizer “a Itália é assim” ou “a Itália é assado”. Uma coisa que a Itália não é, contudo, em seu conjunto e na sua maioria, é xenófoba.
Foco das críticas, Roberto Maroni, ministro do Interior, vice-presidente do Conselho Italiano e líder da Liga Norte, argumenta que o Pacote de Segurança reduziu a imigração em 92% em um ano.
Reduziu a imigração ilegal em 92% (como o próprio Maroni diz abaixo), e não a imigração em si. Há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. Um físico japonês que vem para a Itália dar aulas na universidade de Padova é um imigrante, só que legal. Não se pode misturar os dados, até por que a lei não se aplica aos imigrantes, e sim, aos imigrantes ilegais.
Usando o discurso clássico de seu partido, que costuma responsabilizar os imigrantes pela violência, pela pobreza e até pela transmissão de doenças no país, Maroni sustenta que a criminalidade teria caído 14% desde a vigência das medidas: “A única resposta que continuo a dar é ligada à queda da imigração clandestina. Ano passado desembarcaram 14,2 mil clandestinos e neste ano, 1,3 mil.”
Como observação, acrescento: a Lega Nord culpa todo mundo que não seja do norte do país por qualquer coisa, e não somente imigrantes estrangeiros. Há outra migração silenciosa ocorrendo todos os dias na Itália, ainda não mensurada mas potencialmente maior do que a externa, que é a migração de cidadãos que saem do Sul do país (mais pobre) em direção ao rico Norte. Há, inclusive, outro fenômeno ligado a isso, que são as novas “cidades-fantasma”, pequenos municípios que estão sendo esvaziados por conta desse movimento migratório interno. Os discursos da Lega Nord, portanto, são também fortemente voltados contra o Sul italiano, o “Mezzogiorno”, mais ou menos na linha de ataques contra nordestinos no Brasil: “nós trabalhamos para sustentá-los”.
Maroni diz que a criação do “delito de imigração” é uma “medida de proteção” da Itália contra os clandestinos.
Dados do Departamento de Administração Penitenciária: dos 58 mil detentos nas prisões do país, 21,5 mil são estrangeiros (2008), o que representa 27% do total. Desses 21,5 mil, a maioria esmagadora é composta por imigrantes ilegais. Os números estão ao lado de Maroni (da extrema-direita) assim como estavam ao lado de Prodi (da esquerda) quando ambos fizeram leis contra a imigração ilegal alegando “medida de proteção”.
Quem atravessa o canal da Sicília em um barco tem dois problemas principais: ou foge de guerras, ou da miséria – ou ambos. No primeiro ponto, a Itália é o país que mais concede asilo político na Europa, conforme dados oficiais: dos 22 mil pedidos de 2008, quase 11 mil foram aceitos. A Grécia, outro destino marítimo dos ilegais, segundo a revista Panorama (importante publicação nacional), concede cerca de 1% dos asilos pedidos. Mais dados sobre a Grécia aqui.
Por outro lado, quem atravessa o mar fugindo da miséria, por mais duro que possa parecer, não tem permanência assegurada no país – assim como não teria em boa parte dos países do mundo. As leis para entrada de estrangeiros precisam ser observadas, as pessoas precisam ter trabalho e residência. Mais uma vez, a Itália não está inventando leis ou paradigmas, não consigo enxergar a “deriva fascista”.
A Liga Norte, que tem 8% dos votos no Parlamento, teve uma página na rede de relacionamentos Facebook bloqueada há dez dias. Criado pela seção do partido da cidade de Mirano, no norte do país, o perfil tinha como slogan o lema “Torturar clandestinos é legítima defesa!”.
A seção da Lega Nord de Mirano havia criado um jogo chamado “rimbalza il clandestino”, algo como “mande o clandestino de volta”. Vencia quem evitava que um maior número de barcos ilegais vindos da África aportassem na Itália. O aplicativo foi tirado do ar.
Um dos mais de 400 “amigos” da página era Umberto Bossi, fundador da Liga Norte e ministro do governo Berlusconi. Ao ser cobrado pela imprensa italiana sobre o conteúdo racista do perfil, Bossi evocou o apoio popular às suas causas: “O pecado que a Liga porta é o voto.”
Extremista entre os extremistas, Umberto Bossi é o fundador da Lega Nord e um separatista por convicção. Defende a criação do estado independente da Padania, que abrangeria as regiões Norte e algumas do Centro do país (Vale de Aosta, Piemonte, Ligúria, Lombardia, Trentino-Alto Adige, Vêneto, Friuli-Venezia Giulia, Emília-Romanha, Marche, Toscana e Úmbria). Se tiver tempo, farei outro post ainda esta semana sobre o assunto Lega Nord + Padania.
Em 2008, uma lei proposta pelo Ministério do Interior da Itália passou a autorizar prefeitos a receber denúncias anônimas que levem à prisão de imigrantes clandestinos em todo o país. A”permissão” foi bem aproveitada por Leonardo Ambrogio Carioni, prefeito de Turate, na Lombardia, norte da Itália.
Mais uma vez, não se trata de discutir a moralidade ou eficácia da lei, mas de saber se o mote da matéria faz sentido.
A Itália tem mais de 8 mil municípios, praticamente nenhum abraçou essa causa. Há outro exemplo mais esclarecedor: em julho, um desenho de lei foi aprovado nos moldes de uma norma existente na Alemanha e na Grécia, que dizia que os médicos deveriam denunciar os imigrantes ilegais que buscassem tratamento. Prontamente, a ordem médica italiana se posicionou contra a lei e, de fato, até hoje, houve apenas um caso de denúncia conhecido. Fazer a leitura desse episódio é importante para saber se, como diz a linha de apoio da reportagem, as “Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana.
Desde o início do ano, um escritório abre as portas na cidade uma vez por semana para receber a “colaboração” popular contra estrangeiros que vivam sem documentos no país. O Escritório de Controle da Polícia Judiciária de Turate funciona na prefeitura, às quintas-feiras à tarde.
O objetivo é estimular “o cidadão a se tutelar”, segundo argumentou Carioni ao Estado, por telefone. No dia em que a reportagem esteve na cidade, nenhum dos moradores apareceu para prestar queixa contra os estrangeiros da região, a maior parte marroquinos.
Aqui cabe uma ressalva: é uma convenção social chamar todos os imigrantes africanos de “marroquinos”. Marroquino, na Itália, não é necessariamente quem nasceu no Marrocos, assim como “bangladesh” é o vendedor de guarda-chuvas com traços indianos, e “senegal” é o vendedor de bolsas. Não encontrei as estatísticas da cidade para saber se a maioria é de marroquinos. A reportagem também não traz os dados.
“Nossa administração adotou esse método para permitir à população evitar que clandestinos ponham em risco sua segurança”, disse o prefeito, filiado à Liga Norte. Questionado sobre como encarava as críticas de racismo que sua administração vem recebendo, ele pediu para desligar e não atendeu mais a reportagem. Para Carioni, o novo órgão é um instrumento de combate à violência, não de perseguição de ilegais.
Entre os 9 mil habitantes de Turate, há cerca de 800 estrangeiros. Mas o número dos imigrantes em situação irregular é desconhecido.
Segundo funcionários da prefeitura, as delações normalmente são feitas por telefone e depois uma visita é programada. Entre os habitantes da região, as opiniões sobre o Escritório de Controle se dividem.
“Acho justo. Há muitos imigrantes que não trabalham, nem estudam. Eles não fazem nada”, afirmou uma comerciante que não quis se identificar. “Os marroquinos causam problemas.”
Exemplo do uso da palavra “marroquino” na Itália, como me referi acima.
Para o aposentado Giancarlo Rimoldi, de 75 anos, a iniciativa do prefeito tem fundo eleitoral. “Sou apolítico, mas não é difícil perceber que ele está só levando adiante uma bandeira da Liga Norte”, afirmou.
Contrário à medida, Rimoldi disse não ter nada contra os estrangeiros. “Não sou racista contra os que vêm de fora da União Europeia porque os problemas da Itália não têm nada a ver com eles”, afirmou.
E não têm mesmo. Ao contrário, sem imigrantes, a Itália teria decréscimo demográfico – culpa da baixa taxa de natalidade, de apenas 1,29 filho por casal. Sendo um país com número elevado de velhos, o processo produtivo certamente seria afetado. A economia italiana aproveitou mal a onda de crescimento do mundo pré-crise, mas estaria em situação muito pior se não fosse a imigração legal. O problema está, mais uma vez, na imigração ilegal, que não atua de forma consistente na economia e ainda trazem aumento visível da criminalidade.
Mas, em seguida, o aposentado revelou um preconceito mais antigo: “Sou racista em relação aos sulistas. O problema da Itália sempre foi e continua sendo o sul, sustentado por nós.”
Há muito mais coisa a ser dita sobre o assunto. O post ficou longo, mas é necessário que seja assim, – e poderia ter 4 ou 5 vezes mais conteúdo sem esgotar a discussão. Em meio a tudo o que escrevi, há certamente erros de avaliação e leitura de fatos e dados de minha parte, mas só me ative a comentar a reportagem do Estadão por acreditar que ela é incompleta e mostra uma fotografia muito estreita (e por vezes errada) sobre a imigração na Itália. Minhas observações não são a verdade, mas acredito que se aproximam mais dela do que a matéria do jornal. É o tipo do assunto que requer meses de apuração para ser tratado de forma correta. Mais: arrisco dizer que é preciso viver na Itália pra entender toda a sua complexidade.
Vou tentar preparar mais posts sobre o assunto assim que possível.
Na Itália
Todo negro africano muçulmano se chama Abdul.
Todo Abdul africano é um negro muçulmano.
Todo muçulmano africano Abdul é negro.
Carta de cafés para iniciantes
Impossível saber quantos tipos de café a Itália já concebeu. Abaixo, a categoria de base, encontrada em qualquer bar de estação de trem.

[via nerviosismo]
A realidade é insuperável
A visita de Muammar Gheddafi à Itália tem tons tão rocambolescos que chega quase a ser a negação da realidade. Ao contrário, é a super-realidade.
A começar pelas dúvidas da imprensa local sobre como chamar aquela estranha figura vestida como um fã de Star Trek. General? Presidente? Primeiro ministro? De fato, Muammar Gheddafi não tem uma designação no governo do país que comanda, a Líbia. Por lá, ele é conhecido como “Guia da Revolução” – termo que, por motivos óbvios, não vem sendo usado por aqui.
A sucessão de acontecimentos super-reais começou logo no desembarque. Berlusconi, com torcicolo, aparece em quase todas as fotos na mesma posição, ombros duros, pescoço estirado e uma cara de quase dor.
Na imagem de boas-vindas, Gheddafi, em trajes militares, trouxe pendurada no peito uma foto nada discreta, em preto-e-branco. A foto mostrava a prisão de Omar al Muktar, herói líbico anti-italiano conhecido como “Leão do Deserto”, capturado pelas forças militares fascistas na Líbia em 1931, durante a ocupação do país pela Itália.

A foto não veio só. Atrás do Guia da Revolução, um senhor de idade avançada e trajes típicos era reverenciado pela comitiva líbica: trata-se de Mohamed Omar al Muktar, neto e último descendente do Leão do Deserto. Em seu discurso, no entanto, Gheddafi fez questão de ressaltar que a Itália colonial ficou no passado, e que a foto e a visita eram para “comemorar” as relações entre os dois países. Estranho modo.
É a primeira vez que o Guia da Líbia vem à Itália desde que assumiu o governo, após derrubar o rei Idris I, há 40 anos. Isso não significa que ele seja um desinformado. Hoje mesmo, sem perder tempo, Gheddafi pediu ao premier italiano um encontro com mulheres. Foi no cara certo.
Pra fechar o dia, o líder líbico irá dormir em uma tenda beduína, montada nos jardins de uma mansão do século 17. Questão de manter as tradições.
Ah, sim: Gheddafi veio visitar empresários e discutir imigração ilegal com Berlusconi. A Líbia é a principal rota de saída dos africanos que buscam a Europa em balsas pelo Mediterrâneo – todos desembarcam ilegalmente na Itália. Os dois países já têm acordos de cooperação nesse campo. Não funcionam.
Camisas Negras
A Câmara italiana aprovou o decreto pela segurança que vinha sendo objeto de discussões na Itália desde o início deste ano. Existem muitos pontos controversos além dos que foram limados – a idéia original restringia, por exemplo, o acesso à escola a filhos de imigrantes em estado ilegal. Essa parte do texto caiu, mas muitas outras ficaram. Agora, o decreto percorre seu caminho natural ao Senado, onde ainda há duvida se passará, mas tem tudo para ser aprovado.
O decreto tem três eixos principais: imigração clandestina passa a ser punida criminalmente; imigrantes irregulares estão excluídos dos serviços públicos (exceto saúde e escola); foram aprovadas as rondas comunitárias.
Dos três eixos, as “rondas” me chamam mais a atenção . É como se minha vizinha (uma senhora de seus 70 anos) resolvesse montar um grupo, legalizá-lo, comprar uns pares de coletes e sair pela rua a “fiscalizar a ordem pública”. Minha vizinha (e os amigos dela) não poderiam andar armados, não teriam poder legal para pedir documentos ou intervir em atos de criminalidade, sequer poderiam questionar qualquer atitude do cidadão sem que este consentisse, mas passariam a ter legitimidade perante a lei para o vago “fiscalizar a ordem pública”.
A idéia de minha vizinha montar uma ronda e importunar o cara que não recolhe o cocô do cachorro na calçada não me faz temer – apesar de eu acreditar que isso seja dever do estado, o mesmo que aprovou a lei que multa quem não recolhe a merda canina. Mas substitua a minha vizinha por qualquer outro sociopata com idéias menos nobres à esquerda e à direita e comece a temer.
A imigração ilegal é primeira pauta na Itália. Todos os dias, centenas de pessoas cruzam de bote o Mediterrâneo em busca do paraíso. A pressão interna faz com que os legisladores fatalmente se percam. Por outro lado, ONU e Comunidade Européia entretêm a torcida com um blablabla lisérgico de direitos humanos que não serve para absolutamente nada. Não tem coisa mais chinelo de couro e cabelo rasta do que esse papo de “direitos humanos”, uma plataforma social que serve a um bando de neohippies que, na prática, mais atrapalham do que ajudam (exceções nos dedos).
Na prática, querem que a Itália aceite todos os refugiados do mundo, dê asilo e um país para que eles vivam a vida, mas não movem um dedo para entender as fronteiras, discutir a imigração forçada ou (como deveríamos esperar de quem defende os abstratos “direitos humanos”) se perguntar por que essa gente precisa desesperadamente deixar o país onde vive. Talvez, defender os “direitos humanos” no Niger não renda manchetes nos jornais.
“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
O jornal Corriere della Sera publicou hoje uma reportagem sobre as ruas da prostituição em Milão. O texto mostra que as recentes declarações do prefeito contra a atividade ilegal e as multas (€ 500) aplicadas na zona (ops) não estão sendo capazes de esvaziar os quarteirões do sexo na mais rica cidade italiana.
Deixarei de lado a ingenuidade geral (prostituição jamais terá fim) para me concentrar na legenda de uma das fotos da reportagem:
“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
Obviamente há uma falha jornalística grave na legenda.
Faltou dizer que tem “um cliente viado italiano no carro”.
Esses jornalistas,
(tsc tsc)
nunca aprendem.
Epicentro

Viajei por horas entre estradas vicinais para chegar hoje pela manhã à l´Aquila, no centro da Itália, capital da província golpeada por fortes terremotos desde a madrugada de segunda. As cidades parecem bombardeadas, tristes, em guerra nas ruas, fantasmas dentro das casas – todas vazias e abertas pelo abandono súbito dos moradores no momento de maior pânico, durante a madrugada de dois dias atrás. Deixo aqui algumas fotos aproveitando o tempo de conexão do hotel. Amanhã volto pra lá.
[Fui enviado pelo portal Terra.]
Conviver é um exercício diário
Mulher entra no ônibus com o filho pela mão. Como não há cobrador ela pega algumas moedas e alimenta a máquina. Espera pelo bilhete. Há três tipos de ticket e, ao comprar aquele válido por apenas uma hora, ela pede ao motorista para assinalar o horário – o sistema é meio índio. Ele não tem caneta. Ela muito menos. Ele começa a explicar o que ela deveria fazer, enquanto ela argumenta que ele deveria ter caneta. Começa uma discussão à italiana, intimidante para quem vê de fora, normal para quem já se acostumou. No meio da gritaria o motorista pede para que ela olhe nos olhos dele enquanto conversam. Ela se irrita e vai sentar junto ao filho, no meio do carro. Lá na frente, um senhor de uns 80 anos puxa papo e o motorista solta um “gente que não te olha nos olhos não é boa”, alto, para que a mulher ouça. Ela resiste, faz de conta que não ouviu, mas o motorista repete a frase. Ela levanta, vai até perto dele e diz que, ao descer, vai pedir para que seu marido embarque no ônibus e lhe encare nos olhos. No meio de uma das avenidas mais movimentadas da cidade o motorista freia o ônibus, levanta do banco e vai até o meio do carro pedir para que alguém seja “testemunha” dele. “Testemunha do que?”, eu pergunto, “o senhor agiu mal, não merece testemunha que não seja de acusação”, emendo. Ele, tentando consertar, diz que só queria explicar o procedimento no caso de um bilhete não marcado e que, afinal de contas, seria importante que a mulher o encarasse enquanto estavam conversando. Ela volta para o meio do ônibus, pega o filho pela mão, pede para que o motorista abra a porta e diz, olhando para baixo:
“Eu não posso te olhar nos olhos, eu sou muçulmana.”
Convivência é algo que se aprende a duras lições.
O Brasil é um anúncio de TV
Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.
A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.
A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.
Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.
Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.
Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.
O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.
É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.
Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.
































