Tá tudo bem
Desenho feito à mão pela amiga Liana Pithan, chefe de reportagem do Portal Terra e titular do blog Sexta Sessão que, conforme a própria Liana, foi inicialmente concebido para “conservar momentos profissionais hilários e textos impublicáveis – por falta de qualidade, por inadequação à mídia ou por serem bastidores mesmo”.
Acredito que sou um pouco responsável por outro viés do blog, segundo a própria autora: “depois, descobri que jornalistas malucos são muito piores (ou melhores) que qualquer matéria mal escrita, release absurdo e correspondente perdido”.
Aos corações mais preocupados com minha saúde mental, posto outro desenho, mais comportado e inspirado nesta foto.

Tá tudo bem.
A realidade é insuperável
A visita de Muammar Gheddafi à Itália tem tons tão rocambolescos que chega quase a ser a negação da realidade. Ao contrário, é a super-realidade.
A começar pelas dúvidas da imprensa local sobre como chamar aquela estranha figura vestida como um fã de Star Trek. General? Presidente? Primeiro ministro? De fato, Muammar Gheddafi não tem uma designação no governo do país que comanda, a Líbia. Por lá, ele é conhecido como “Guia da Revolução” – termo que, por motivos óbvios, não vem sendo usado por aqui.
A sucessão de acontecimentos super-reais começou logo no desembarque. Berlusconi, com torcicolo, aparece em quase todas as fotos na mesma posição, ombros duros, pescoço estirado e uma cara de quase dor.
Na imagem de boas-vindas, Gheddafi, em trajes militares, trouxe pendurada no peito uma foto nada discreta, em preto-e-branco. A foto mostrava a prisão de Omar al Muktar, herói líbico anti-italiano conhecido como “Leão do Deserto”, capturado pelas forças militares fascistas na Líbia em 1931, durante a ocupação do país pela Itália.

A foto não veio só. Atrás do Guia da Revolução, um senhor de idade avançada e trajes típicos era reverenciado pela comitiva líbica: trata-se de Mohamed Omar al Muktar, neto e último descendente do Leão do Deserto. Em seu discurso, no entanto, Gheddafi fez questão de ressaltar que a Itália colonial ficou no passado, e que a foto e a visita eram para “comemorar” as relações entre os dois países. Estranho modo.
É a primeira vez que o Guia da Líbia vem à Itália desde que assumiu o governo, após derrubar o rei Idris I, há 40 anos. Isso não significa que ele seja um desinformado. Hoje mesmo, sem perder tempo, Gheddafi pediu ao premier italiano um encontro com mulheres. Foi no cara certo.
Pra fechar o dia, o líder líbico irá dormir em uma tenda beduína, montada nos jardins de uma mansão do século 17. Questão de manter as tradições.
Ah, sim: Gheddafi veio visitar empresários e discutir imigração ilegal com Berlusconi. A Líbia é a principal rota de saída dos africanos que buscam a Europa em balsas pelo Mediterrâneo – todos desembarcam ilegalmente na Itália. Os dois países já têm acordos de cooperação nesse campo. Não funcionam.


