Sua vida vale menos que um discurso
Certas profissões têm a capacidade inerente de lhe tirar a alma, é preciso ser muito cuidadoso para não se tornar um bloco de gelo. Falo especialmente do jornalismo, a que conheço melhor. São frequentes as reclamações de colegas por não sentirem mais a dor alheia. Manter-se humano é um exercício diário.
Consegui fugir desse lado robotizante (e até sarcástico) das redações. Foi uma escolha. Não que eu seja sensível ao ponto de não poder, por exemplo, ver fotos de vítimas de homicídios – comuns em um de meus antigos locais de trabalho –, mas certas coisas ainda me dão aquele nó na garganta. Gosto de me sentir vivo.
A morte de Eluana Englaro, ontem, me trouxe tristeza por lembrar de modo tão claro que a vida pode ser desligada. A lei italiana não permite a eutanásia, mas garante a qualquer paciente o direito de recusar tratamento médico. No caso de Eluana, o pedido foi feito pela família ainda nos anos 90 e, ao passar por todas as instâncias legais, acatado. Depois de 17 anos em coma Eluana podia, enfim, morrer.
É estúpido pensar na indignidade de um fim por inanição. Na cama, imóvel, depois de ter a alimentação cortada, Eluana levou quatro dias para morrer. Partiu em silêncio, talvez sofrendo sem poder denunciar a sua dor, como se parassem de regar uma planta. Seu estado real de saúde ainda é um mistério, a imprensa italiana chegou a divulgar que ela não respirava com ajuda de aparelhos, não corria risco de morte, tinha até mesmo ciclos menstruais. Sem comida foi murchando, se apagando aos poucos.
Os acontecimentos políticos que cercaram sua morte mostram mais uma vez que não há limites para a demência. As atitudes de Berlusconi foram além da conta mesmo para os italianos que o avaliam mais como um personagem sem graça de Benigni do que como um estadista. O premier tentou aprovar um decreto-lei de última hora para impedir a morte. Queria passar por cima da Constituição e dos tribunais e foi barrado pelo presidente Giorgio Napolitano. A própria Igreja, obviamente contra a suspensão da alimentação, pediu que “deus perdoasse os envolvidos, mas agora basta de polêmica”. O combate de Napolitano e da Igreja é contra o oportunismo de cena. Para Berlusconi, quem se importa?, sua vida vale menos que 30 segundos no telejornal.
A Itália tem problemas sérios com a imigração ilegal, está ladeira abaixo em termos de crescimento econômico, tem previsões tétricas de PIB para este ano, mas o primeiro ministro fareja os embates, se move no solo arenoso da política como uma planta rasteira que busca os fachos de luz, vive de repercussões e holofotes, a maquiagem e as luzes da ribalta são essenciais para sua fotossíntese neopopulista.
Berlusconi é o pai que se vende sempre como o tradicional protetor do povo (seus filhos), mas que muitas vezes não dá tudo o que esses mesmos filhos pedem. Neste caso as opiniões estavam divididas, mas por seu faro polemicista o premier “lutaria pela vida” – eis o motivo “nobre”, afinal. É o papel de um pai que tenta aprovar um decreto-lei para impedir a morte de um filho, mesmo que outros filhos digam “basta ao sofrimento da família, são 17 anos em estado vegetativo”. É como o genitor que diz: “isso aqui parece bom, mas EU sei que não é, e EU faço isso pelo teu próprio bem”. No fim, o que importa é estar em evidência. Para Berlusconi, “the show must go on”, mesmo que o herói morra no final.