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	<title>Leandro Demori &#187; Estadão</title>
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	<description>Página pessoal do jornalista independente Leandro Demori. jornalismo, política, comportamento, costumes, internet, comunicação, webjornalismo, one-man-news, Brasil, Itália, Porto Alegre, Urbino</description>
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		<title>Blog da década</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 16:55:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Nova Corja &#8211; meu ex-blog até o início deste ano &#8211; foi escolhido pelo jornal O Estado de S. Paulo como um dos 15 blogs mais importantes da década. Está aberta a votação popular para eleger o vencedor. http://www.estadao.com.br/retrospectiva/ Apesar das chances nulas de ganhar (há blogs com audiência brutal concorrendo), ter ficado nessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.novacorja.org/"><strong>A Nova Corja</strong></a> &#8211; meu ex-blog até o início deste ano &#8211; foi escolhido pelo jornal <em>O Estado de S. Paulo</em> como <strong>um dos 15 blogs mais importantes da década</strong>.</p>
<p>Está aberta a votação popular para eleger o vencedor.</p>
<p><a href="http://www.estadao.com.br/retrospectiva/">http://www.estadao.com.br/retrospectiva/</a></p>
<p>Apesar das chances nulas de ganhar (há blogs com audiência brutal concorrendo), ter ficado nessa seleção já valeu muito.</p>
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		<title>Raciocinar</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Nov 2009 11:27:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Do Estadão de hoje: Tarso vê pressão &#8216;fascista&#8217; da Itália e diz que Battisti deve ficar BRASÍLIA &#8211; Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Do <em>Estadão</em> de hoje:</p>
<p><strong><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,tarso-ve-pressao-fascista-da-italia-e-diz-que-battisti-deve-ficar,469194,0.htm#"><em>Tarso vê pressão &#8216;fascista&#8217; da Itália e diz que Battisti deve ficar</em></a></strong></p>
<p><em>BRASÍLIA &#8211; Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões &#8220;humanitárias e políticas&#8221;. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que <strong>identifica influências &#8220;fascistas&#8221; nas ameaças de setores do governo italiano</strong>.</em></p>
<p><em>&#8220;A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana&#8221;, disse Tarso. &#8220;<strong>O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.</strong>&#8220;</em></p>
<p>Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.</p>
<p>1. O <strong>Partido Democrático</strong> (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a <strong>favor da extradição</strong>;</p>
<p>2. Um de seus principais nomes, o <strong>ex-premier Massimo D´Alema</strong>, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, <a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4102706-EI5030,00-Com+Lula+expremier+italiano+defende+extradicao+de+Battisti.html">disse</a>: &#8221;<strong>Battisti é um criminoso</strong>, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e <strong>deve pagar por isso aqui na Itália</strong>, como é praxe&#8221;. D´Alema foi secretário nacional da <strong>Federação dos Jovens Comunistas Italianos</strong>, secretário nacional do <strong>Partido Democrático da Esquerda</strong> e presidente dos <strong>Democratas de Esquerda</strong>. Hoje, é vice-presidente da <strong>Internacional Socialista</strong> (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell&#8217;Ulivo (esquerda).</p>
<p>3. <strong>Giorgio Napolitano</strong> (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o <strong>Partido da Refundação Comunista</strong> e os <strong>Socialistas Democráticos Italianos</strong>) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.</p>
<p>4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou <a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4108883-EI7896,00-Caso+Battisti+deve+ficar+na+esfera+juridica+diz+italiano.html"><strong>moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas</strong> pedindo a extradição de Battisti</a>. A moção classifica Battisti como &#8220;terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana&#8221; e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos &#8220;materialmente&#8221; por Battisti com tiros &#8220;na cabeça ou nas costas&#8221; das vitimas.</p>
<p>O texto lembra ainda que &#8220;<strong>a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro</strong>, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados&#8221; que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.</p>
<p>Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França &#8211; mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.</p>
<p>O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, <a href="http://twitter.com/braziu/statuses/5885916501">a melhor coisa é ficar calado</a>.</p>
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		<title>Imigração ilegal na Itália: muitos pontos sem nó</title>
		<link>http://leandrodemori.com/2009/09/14/imigracao-ilegal-na-italia-muitos-pontos-sem-no/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 16:34:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori</dc:creator>
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		<description><![CDATA[(Post longo, mas pode servir a quem se interessa pelo tema) O assunto não é fácil. Moro na Itália há quase um ano, acompanho todos os movimentos em torno da questão e, ainda assim, sempre que penso em escrever algo sinto que não sei o suficiente. E não sei mesmo. É por isso que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>(Post longo, mas pode servir a quem se interessa pelo tema)</em></p>
<p>O assunto não é fácil. Moro na Itália há quase um ano, acompanho todos os movimentos em torno da questão e, ainda assim, sempre que penso em escrever algo sinto que não sei o suficiente. E não sei mesmo. É por isso que o <strong>Estadão </strong>arriscou e errou, errou feio ao tentar falar sobre <strong>imigração na Itália</strong> &#8211; por que também não sabe.</p>
<p>Colei abaixo a <strong>matéria publicada</strong> neste final de semana pelo jornal, comentarei trecho a trecho deixando aberta a discussão na caixa de comentários. Minha intenção é <strong>ampliar</strong> a reportagem, <strong>contextualizar</strong> parágrafos e <strong>corrigir</strong> algumas coisas, sempre deixando margem para erros que eu próprio possa cometer.</p>
<p>Em <em>itálico</em>, a reportagem do jornal. Sem formatação, minhas observações. Vamos lá.</p>
<p>&#8220;<strong><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,contra-ilegais--italia-flerta-com-o-fascismo,433914,0.htm">Contra ilegais, Itália flerta com o fascismo</a></strong><br />
<em>Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana</em></p>
<p><em>ROMA &#8211; Exatos 90 anos após Benito Mussolini lançar o Manifesto Fascista, a Itália está novamente diante do racismo. Com o objetivo de combater a imigração clandestina e a criminalidade, a Justiça italiana já está condenando os primeiros estrangeiros pelo recém-criado &#8220;crime de imigração&#8221;. Por todo o país, exemplos de intolerância alimentam a polêmica sobre o governo de Silvio Berlusconi, mas também sobre a sociedade italiana, cada vez mais acusada de racismo.</em></p>
<p>Aqui há dois problemas, um de ordem histórica, outro argumentativo.</p>
<p>1. Há 90 anos, Mussolini e outros 120 ex-combatentes, intelectuais e engajados italianos fundavam um grupo chamado &#8220;<a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Fasci_italiani_di_combattimento"><strong>Fasci italiani di combattimento</strong></a>&#8220;, destinado a combater fisicamente o avanço do comunismo. Esse grupo foi usado, assim como outros, para ajudar o governo a frear as idéias do Leste Europeu representadas, sobretudo, pelas primeiras greves. O grupo &#8220;Fasci italiani di combattimento&#8221; foi o embrião do que viria a ser o Fascismo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://leandrodemori.com/wp-content/uploads/2009/09/fasci_di_combattimento_manifesto.jpg"><img class="size-full wp-image-580 aligncenter" style="margin-left: 15px; margin-right: 15px;" title="fasci_di_combattimento_manifesto" src="http://leandrodemori.com/wp-content/uploads/2009/09/fasci_di_combattimento_manifesto.jpg" alt="fasci_di_combattimento_manifesto" width="560" height="394" /></a></p>
<p><strong>O marco inicial da perseguição racial na Itália não foi a fundação do &#8220;Fasci italiani di combattimento&#8221;</strong>, e sim o decreto lei n. 880 de 1937 conhecido como &#8220;<a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Leggi_razziali_fasciste">leggi razziali</a>&#8220;. Posteriormente, outras &#8220;leis raciais&#8221; foram promulgadas, apertando a perseguição contra não-italianos. Portanto, <strong>o manifesto escrito há 90 anos não tem relação direta com o racismo</strong>, e sim a &#8220;Lei racial&#8221; de 1937.</p>
<p>2. Argumentativamente (e aqui vai uma opinião pessoal), comparar qualquer coisa com Mussolini, Hitler, Nazismo ou Fascismo é o caminho mais fácil para lugar nenhum.</p>
<p><em>A controvérsia sobre o que vem sendo chamado de &#8220;deriva fascista&#8221; na Itália surgiu há três semanas, quando um bote com cinco imigrantes eritreus foi resgatado na costa da Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo &#8211; a principal rota usada por imigrantes ilegais da África para entrar na Europa. Para trás, o grupo havia deixado 73 mortos, vítimas de 20 dias de sede e fome à deriva em águas territoriais europeias. A tragédia transformou-se em debate nacional depois que os imigrantes relataram ter sido avistados por embarcações que lhes negaram socorro durante o trajeto, contrariando uma lei marítima histórica.</em></p>
<p>A controvérsia sobre esse assunto, ou o estopim dele, surgiu no ano passado e se consolidou em janeiro deste ano quando a imigração ilegal passou a ser considerada, por projeto de lei, um reato passível de multa e expulsão, e não há três semanas.</p>
<p><strong>O caso do barco eritreu é bem mais complexo</strong> do que o texto sugere: conforme relatos dos resgatados, o bote foi avistado por cerca de <strong>10 embarcações</strong> (todas civis, algumas deram água mas não avisaram a marinha de nenhuma nação e não socorreram ninguém). Por fim, eles foram avistados pela <strong>marinha de Malta</strong> ainda em <strong>águas da Líbia</strong> (de onde partiram), que os monitorou também com um avião. Após receberem água da marinha maltesa, <strong>os sobreviventes foram &#8220;aconselhados&#8221; pelos oficias daquele país a continuarem remando em direção à Itália</strong>. Em águas italianas, foram salvos pelo governo local e levados à ilha da Lampedusa, ao sul da Sicília. Não por que o governo italiano seja &#8220;bonzinho&#8221;, mas por que simplesmente cumpriu a lei marítima vigente, coisa que Malta não fez e que não vem fazendo. <strong>O parágrafo descontextualizado faz entender que o socorro negado (e o peso dos mortos) cabe à Itália.</strong> É um erro grave.</p>
<p><em>A polêmica cresceu depois que a Justiça de Florença condenou o primeiro estrangeiro à luz da nova lei de &#8220;imigração clandestina&#8221;. Acusado de furtar uma bicicleta, Samer al-Shomaly, um palestino de 28 anos, foi condenado a pagar uma multa de 5 mil, pena sujeita à conversão em expulsão do país.</em></p>
<p><em>A condenação teve como base o Pacote de Segurança, aprovado pelo governo de coalizão de Silvio Berlusconi com o partido de extrema direita Liga Norte em 2 de julho. A legislação tornou-se símbolo do rigor da Itália em relação aos estrangeiros em situação irregular (leia quadro). O texto prevê, entre outras punições, a desapropriação de imóveis alugados a imigrantes ilegais e aumenta de 60 dias para 6 meses o tempo de detenção de clandestinos &#8211; palavra que virou sinônimo de &#8220;criminoso&#8221; no país .</em></p>
<p>Conheço pouco a lei americana ou as leis de outros países europeus, mas, do pouco que conheço, não vejo muita diferença, sobretudo, em relação à lei dos Estados Unidos. Imigrantes ilegais, na América e em outros países democráticos, também podem ser recolhidos, identificados e expulsos. A Itália não está inventando a roda. Não estou julgando se a lei é boa ou ruim, mas é forçado colocá-la em um contexto para dizer que ela &#8220;flerta com o fascismo&#8221;. Estamos falando de um imigrante ilegal que cometeu um reato, e não de um esforçado trabalhador com permissão de estadia e trabalho.</p>
<p>Quanto ao tempo de detenção, cabe contextualizar: o número de nacionalidades provenientes do exterior passa de 30. Muitos imigrantes, sobretudo africanos, se negam a falar qualquer coisa quando presos. Quando falam, é preciso identificar em que língua estão tentando se comunicar. Estima-se que a <a href="http://www.ethnologue.com/country_index.asp?place=Africa"> África possua cerca de mil idiomas</a> (entre línguas oficiais e dialetos). Quando o tempo de detenção era de 60 dias, <strong>muitos presos eram soltos por que era simplesmente impossível saber de onde vinham</strong>.</p>
<p>Isso tudo por que, em casos de repatriação, não se pode mandar a pessoa de volta para o país de onde ela partiu, no caso, frequentemente da Líbia. É preciso mandá-la para casa, é preciso descobrir de que país, cidade ou tribo ela veio. O aumento da detenção provisória, conforme o governo, é para dar mais tempo a esse trabalho.</p>
<p><em>A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de críticas de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos humanos, da Igreja e de políticos de oposição na Itália e na Europa.</em></p>
<p><strong>Traduzindo</strong>: desencadeou uma onda de críticas da esquerda. Esquerda que, ainda em 1998 (quando era governo), já fazia <a href="http://www.repubblica.it/online/fatti/nave/piano/piano.html"><strong>discursos e leis contra</strong>&#8230; a imigração ilegal</a>, a mesma que hoje é usada para atacar a direita.</p>
<p>Em 2006, durante o segundo governo (de esquerda) de Romano Prodi, somente o <a href="http://www.corriere.it/cronache/07_ottobre_30/immigrati_boom_italia.shtml">número de imigrantes legais aumentou 21,6%</a> no país. A taxa de ilegais, seguindo a lógica, cresceu de forma vertiginosa &#8211; e o governo pouco fez para integrá-los à sociedade. A esquerda está certa? A direita está certa? Não e não.</p>
<p>Esse é um dos motivos pelos quais a Itália não consegue resolver a questão: <strong>tudo se tornou, mais uma vez, uma grande brincadeira entre forças políticas alimentadas por gritaria e discussões sem fim, ambos os lados incompetentes a seu modo particular</strong>. O texto do Estadão reflete um lado, mas poderia refletir o outro (não menos verdadeiro e não menos incompetente) reescrevendo o parágrafo: &#8220;A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de adesões de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos civis italianos, de parte da Igreja que não pode se manifestar abertamente e de políticos de situação na Itália e na Europa.&#8221; As duas versões estariam &#8220;corretas&#8221;, as duas versões seriam simplistas.</p>
<p><em>Laura Boldrini, alta comissária das Nações Unidas para os Refugiados, considera a lei abusiva. &#8220;Há na Itália um estímulo ao ódio que não pode ser aceito em uma sociedade democrática. É como jogar combustível no fogo&#8221;, advertiu. &#8220;A opinião pública vem sendo alvo de uma campanha que confunde imigrantes com criminosos, ignorando que eles são importantes para a economia e para o bem-estar das famílias.&#8221;</em></p>
<p>Não, a Itália não vem sendo <strong>&#8220;alvo&#8221;</strong> de absolutamente nada. O país vive um momento, desde o ano passado, de forte discussão civil sobre o tema. Não passa um dia que não haja ao menos um programa na TV para debater a imigração &#8211; e a TV é um bom termômetro dos assuntos que pautam a sociedade deste país. Cada lado, e cada pessoa, expressa seu ponto de vista. Acreditar que haja um &#8220;estimulo ao ódio&#8221; e que ele vá transformar os italianos em xenófobos é achar que todos são robôs programáveis sem poder de decisão. Poderíamos dizer que, por outro lado, há o &#8220;estímulo à convivência pacífica&#8221; (e há), mas nem por isso todo mundo vai passar a amar imigrantes de uma hora para outra.</p>
<p>O &#8220;estímulo ao ódio&#8221; ao qual a Sra. Boldrini se refere é, na verdade, a opinião de parte da sociedade e da classe política italianas contra a imigração ilegal. Dizer que essa opinião &#8220;não pode ser aceita em uma sociedade democrática&#8221; é &#8211; veja só &#8211; algo nada democrático. Esse posicionamento pode (e deve) ser aceito em uma sociedade democrática, que supõe a livre expressão de idéias e pensamentos. Ele deveria ser contestado se fosse um pensamento imposto em um regime ditatorial, o que não é o caso. Conclamar o que pode ou não pode ser &#8220;aceito em uma sociedade democrática&#8221; nesta discussão é pobre e apelativo &#8211; ainda mais vindo das Nações Unidas, que deixam que Itália, Grécia, Espanha e outra nações-fronteiras se virem com a imigração ilegal que, no fundo, é um problema europeu e supranacional.</p>
<p><em>O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, tem posição semelhante: &#8220;A Itália não sabe lidar com o fenômeno da imigração porque o conheceu relativamente tarde. Há 10 ou 15 anos, ainda se considerava um país de emigrantes. Ainda não considero o conjunto da sociedade italiana racista, mas é verdade que grupos políticos e setores minoritários da sociedade têm um discurso racista, xenófobo e islamofóbico.&#8221;<br />
</em></p>
<p>Reli o parágrafo para ver se tinha perdido algo, mas acredito que não perdi. O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, NÃO tem posição semelhante à de Laura Boldrini. Enquanto ela pinta uma Itália inclinada ao ódio e à criminalização de estrangeiros, uma Itália que aceita opiniões que &#8220;não podem ser aceitas em uma sociedade democrática&#8221;, ele relativiza apontando <strong>duas coisas verdadeiras e fundamentais</strong> (essas, sim, parte importante da discussão): <strong>a Itália não sabe lidar com a imigração, pois ela é relativamente nova no país, e os setores radicais são minoria</strong>.</p>
<p>Além do mais, e Itália é um país de diversidades culturais e sociais enormes, não há unanimidade em praticamente nenhuma questão. Na cidade onde moro há um dialeto incompreensível. Na cidade vizinha, 20 km distante daqui, há outro, diferente deste e também incompreensível a quem é de fora da comunidade. Este é o país reunificado depois passar pela queda de Roma, por séculos vivendo em feudos, cidades-estados, domínios papais, franceses, austro-húngaros e de reis estrangeiros. É tarefa difícil dizer &#8220;a Itália é assim&#8221; ou &#8220;a Itália é assado&#8221;. Uma coisa que a Itália não é, contudo, <strong>em seu conjunto e na sua maioria</strong>, é xenófoba.</p>
<p><em>Foco das críticas, Roberto Maroni, ministro do Interior, vice-presidente do Conselho Italiano e líder da Liga Norte, argumenta que o Pacote de Segurança reduziu a imigração em 92% em um ano.</em></p>
<p>Reduziu a imigração <strong>ilegal</strong> em 92% (como o próprio Maroni diz abaixo), e não a imigração em si. Há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. Um físico japonês que vem para a Itália dar aulas na universidade de Padova é um imigrante, só que legal. Não se pode misturar os dados, até por que a lei não se aplica aos imigrantes, e sim, aos imigrantes ilegais.</p>
<p><em>Usando o discurso clássico de seu partido, que costuma responsabilizar os imigrantes pela violência, pela pobreza e até pela transmissão de doenças no país, Maroni sustenta que a criminalidade teria caído 14% desde a vigência das medidas: &#8220;A única resposta que continuo a dar é ligada à queda da imigração clandestina. Ano passado desembarcaram 14,2 mil clandestinos e neste ano, 1,3 mil.&#8221;</em></p>
<p>Como observação, acrescento: a Lega Nord culpa todo mundo que não seja do norte do país por qualquer coisa, e não somente imigrantes estrangeiros. Há outra migração silenciosa ocorrendo todos os dias na Itália, ainda não mensurada mas potencialmente maior do que a externa, que é a migração de cidadãos que saem do Sul do país (mais pobre) em direção ao rico Norte. Há, inclusive, outro fenômeno ligado a isso, que são as novas &#8220;cidades-fantasma&#8221;, pequenos municípios que estão sendo esvaziados por conta desse movimento migratório interno. Os discursos da Lega Nord, portanto, são também fortemente voltados contra o Sul italiano, o &#8220;Mezzogiorno&#8221;, mais ou menos na linha de ataques contra nordestinos no Brasil: &#8220;nós trabalhamos para sustentá-los&#8221;.</p>
<p><em>Maroni diz que a criação do &#8220;delito de imigração&#8221; é uma &#8220;medida de proteção&#8221; da Itália contra os clandestinos.</em></p>
<p><a href="http://www.giustizia.it/giustizia/it/mg_1_14_1.wp?facetNode_1=4_54&#038;previsiousPage=mg_14_7&#038;contentId=SST32743">Dados do Departamento de Administração Penitenciária</a>: dos 58 mil detentos nas prisões do país, 21,5 mil são estrangeiros (2008), o que representa 27% do total. Desses 21,5 mil, a maioria esmagadora é composta por imigrantes ilegais. Os números estão ao lado de Maroni (da extrema-direita) assim como estavam ao lado de Prodi (da esquerda) quando ambos fizeram leis contra a imigração ilegal alegando &#8220;medida de proteção&#8221;.</p>
<p>Quem atravessa o canal da Sicília em um barco tem dois problemas principais: ou foge de guerras, ou da miséria &#8211; ou ambos. No primeiro ponto, a <a href="http://www.interno.it/mininterno/export/sites/default/it/sezioni/sala_stampa/interview/Interventi/a_capo_dipartimento_immigrazione/0986_2009_06_24_Morcone_MedideaReview.html?back=/tools/search/index.html%3Faction%3Dsearch%26matchesPerPage%3D10%26displayPages%3D10%26index%3DProgetto+Online%26sort%3D%26category%3D%26searchRoots%3D%252Fit%252F%26searchPage%3D2%26text%3D37%2Bmilla%2B70%2525%2Basilo%26start%3D%26end%3D%26type%3Dnotizia">Itália é o país que mais concede asilo político na Europa, conforme dados oficiais</a>: dos 22 mil pedidos de 2008, quase 11 mil foram aceitos. A Grécia, outro destino marítimo dos ilegais, segundo a revista Panorama (importante publicação nacional), concede cerca de <a href="http://blog.panorama.it/mondo/2009/05/02/piu-sbarchi-in-italia-ecco-le-rotte-dellimmigrazione/">1% dos asilos pedidos</a>. Mais dados sobre a Grécia <a href="http://209.85.129.132/search?q=cache:N3brz59Nb-4J:www.no-fortress-europe.eu/uploadFortress/docs/Report_LIBE_delegation_to_Greece__PT.doc+grecia+taxa+asilo+11%25&#038;cd=9&#038;hl=pt-BR&#038;ct=clnk">aqui</a>.</p>
<p>Por outro lado, quem atravessa o mar fugindo da miséria, por mais duro que possa parecer, não tem permanência assegurada no país &#8211; assim como não teria em boa parte dos países do mundo. As leis para entrada de estrangeiros precisam ser observadas, as pessoas precisam ter trabalho e residência. Mais uma vez, a Itália não está inventando leis ou paradigmas, não consigo enxergar a &#8220;deriva fascista&#8221;.</p>
<p><em>A Liga Norte, que tem 8% dos votos no Parlamento, teve uma página na rede de relacionamentos Facebook bloqueada há dez dias. Criado pela seção do partido da cidade de Mirano, no norte do país, o perfil tinha como slogan o lema &#8220;Torturar clandestinos é legítima defesa!&#8221;.</em></p>
<p>A seção da Lega Nord de Mirano havia criado um jogo chamado <a href="http://facebook-italia.blogspot.com/2009/06/rimbalza-il-clandestino-gioco-virale.html">&#8220;rimbalza il clandestino&#8221;</a>, algo como &#8220;mande o clandestino de volta&#8221;. Vencia quem evitava que um maior número de barcos ilegais vindos da África aportassem na Itália. O aplicativo foi <a href="http://apps.facebook.com/rimbalzaclandestino/">tirado do ar</a>.</p>
<p><em>Um dos mais de 400 &#8220;amigos&#8221; da página era Umberto Bossi, fundador da Liga Norte e ministro do governo Berlusconi. Ao ser cobrado pela imprensa italiana sobre o conteúdo racista do perfil, Bossi evocou o apoio popular às suas causas: &#8220;O pecado que a Liga porta é o voto.&#8221;<br />
</em></p>
<p>Extremista entre os extremistas, Umberto Bossi é o fundador da Lega Nord e um separatista por convicção. Defende a criação do <strong>estado independente da Padania</strong>, que abrangeria as regiões Norte e algumas do Centro do país (Vale de Aosta, Piemonte, Ligúria, Lombardia, Trentino-Alto Adige, Vêneto, Friuli-Venezia Giulia, Emília-Romanha, Marche, Toscana e Úmbria). Se tiver tempo, farei outro post ainda esta semana sobre o assunto Lega Nord + Padania.</p>
<p><em>Em 2008, uma lei proposta pelo Ministério do Interior da Itália passou a autorizar prefeitos a receber denúncias anônimas que levem à prisão de imigrantes clandestinos em todo o país. A&#8221;permissão&#8221; foi bem aproveitada por Leonardo Ambrogio Carioni, prefeito de Turate, na Lombardia, norte da Itália.<br />
</em></p>
<p>Mais uma vez, não se trata de discutir a moralidade ou eficácia da lei, mas de saber se o mote da matéria faz sentido.</p>
<p>A Itália tem mais de 8 mil municípios, praticamente nenhum abraçou essa causa. Há outro exemplo mais esclarecedor: em julho, um desenho de lei foi aprovado nos moldes de uma norma existente na Alemanha e na Grécia, que dizia que os <strong>médicos deveriam denunciar os imigrantes ilegais que buscassem tratamento</strong>. Prontamente, a ordem médica italiana se posicionou contra a lei e, de fato, até hoje, houve apenas um caso de denúncia conhecido. Fazer a leitura desse episódio é importante para saber se, como diz a linha de apoio da reportagem, as &#8220;Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo <strong>expõem intolerância da sociedade italiana</strong>.</p>
<p><em>Desde o início do ano, um escritório abre as portas na cidade uma vez por semana para receber a &#8220;colaboração&#8221; popular contra estrangeiros que vivam sem documentos no país. O Escritório de Controle da Polícia Judiciária de Turate funciona na prefeitura, às quintas-feiras à tarde.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>O objetivo é estimular &#8220;o cidadão a se tutelar&#8221;, segundo argumentou Carioni ao Estado, por telefone. No dia em que a reportagem esteve na cidade, nenhum dos moradores apareceu para prestar queixa contra os estrangeiros da região, a maior parte marroquinos.<br />
</em></p>
<p>Aqui cabe uma ressalva: é uma convenção social chamar todos os imigrantes africanos de &#8220;marroquinos&#8221;. Marroquino, na Itália, não é necessariamente quem nasceu no Marrocos, assim como &#8220;bangladesh&#8221; é o vendedor de guarda-chuvas com traços indianos, e &#8220;senegal&#8221; é o vendedor de bolsas. Não encontrei as estatísticas da cidade para saber se a maioria é de marroquinos. A reportagem também não traz os dados.</p>
<p><em>&#8220;Nossa administração adotou esse método para permitir à população evitar que clandestinos ponham em risco sua segurança&#8221;, disse o prefeito, filiado à Liga Norte. Questionado sobre como encarava as críticas de racismo que sua administração vem recebendo, ele pediu para desligar e não atendeu mais a reportagem. Para Carioni, o novo órgão é um instrumento de combate à violência, não de perseguição de ilegais.<br />
</em></p>
<p><em>Entre os 9 mil habitantes de Turate, há cerca de 800 estrangeiros. Mas o número dos imigrantes em situação irregular é desconhecido.<br />
</em></p>
<p><em>Segundo funcionários da prefeitura, as delações normalmente são feitas por telefone e depois uma visita é programada. Entre os habitantes da região, as opiniões sobre o Escritório de Controle se dividem.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>&#8220;Acho justo. Há muitos imigrantes que não trabalham, nem estudam. Eles não fazem nada&#8221;, afirmou uma comerciante que não quis se identificar. &#8220;Os marroquinos causam problemas.&#8221;<br />
</em></p>
<p>Exemplo do uso da palavra &#8220;marroquino&#8221; na Itália, como me referi acima.</p>
<p><em>Para o aposentado Giancarlo Rimoldi, de 75 anos, a iniciativa do prefeito tem fundo eleitoral. &#8220;Sou apolítico, mas não é difícil perceber que ele está só levando adiante uma bandeira da Liga Norte&#8221;, afirmou.</em></p>
<p><em>Contrário à medida, Rimoldi disse não ter nada contra os estrangeiros. &#8220;Não sou racista contra os que vêm de fora da União Europeia porque os problemas da Itália não têm nada a ver com eles&#8221;, afirmou. </em></p>
<p>E não têm mesmo. Ao contrário, sem imigrantes, a <a href="http://immigrazione.aduc.it/notizia/studio+entro+2050+nasceranno+piu+bambini+immigrati_107489.php">Itália teria decréscimo demográfico</a> &#8211; culpa da baixa taxa de natalidade, de apenas 1,29 filho por casal. Sendo um país com número elevado de velhos, o processo produtivo certamente seria afetado. A economia italiana aproveitou mal a onda de crescimento do mundo pré-crise, mas estaria em situação muito pior se não fosse a imigração legal. O problema está, mais uma vez, na imigração ilegal, que não atua de forma consistente na economia e ainda trazem aumento visível da criminalidade.</p>
<p><em>Mas, em seguida, o aposentado revelou um preconceito mais antigo: &#8220;Sou racista em relação aos sulistas. O problema da Itália sempre foi e continua sendo o sul, sustentado por nós.&#8221;</em></p>
<p>Há muito mais coisa a ser dita sobre o assunto. O post ficou longo, mas é necessário que seja assim, &#8211; e poderia ter 4 ou 5 vezes mais conteúdo sem esgotar a discussão. Em meio a tudo o que escrevi, há certamente erros de avaliação e leitura de fatos e dados de minha parte, mas só me ative a comentar a reportagem do Estadão por acreditar que ela é incompleta e mostra uma fotografia muito estreita (e por vezes errada) sobre a imigração na Itália. Minhas observações não são <strong>a verdade</strong>, mas acredito que se aproximam mais dela do que a matéria do jornal. É o tipo do assunto que requer meses de apuração para ser tratado de forma correta. Mais: arrisco dizer que é preciso viver na Itália pra entender toda a sua complexidade.</p>
<p>Vou tentar preparar mais posts sobre o assunto assim que possível.</p>
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