L E A N D R O . D E M O R I

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“Tiros, trapaças e laranjas de papel”

Artigo assinado por mim, publicado hoje no caderno “Cultura” do jornal Zero Hora. É o post prometido sobre os confrontos entre italianos e trabalhadores africanos na Calábria.

Bom final de semana.

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Por trás dos conflitos entre locais e imigrantes africanos em Rosarno, na Itália, no início deste ano, está, mais do que o racismo, a extensa influência criminosa da máfia calabresa ‘Ndrangheta

Cerca de 6 mil afiliados; bases na Itália, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Bolívia, Inglaterra, Suíça, Holanda e outra dezena de países pelo mundo; oligopólio de mercado na Europa; controle da produção e do transporte por meio de joint-ventures; faturamento de 44 bilhões de euros ao ano. Esta potência econômica não está ao lado do Google na lista das melhores empresas para trabalhar, tampouco se pode mandar currículo para ela. A multinacional bilionária se chama ‘Ndrangheta, máfia calabresa que faz companhia às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em outra lista, o Kingpin Act, elenco seleto elaborado pelo governo dos Estados Unidos com os nomes mais perigosos e influentes no mundo subterrâneo do tráfico global de drogas.

É a inflamável ‘Ndrangheta, e não a xenofobia puramente ideológica, a responsável pela revolta de cerca de 1,5 mil trabalhadores africanos na cidade calabresa de Rosarno, na Itália, que há duas semanas incendiaram carros, quebraram latões de lixo, trancaram a principal rodovia da região, instauraram o caos. Os confrontos teriam começado por um episódio particularmente sádico. Dois italianos brancos passeiam de carro quando, no caminho, avistam dois africanos negros.

Os italianos brancos – e xenófobos – pegam um fuzil de pressão que, por acaso, está no carro, e desferem dois tiros contra os africanos negros. Feridos, os africanos contam o fato a outros africanos, também negros. Todos saem às ruas e transformam a cidade em praça de guerra. Revoltada, a população local (cidadãos brancos e xenófobos como os dois atiradores casuais) sai às ruas para defender sua terra.

O episódio dos atiradores é verdadeiro. Apontá-lo como ato de xenofobia pura e simples e dar a ele o título de causa isolada do quebra-quebra, não. As 48 horas de confrontos entre africanos, cidadãos locais e polícia caíram na vala comum do racismo que faz manchetes: italianos brancos versus africanos negros. Foi planejada exatamente para isso. A estratégia da máfia local é empurrar a população contra o governo que vem combatendo os clãs com prisões, sequestro de bens e cassação de políticos corruptos – em 2008, o prefeito de Rosarno foi preso e todos os dirigentes políticos cassados por infiltração mafiosa junto à ‘Ndrangheta. A intenção é passar a velha imagem de que, se não incomodados, os clãs mafiosos locais mantêm a ordem pública costumeira.

O crime não faz aflorar somente a desgraça dos atentados, do medo e da lei do silêncio. Toda atividade criminal de tipo mafioso busca a estabilidade social e financeira em seu território de controle. Na Campania – Napoli e seus arredores – a Camorra representa concreto, obras, prosperidade. Na Calábria, terra dos mais poderosos clãs mafiosos da atualidade, o benessere social também se reproduz pelos canais da ‘Ndrangheta. Ali, como um organismo vivo que escorre do terreno montanhoso da península, reluz a planície de Gioia Tauro e sua potente cultura de laranjas e tangerinas, gerida direta ou indiretamente pela máfia. Além disso, os clãs exercem poder sobre o principal porto de contâineres do Mediterrâneo, na cidade de Gioia Tauro, destino de 80% da cocaína que abastece a Europa. É a máfia que contrata, transporta e semi-escraviza a maior parte dos trabalhadores estrangeiros em situação precária como os que se rebelaram. É ela que, agora, em tempos de crise, degradou ainda mais suas posições sociais e os provocou esperando motim.

A simplificação da realidade tanto conforta quanto emburrece. É claro que há racismo na Itália e na Europa como um todo (e não só), mas explicar os horrores do mundo de modo familiar e conhecido para apontar de forma clara os bandidos e os mocinhos é um caminho tão fácil quanto desleal. Para entender histórias como a dos confrontos em Rosarno, ninguém na Calábria passa os olhos em artigos de antropologia social, em notícias rasteiras de jornais ou nas reconfortantes e sempre éticas declarações da ONU. Todos procuram esqueletos nos porões da ‘Ndrangheta, senhora de todas as coisas e lei de todas as leis.

Nesses porões se esconde o caso das “Laranjas de Papel”. Até 2004, uma fraude aplicada por cooperativas guiadas pelos clãs engordou mafiosos, dirigentes e donos de terra com dinheiro de subsídios da União Europeia. Para cada quilo de laranja colhida, a UE versava na conta de cooperativas rurais um percentual extra que engrossava os ganhos dos produtores. Em 2004, inspeções ruíram o sistema: dos 250 caminhões de laranja declarados em uma operação, apenas 12 existiam. Com base em papéis fraudados, milhões de euros abasteciam o sistema criminal de modo rápido e eficiente. Era a multiplicação das frutas. Há dois anos, aconteceram outras 45 prisões pelo mesmo golpe das “Laranjas de Papel”. Os 11 milhões de toneladas declarados? Jamais existiram. O tiro mortal foi desferido pela crise econômica mundial: sem o dinheiro fácil dos subsídios e com a economia no vermelho, as vagas no campo diminuíram. Grupos de coletores nômades que se revezam entre a colheita de tomates no verão e laranjas no inverno foram se acumulando sem emprego de maneira vertiginosa. Era preciso “se livrar” deles.

Após os confrontos em Rosarno, 1,1 mil trabalhadores braçais foram transferidos para outras regiões. A cidade vive, por agora, dias sem imigrantes. O tempo, no entanto, não para, laranjas e tangerinas voltarão a colorir os pés na próxima colheita e trarão de volta a mão-de-obra sem a qual a planície calabresa não sobrevive. E eles trabalharão lá, como fazem desde o início dos anos 90, vivendo em harmonia com a comunidade local – a xenofobia ideológica e sem controle não é roteiro-chave para explicar a história da revolta africana na Itália. Não porque o Estado italiano evitaria aqueles disparos que foram o estopim da crise, ou porque puniria seus autores, até hoje desconhecidos. Em Rosarno, na Calábria, ninguém tem medo do Estado. Todo mundo sabe que em Rosarno, e em toda a Calábria, a única coisa a temer é a máfia, verdadeira dona dos canos fumegantes.”

LEANDRO DEMORI *

* Jornalista, mora na Itália e estuda Investigação, Máfia e Sistemas criminais pela Associação de Jornalismo Investigativo de Roma


Este senhor não me violentou

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Eu não sou o “Menino do MEP”.

Achei que seria bom avisar.


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