L E A N D R O . D E M O R I

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Caso Battisti na revista IstoÉ

Reportagem minha e do Mário Camera sobre refugiados/ex-terroristas italianos em situações semelhantes a de Cesare Battisti.

Parceria com a Cartola Conteúdo.


Este senhor não me violentou

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Eu não sou o “Menino do MEP”.

Achei que seria bom avisar.


Rio 2016

This should be a fun Olympics

[via foreignpolicy]


Lembrou um país que eu conheço

A Copa das Confederações que está rolando na África do Sul é um teste para a Copa do Mundo que acontece no ano que vem lá no Mandelão. Viram o que o chefe da delegação do Brasil, coronel Antonio Carlos Nunes de Lima, disse sobre o país?

“Em uma conversa com jornalistas no histórico bairro de Soweto, onde a seleção treina para a partida contra os donos da casa, na quinta-feira, Nunes, ex-chefe de Segurança do Estado do Pará, reclamou bastante (e exatamente) da insegurança no país.

- Eu não daria aprovação para isso aqui (na Copa do Mundo). Depois das seis da tarde existe toque de recolher, não se vê mais ninguém nas ruas. Estou realmente preocupado. Parece uma cidade em guerra permanente. Nem mesmo nós que temos escolta da polícia somos respeitados. Não tem como sair depois do jogo para comemorar a vitória em um bar. Estava pensando em trazer minha família para a Copa, mas já não sei se vou fazer isso – afirmou, bastante preocupado. ”

Além disso, o pé da matéria mostra, foram furtados objetos nos hotéis onde estão hospedados Brasil e Egito.

Lembrou um país que eu conheço, o Braziu, que vai sediar a Copa de 2014. Tenho a sensação que o Ricardo Teixeira, presidente da CBF, lembrou do Braziu também, e logo tomou uma atitude: se reuniu com o presidente Lula para aprovar um pacote de segurança e investir nas polícias estaduais. (Rá, mentira.) Soltou uma nota dizendo que o Coronel fala por si, garantindo que a CBF e os jogadores da Seleção estão muito satisfeitos com o país e que têm “certeza de que o país está muito bem preparado para sediar a Copa do Mundo no ano que vem com brilhantismo”.

As declarações do Coronel não ficaram somente entre boleiros e cartolas. O Senado, atento ao problema, deve disponibilizar ainda esta semana um fundo exclusivo para treinamentos dos batalhões de choque, dado o visível despreparo desses batalhões nos estádios de futebol. (Rá! Mentira de novo.) A Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado exigiu que a CBF forçasse o MELIANTE a “pedir desculpas por sua manifestação contra a África do Sul ou se afaste da delegação“.

Dá gosto de ver uma ação conjunta diante de um problema.


Tudo por vocês

Eu tenho 3 leitores paraguaios, tenho mesmo (são 3), diz o google analytics. Não são leitores que vieram aqui em busca de algo fortuito, fugaz, em busca da última dose de speed, não são leitores que caíram aqui atraídos pelas drogas, pelo sexo fácil ou por videogames desbloqueados – são leitores leitores, passam por aqui quase todos os dias, não minto. Eu tenho 3 leitores paraguaios e hoje, em vez de escrever sobre como funciona a TV pública RAI ou sobre o que Angra 3 tem a ver com usinas nucleares e imigração africana na Itália, eu não – vou divagar sobre eles.

Passei semanas pensando em meus leitores paraguaios (em todos os 3) com carinho especial. Cada leitor paraguaio que cai aqui, calculo, vale mais do que 10 leitores brasileiros (10 não, 100).  A explicação matemática eu não entrego.

Como seriam meus leitores paraguaios? Belas morenas de cor indecifrável? Espanhóis de terceira ou quarta geração ricos e cafonas com seus BMW batidos e cheios de massa de arrumar? Descendentes de coreanos baixos e mal vestidos com tênis brancos branquíssimos? Motoqueiros da morte que cruzam a Ponte da Amizade com quilos de mercadoria contrabandeada (e maconha)? Quanta estrada ao pensamento o Paraguai me dá

Espero que nenhum de meus leitores paraguaios (nenhum dos 3) seja brasiguaio, aquela mistura latina de nós com eles. Você acredita que um brasiguaio é o produto do nosso melhor [preencha ziriguidum] com o melhor deles (as morenas de cor indecifrável)? Eu sou pessimista, caros, e sei que essa nova espécie não é lá das mais. Se algum de meus leitores paraguaios for brasiguaio ele vale menos, bem menos do que 10 leitores legitimamente brasileiros. Ao menos os brasileiros têm ficha corrida e conhecida, os brasiguaios eu não sei.

E eu não os quero aqui.

Eu quero continuar o sonho de ser um escriba internacional. Eu quero ser lido por 3 paraguaios. Vou bloquear o blog para brasiguaios assim que aprovarem aquelas leis sobre guardar os dados de navegação das pessoas.

Aproveita enquanto é tempo. Seu misto.


Látex

Se para um brasilianista é preciso morar por algum tempo no Brasil para tentar entende-lo, para um brasileiro é preciso fugir dele. Se logo nos primeiro dias você se dá conta que nosso problema maior não é a corrupção – na Itália é muito pior – já é um avanço. Se pouco depois você entende que toda a América foi criada pela & para a corrupção aí bate o momento do peralá, por que os EUA são os EUA e nós ainda somos a Selva Inatingível do Turismo Sexual? já começamos a nos etender. Um bom caminho é evitar relativizar tudo e tentar reescrever suas frases, uma a uma, evitando inclusive abrir um texto mental com três delas no condicional como as que escrevi acima, se for possível. Um dos nossos problemas é certamente o excesso de “se”.

Há algumas semanas eu precisava apresentar uma capa para o livro sobre games que estamos escrevendo por aqui. Acabei viajando para a Áustria por conta do caso Josef Fritzl e, quando voltei, a colega Michela já tinha feito uma capa. Era feia. Era terrivelmente feia, assustadoramente feia a tal da capa da Michela. Mas eu que tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-a-minha-capa é que não ia dizer isso. Bem, não precisei. A turma toda resumiu a capa da Michela como uma escolha de vida para ela, foi um verdadeiro teste vocacional o debate sobre a obra. No fim, a Michela entendeu que jamais em hipótese alguma deveria pensar em trabalhar com arte gráfica. Fiquei meia hora sentado sozinho, no final da manhã, café na mesa: “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“. Bananas.

Aqui na Europa eu vejo algumas coisas interessantes que, mais umas vez, nos dão a chance de nos tornarmos uma nação relativamente relevante no universo. Porque não somos nem um pouco, o Lula é só um bufão, aquele cara “figo” com o qual todos se divertem na cachaça mas, na hora de decidir o rumo das coisas, beijinho beijinho. O Lula (o Brasil) não representa nada fora da nossa turma do churrasco, os líderes mundiais acham ele (o Lula, o Brasil, eu, você) um cara LEGAL. E só. Isso é a derrota por inteiro, ser só um “cara legal” é a pior coisa que pode acontecer a alguém. “Esse é o cara”, diz o Obama pro Lula (pro Brasil, pra mim, pra você), e você ri e se sente o máximo por que o imperador do mundo, o filho do tio mais rico da cidade, dono daquela casa com piscina e todos os Comandos em Ação “te considera”. Você só pode estar brincando.

Os gringos têm uma visão estereotipada sobre o Brasil como nós temos sobre eles (neste momento eu não estou pisando uvas ou gritando MATEO pro meu vizinho, por exemplo). Para eles nós somos o país da putaria (e somos), do turismo sexual e do turismo sexual infantil no nordeste (e somos), do crime (e somos), do sol o ano todo (não somos) e da selva inatingível (não somos, o Brasil é urbano há meio século). Na semana passada, enquanto conversava com pessoas que tinham perdido tudo por causa do terremoto, um dos donos do hotel onde estávamos disse que morria de vontade de conhecer o Brasil. “E por que tu não vai?”, perguntei, no que ele me aponta com o indicador a aliança de casamento. É a terceira vez que faço idiotamente a mesma pergunta. Ninguém em sã consciência, casado, vai querer visitar o Brasil. Ao menos não se tiver que levar a mulher junto (não olhem pra mim, a imagem já estava quebrada quando eu cheguei aqui).

Há um outro lado mais lúdico e até ingênuo dos europeus – europeus são muito mais ingênuos do que você pensa –, muitos acreditam fortemente que somos o “país do futuro”, aquele velho papo de sempre mas, hoje, bem revigorado. Dizem isso por que nossa sociedade nutre poucos preconceitos visíveis (fato que certamente formou nosso caráter de gelatina), por que nossa classe média é, em geral, mais estudada, culta e inovadora do que a européia (europeu não estuda) e por que temos espaço para crescer economicamente (é aqui que sempre, sempre aniquilamos com tudo).

Os gringos acreditam nessas coisas mas têm a plena certeza de que tudo isso só será possível por causa deles. Eles sabem que andamos em carros italianos, trabalhamos em computadores japoneses, usamos celulares finlandeses e preservativos americanos. Quer dizer, mesmo fodidos precisamos de látex importado.

O Brasil tem potencial para se tornar um grande país até meados deste século, o nosso problema é a capacidade de conseguir estragar tudo quando podemos avançar alguns dedos na história. É assim desde sempre. Vivo na Itália e, daqui, vejo todos os dias a nossa incompetência como nação. Conseguimos ter um PIB per capita (que é um dos indicadores que mais importa) pior do que o dos italianos. Creiam, amigos, isso é o ápice do fracasso.

Eu prefiro pensar sempre que vamos conseguir estragar tudo novamente, esse pensamento ativa automaticamente a minha zona de conforto mental, vou até o supermercado, pedalo pra casa, bebo umas cervejas e depois, se alguma coisa der certo, vocês me avisem que eu volto correndo e digo “ê, meu país, eu sempre soube, eu sempre soube”.

Mandar no mundo requer uma dose de ousadia, mau-caratismo, mentiras, banditismo e competência administrativa. Fazer tudo isso e ainda passar por evoluído é o que diferencia a França do Níger, a Itália da Líbia ou o Brasil de nós mesmos.


O Brasil é um anúncio de TV

Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.

A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.

A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.

Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.

Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.

Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.

O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.

É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.

Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.


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