L E A N D R O . D E M O R I

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Ainda o blog da Petrobras: efeitos práticos

Talvez todo esse fogo vire fumaça já na semana que vem, essa é a aposta de muita gente, mas fato é que se a Petrobras levar seu blog adiante da maneira como o pintou (divulgando perguntas e respostas a entrevistas antes mesmo que elas sejam publicadas pelos próprios jornalistas) teremos algumas situações para analisar.

A notícia publicada pela BBC, ontem, é um exemplo bem ilustrativo. A emissora inglesa mostra  que o governo de Santa Fe, na Argentina, bloqueou contas da Petrobras por calote no pagamento de impostos. A notícia foi publicada sem a versão da empresa, acrescentada depois.

Algumas considerações:

1. Não acredito que a publicação das perguntas e respostas feitas por jornalistas à Petrobras seja, em si, o problema. Quer ver?

A BBC diz que a Petrobras deve impostos ao governo da província de Santa Fe, na Argentina, e que por isso a Justiça local bloqueou R$ 4,4 milhões de reais da estatal brasileira. Se a repórter quisesse checar a informação com a Petrobras, dar o fundamental “outro lado”, poderia fazê-lo sem problemas: bastaria perguntar à empresa se ela está em dia com suas obrigações fiscais nas plantas que possui fora do Brasil, por exemplo. É  uma pergunta aberta, genérica, mas que cumpre seu papel no caso da denúncia – e sobretudo, não entrega pauta alguma para a concorrência, a grande birra dos jornais.

Talvez se possa argumentar que a pergunta é “aberta” demais, mas não se pode dizer que ela é “pega-ratão” ou protocolar. A situação é forçada pela própria empresa, é o preço a  pagar pela decisão de “entregar o furo”, que não tem nada de ilegal, mas afasta a pergunta objetiva por motivos óbvios.

2. Vamos a notícia em si para entender o que realmente muda, e se essa mudança é positiva.

Ao ser publicada ontem, por volta das 19h20, a notícia não trazia qualquer declaração oficial da Petrobras, seja por meio de entrevista, nota oficial ou post no blog da empresa. A BBC havia checado a informação com duas fontes: a assessoria do governador Hermes Binner e o administrador provincial de Impostos, Nicolas Ruejas.

Na matéria, sequer menção sobre qualquer tentativa de procurar a empresa para ouvir a sua versão do fato.

Por volta das 21h, no entanto, a notícia recebeu o acréscimo do entretítulo “Comunicado”, cinco parágrafos dando a versão da Petrobras em nota emitida pela própria empresa.

Como temos uma situação em que a publicação é online, digamos que houve um gap entre a denúncia e a resposta, um intervalo de cerca de uma hora e meia em que a notícia  permaneceu sem a versão da acusada. Não é o melhor dos mundos, mas se pode editar o texto a qualquer momento, e agora a resposta da empresa está lá. Pelo andar da edição, me parece óbvio que a BBC não procurou a Petrobras antes de publicar a reportagem.

Agora imaginemos essa notícia em um jornal impresso. O que aconteceria? Obviamente não haveria como “emendar” a nota depois do papel rodado. Teríamos em mãos, hoje, uma manchete mostrando que a Justiça argentina bloqueou R$ 4,4 milhões da empresa, acusada de calote. E só. Se o jornal seguisse a lógica de apuração da BBC, não haveria o lado da Petrobras.

Se, mesmo assim, em nome da igualdade, o jornal quisesse dar a versão da empresa, a ouviria no outro dia, e publicaria outra matéria na edição de amanhã. Obviamente essa matéria não teria o mesmo destaque, o mesmo peso e o mesmo interesse de público.

Quem sai perdendo com esse sistema de apuração e edição? Os jornais? A Petrobras? O leitor?

A empresa poderia acusar o jornal de ser parcial por não ter ouvido sua posição?


Blog da Petrobras: para entender

A BBC Brasil acaba de soltar esta notícia:
Província argentina bloqueia contas da Petrobras

O governo da Província argentina de Santa Fé bloqueou as contas bancárias da Petrobras Energia S.A. na Argentina acusando a empresa de não pagar dívidas tributárias com a administração local no valor de 8,5 milhões de pesos (cerca de R$ 4,4 milhões), entre 2003 e 2009.

A medida foi autorizada pela Justiça provincial, atendendo a pedido da Subsecretaria de Ingressos Públicos – o fisco local – ligada à Secretaria de Economia do governo de Santa Fé.

A informação foi confirmada à BBC Brasil, nesta terça-feira, pela assessoria do governador Hermes Binner e pelo administrador provincial de Impostos, Nicolas Ruejas.

“A Petrobras foi notificada, mas ainda não respondeu à nossa iniciativa. As dívidas tributárias atrasadas com a província vão de 2003 até hoje”, disse Ruejas à BBC Brasil.

(…)”

Dada toda a polêmica envolvendo o blog criado pela empresa para dar a sua versão dos fatos (até mesmo antes que as matérias saiam na imprensa), deixo quatro perguntas:

1. A BBC Brasil procurou a Petrobras antes de publicar o “furo” reproduzido acima?

2. Se sim, por que a Petrobras não se antecipou à publicação e postou de antemão sua defesa?

3. Se não, a Petrobras irá se defender através do blog? Parece que, diante dos fatos envolvendo a estatal e seu novo canal de comunicação, isso se torna uma obrigação. Como bem lembra a própria empresa, “a publicação das respostas no blog, antes da decisão editorial de o jornal publicar ou não a reportagem em questão, reforça o objetivo da Petrobras de alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.”

4. Caso não mencione nada em seu blog sobre a denúncia da BBC (ou sobre qualquer outra), a Petrobras admite que não tem outra versão para dar ao fato além daquele que saiu na imprensa?

Se a moda é ditar novos rumos nessa relação, vamos lá, façam a coisa direito para  que todo mundo possa entender.