Camisas Negras
A Câmara italiana aprovou o decreto pela segurança que vinha sendo objeto de discussões na Itália desde o início deste ano. Existem muitos pontos controversos além dos que foram limados – a idéia original restringia, por exemplo, o acesso à escola a filhos de imigrantes em estado ilegal. Essa parte do texto caiu, mas muitas outras ficaram. Agora, o decreto percorre seu caminho natural ao Senado, onde ainda há duvida se passará, mas tem tudo para ser aprovado.
O decreto tem três eixos principais: imigração clandestina passa a ser punida criminalmente; imigrantes irregulares estão excluídos dos serviços públicos (exceto saúde e escola); foram aprovadas as rondas comunitárias.
Dos três eixos, as “rondas” me chamam mais a atenção . É como se minha vizinha (uma senhora de seus 70 anos) resolvesse montar um grupo, legalizá-lo, comprar uns pares de coletes e sair pela rua a “fiscalizar a ordem pública”. Minha vizinha (e os amigos dela) não poderiam andar armados, não teriam poder legal para pedir documentos ou intervir em atos de criminalidade, sequer poderiam questionar qualquer atitude do cidadão sem que este consentisse, mas passariam a ter legitimidade perante a lei para o vago “fiscalizar a ordem pública”.
A idéia de minha vizinha montar uma ronda e importunar o cara que não recolhe o cocô do cachorro na calçada não me faz temer – apesar de eu acreditar que isso seja dever do estado, o mesmo que aprovou a lei que multa quem não recolhe a merda canina. Mas substitua a minha vizinha por qualquer outro sociopata com idéias menos nobres à esquerda e à direita e comece a temer.
A imigração ilegal é primeira pauta na Itália. Todos os dias, centenas de pessoas cruzam de bote o Mediterrâneo em busca do paraíso. A pressão interna faz com que os legisladores fatalmente se percam. Por outro lado, ONU e Comunidade Européia entretêm a torcida com um blablabla lisérgico de direitos humanos que não serve para absolutamente nada. Não tem coisa mais chinelo de couro e cabelo rasta do que esse papo de “direitos humanos”, uma plataforma social que serve a um bando de neohippies que, na prática, mais atrapalham do que ajudam (exceções nos dedos).
Na prática, querem que a Itália aceite todos os refugiados do mundo, dê asilo e um país para que eles vivam a vida, mas não movem um dedo para entender as fronteiras, discutir a imigração forçada ou (como deveríamos esperar de quem defende os abstratos “direitos humanos”) se perguntar por que essa gente precisa desesperadamente deixar o país onde vive. Talvez, defender os “direitos humanos” no Niger não renda manchetes nos jornais.