Ad exstirpanda
Chegamos a Assis em uma manhã fria e ensolarada de sábado. A cidade, como muitas na Itália, fica no topo de uma montanha, protegida por muros altos que serviam para conter invasões. Até chegar à basílica onde está enterrado São Francisco de Assis é preciso percorrer centenas de metros por ruelas medievais nas quais se perder pode fazer parte da visita. Não sou um cara propriamente crente na divindade – não estava lá muito animado, apesar da beleza local.
No meio do caminho passamos pela porta de um antigo palácio ducal que anunciava a exposição de instrumentos de tortura usados durante a avançada Idade Média. Ninguém quis pagar para ver, deixei o grupo de quatro pessoas seguirem sem mim até o túmulo de Assis e entrei. Não havia viva alma na exposição àquela hora da manhã, eu estava sozinho em um prédio do século XI com instrumentos atemorizantes que, possivelmente, tinham a mesma idade daquelas paredes, portas, maçanetas e pisos de tijolos de barro escuro.
Foi estranho.
As fotos têm qualidade ruim por causa da fraca luz ambiente.
A humanidade sempre pode ser pior do que imaginamos.
Derrota
Pelo segundo ano A Nova Corja é indicada para o The Bobs, a premiação mundial de blogs feita pela TV alemã Deutsche Welle. Pela segunda vez nós perdemos porque brazilêru não desisti nunca. Alguém veio dizer que, veja bem, foram 13557 blogs sugeridos e que nós, afinal, somos o quinto melhor blog em língua portuguesa no mundo.
[pausa para mergulho na realidade: língua portuguesa e aramaico = ninguém fala]
Muitos leitores da Corja tinham esperança, acreditavam em uma vitória. Ter esperança é coisa de miss. Ter esperança é pra debutantes. Livro: “O Alquimista”. Sonho: “Um mundo sem guerras”. Prefiro desacreditar e me surpreender vez por outra. Costuma funcionar muito bem.
Voltei de viagem, vi praias, vi neve e peguei trens além da conta – estou morto. Já é quase sexta-feira aqui na Pizza. Vou dormir.
Da impossibilidade
Em dois dias seguidos fizemos uma viagem sem fim pela Itália. Saímos da região de Marche para conhecer Assis e Perugia, na vizinha Úmbria. Depois rumamos para Veneza para aproveitar o baixo preço do ônibus oferecido por uma excursão de estudantes. A experiência de andar (e se perder) em Veneza é indescritível. Saindo das ruas mais movimentadas é fácil restar sozinho em um labirinto de ruelas plenas de silêncio – não há carros na cidade, por certo. Com um pouco de imaginação dá para respirar o mesmo ar de séculos passados, quando a cidade era a grande potência do mundo de cá. Nas ruas mais movimentadas há somente o som dos passos e o vozerio de línguas desencontradas. Nas calles mais longínquas, o absoluto ninguém.
(…)
Conheci um chinês no ônibus, Adam. Perguntou meu nome e não entendendeu nada. Pediu para que eu o escrevesse em uma folha de papel: “Leandro”. Não conseguia pronunciar a palavra de forma alguma antes que eu separasse as sílabas escrevendo “Le an dro”. “Ah, Lee and Ro!”. Adam logo me batizou de Lee, um nome popular pelo oriente, crente que eu realmente me chamasse Lee and Ro, um ser indissociável como Sandy and Jr., Bruno and Marrone, Chitãozinho and Xororó.
(…)
Adam não dormiu no ônibus, ficou acordado tentando conversar (em inglês) por dez horas. Puxava papo com qualquer um que lhe olhasse, implorava por um cruzamento visual de quem quer que fosse. Adam tem medo de dormir em viagens. Há alguns anos, enquanto dormia, o carro que seu pai dirigia capotou e ambos quase morreram. Adam não se recorda de nada, de momentos antes do acidente, de dias depois, nada. O chinês Adam não dorme porque quer se lembrar.
(…)
Amanhã devo ir a Urbino e depois andar um pouco mais ao norte.
(…)
Na sexta posto algumas fotos de tudo, caso não haja a impossibilidade.
Itália profunda, Roma, café
Ontem estive em Roma e não lembro de uma cidade ter me deixado tão alucinado na vida. É verdadeiramente tudo aquilo que se pode pensar como “civilização ocidental”, ashes to ashes, dust to dust. Algumas considerações e fotos:
. O PANTHEON é coisa mais genial do universo. Um edifício de 2 mil anos no meio da cidade. Mesmo depois de ter sido transformado em igreja pela Católica Romana (que alegava ser o local mal-assombrado, capisce?) a parte externa ainda é assustadora. Eu estava fotografando umas flores sem nenhum sentido e, quando saí dos arbustos, vi aquela construção no meio da praça. A sensação que tive é que alguém abriu uma fenda cósmica e botou aquele prédio lá sem me avisar.
. Ao entrar no Vaticano pude imaginar o pivô de ouro do meu avô na parede, completamente trabalhada em metal puro. É tudo imponente e vedadeiramente impressionante, mas fica difícil não lembrar do Busatto (sadksabfks) ao saber como aquele ouro todo foi parar lá. A parte macabra (porque tem que ter, por que o cristianismo É macabro ao ponto de ser simbolizado por um homem pregado em uma cruz) são os corpos de alguns papas em exibição.
. Não vou falar do Coliseu, é covardia. Olhem as fotos e conheçam antes de morrer. Nunca mais comam se for preci$o.
. Em Roma tem manifestação a todo segundo. A impressão que tenho é que nunca levam a nada + nada, ninguém dá bola. Os guias turísticos devem dizer “olha ali uma fonte de 1700. E ali temos uma manifestação” (flashes). As manifestações em Roma acontecem em uma praça bem na frente da embaixada brasileira, que seguramente vale mais do que toda BRASÍLIA. Torcendo pra dar guerra e ter que me refugiar lá.
. Vi um quadro em um bar (e estava sem máquina fotográfica): uma plantação de café GIGANTESCA cheia de bóias-frias trabalhando (e só sei que eram bóias-frias porque eu conheço bóias-frias – a foto era aérea). No rodapé se podia ler [mexer as mãos como um italiano]: “Nossos técnicos inspecionam nossas fazendas diretamente no Brasil para que você beba o melhor café do mundo”. Morri 300 hectares (agora imagine eu bebendo este mesmo café com o MINDINHO levantado neste exato momento).
. Encontrei um cara de Porto Alegre em uma cidade da “ITÁLIA PROFUNDA” com menos de 4 mil habitantes. Tentei me disfarçar de italiano deixando meu nariz já grande em relevo ainda maior, mas ele me viu.
. Ao almoçar um sanduíche imperialista por € 2,45 estava lembrando que não lembro mais o gosto da carne de gado. Sonho com churrasco todos os dias. O preço do quilo da carne aqui no Berlusca é pornográfico. Mas temos opções.
. Ceva italiana = NUNCA BEBA. Birra Moretti = Skol.
Preciso encontrar um contrabandista que vá à Bélgica URG.nt.

































