L E A N D R O . D E M O R I

Mondo Politiche

Terrorismo démodé?

É o que diz o Fabio Mini, general italiano que entrevistei pra Revista Galileu.

O senhor defende que o terrorismo está em decadência. Por quê?
– O terrorismo está em queda e isso se vê nas estatísticas. Olhando os locais onde ocorrem os ditos “atos de terrorismo”, se nota que são frequentes nos estados islâmicos, em situações de guerras de ocupação, revolução ou separação. Se cortarmos do número total todos esses atos de guerra, os atos de terrorismo são mínimos. Aliás, diminuíram em relação aos ataques que vinham sendo praticados antes da “Guerra ao Terror”.

O .pdf está aqui, com a entrevista completa.


Itália, retrato de uma era

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A lógica do pinheirinho de natal

Ontem fui dar minha primeira contribuição anual às festas cristãs e ao mundo ao andar pela praça da cidade jogando cascas de castanha pelo chão. As castanhas (recém saídas da brasa) estavam ótimas, as cascas eu tenho certeza que alguém com renda mensal melhor do que a minha recolheu. Gosto do natal como quase todo bom ateu, principalmente da decoração quase brega de morrer, da corrida infantil, luzinhas que piscam e bobalhões gordos de barba falsa e suas renas de madeira aterrorizantes.

Ando aproveitando ao máximo as luzinhas quase bregas desse ano porque gosto mesmo delas e já não tenho certeza quanto tempo durarão. No início do mês, a Corte Europeia proclamou que a Itália deveria retirar das salas de aula todos os crucifixos em nome do “pluralismo religioso” em órgãos públicos. Para a Corte, o Estado não pode “patrocinar” uma religião em detrimento das outras – que crescem a cada dia juntamente com a imigração. A decisão poderá ser estendida a todos os órgãos públicos: nada de crucifixos em hospitais, estações de trem, pontos de atendimento, prefeituras, palácios de governo, delegacias ou correios, nada nada, deve prevalecer a assepsia estatal, já é assim logo ali na França e etc no que concordam – surpreendentemente – boa parte dos italianos.

Andando pelas ruas e cultivando o ódio dos catadores de lixo com meus marrones, andando pelas ruas e vendo as luzes de natal pela última vez. Os acende-e-apaga (e o pinheirinho) foram colocados (e pagos) pela prefeitura da minha cidade, por seu sindaco do Partido Democrático. O prefeito pode sucumbir, já no próximo ano, em nome do pluralismo. Luzinhas de natal e arvorezinha patrocinadas pelo Estado não não, Sr. Luca Ceriscioli, que é o nome do recém eleito. Recém reeleito, aliás. Pega meu voto e ordena que uma equipe da prefeitura, paga com meus impostos, compre símbolos do cristianismo e os espalhe pelo centro histórico? Sr. Prefeito, ora Sr. Prefeito.

Ontem, em referendo, a população da Suíça proibiu a construção de minaretes, aquelas torres que adornam as mesquitas. “Nada de minaretes, Srs. muçulmanos”, disse o povo do país ali de cima, e aqui na Itália a Igreja Romana saiu em defesa das torres. A Igreja, que alega que os crucifixos são parte da cultura e da tradição italianas – e que, portanto, devem permanecer nas escolas – defende também que os minaretes são parte da cultura muçulmana e que devem ser liberados em nome do pluralismo (o mesmo que pode acabar com as luzes de natal). É claro que “cada qual com seu minarete”, que é construído com dinheiro privado e lá bem diferente de Jesus Morto no Colégio. Mas, no fim, acaba dando no mesmo: Jesus Morto e Minaretes e Luzinhas de Natal são cavalos de batalhas de propósitos nem sempre claros a quem só quer comer as castanhas e congelar no frio.

A sociedade italiana, pelo bem da integração com quem chega, pode perder seus crucifixos. A sociedade suíça, pelo bem de quem está lá, poupou a própria vista das torres de outro planeta. Eu, que só quero passear e emporcalhar a praça, posso perder a foto do ano que vem. E você até acha que certos assuntos  são “coisa dos políticos” e que não tem nada a ver com isso.

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Tá servido?


Soup brasiliana, i viados

Sapatos, ternos, passarela. Automobilismo, futebol, máfia. Pasta, pizza, política, gritaria. A Itália de tantos clichês sustenta a maioria deles com poucas exceções (ninguém por aqui sai dançando a “tarantella”). Um dos clichês italianos menos famosos e que parece cada vez mais se abrir para o mundo é a adoração por travestis. A quantidade de homenzarrões com feições masculinas nítidas mesmo em um corpo transformado para feminilizar as expressões chama atenção não só em Roma ou Milão, mas em todas as importantes cidades do país.

É um fato consumado e contra isso não há muito o que fazer: talvez a mistura do conservadorismo pouco laico com a personalidade mais ou menos expansiva dos italianos tenha transformado o país no paraíso da transgressão “trans”, centro mundial dos travestis. Os brasileiros (ao menos os que consideram a prostituição uma profissão como qualquer outra) podem se orgulhar de um feito nessa nem tão nova tradição da península: somos os maiores exportadores de mão-de-obra qualificada. Travestis “brasiliani” trabalham a peso de ouro, estão espalhados por todo o país em maior número do que qualquer outra nacionalidade e chegam a faturar 10, 15, 20 mil euros por mês. Depende quase sempre do tamanho da “experiência”. Conforme depoimentos dos próprios trans, a maior parte dos clientes quer “ser a mulher” – e exige grandes emoções.

Em geral, nossos “viados” (como são normalmente chamados por aqui) vivem por seis meses na Itália e fazem uma pequena fortuna antes de retornar para o verão do Brasil. Com os euros, podem levar a boa vida tropical, muitas vezes sem precisar trabalhar enquanto estiverem em casa. Boa parte vive essa vida dupla há mais de 10 anos e não trocaria por nada as ruas e condomínios italianos pelo Brasil que antes conheciam: favelas, sertão nordestino, pobreza.

O longo caso de paixão entre parte da Itália e os travestis brasileiros vem sofrendo abalos. No último mês, uma das principais regiões do país, a Lazio, onde está Roma, perdeu seu governador por um escândalo de drogas e extorsão que tinha entre os protagonistas alguns dos nossos “trans”. Piero Marrazzo foi um famoso jornalista de TV antes de se tornar governador em 2005. Teria conhecido Natalie – codinome de um dos travestis brasileiros – em 2001, antes da vida política. Os 8 anos de relações com Natalie terminaram em outubro deste ano, quando a imprensa divulgou a existência de um vídeo que mostrava o governador com o “trans” em cenas gravadas dentro do apartamento de Natalie, na via Gradoli, em uma zona conhecida por ser um dos centros de travestis da capital italiana. Três dias depois, Marrazzo renunciou admitindo sua segunda vida no mundo “dei trans” e se refugiou em um mosteiro às portas de Roma.

O caso de Marrazzo com Natalie não se resume a um jogo de amizade, sexo e cocaína (que o governador admitiu usar frequentemente). O vídeo foi gravado por dois policiais à paisana fora do horário de serviço que, depois, passaram a extorquir Marrazzo – dinheiro em troca de silêncio, euros em troca de viver ou morrer politicamente. Os policiais teriam descoberto o endereço de Natalie e a presença de Marrazzo no apartamento graças à Brenda, outro travesti brasileiro acusado de dedurar o encontro. A história veio à tona e os policiais foram presos acusados de extorsão.

Brenda, de alegadas relações com Marrazzo, morreu nesta semana sufocada por fumaça devido a um incêndio em sua casa. Para a procuradoria, Brenda foi assassinada. Seu computador, que pode conter peças importantes para o mistério, foi encontrado no bidê do banheiro sob água corrente. Um sinal, uma ameaça a quem mais ousasse abrir a boca? O problema não seria mais Piero Marrazzo, e sim a lista de outros políticos, empresários e personalidades importantes que frequentam o mundo tropical e de perversão dos “trans brasiliani”. Muitos temem o mesmo destino do ex-governador da Lazio: o apredejamento midiático.

Há ainda outro cadáver a carregar. Um dos envolvidos no caso é Gianguerino Cafasso, denominado pela imprensa italiana como “il pusher” por seu papel na história. Cafasso, um frequentador do sub-mundo romano, se encontrou com diversos  jornalistas na tentativa de vender o vídeo. Ninguém comprou a história por dois motivos claros: a filmagem não era “mostrável”, ou seja, era suja demais para ir à público; Marrazzo não faria notícia suficiente para compensar a relação custo/benefício. No mercado dos escândalos na terra dos paparazzi, um vídeo desses pode custar facilmente 300 mil euros. No caso, era muito dinheiro para pouco personagem. Marrazzo por certo não é um Berlusconi.

Gianguerino Cafasso morreu em 12 de setembro, antes da história de Marrazzo se tornar pública, por overdose de cocaína, seu produto de uso habitual. Estava junto com outro travesti brasileiro, sua namorada Jennifer, que teria desistido de cheirar o pó por que “tinha um gosto muito amargo”. Esta semana, em nova autópsia depois da suspeita morte de Brenda, descobriu-se que Cafasso morreu por overdose de heroína, trabalhada com outro pó branco para que parecesse cocaína. A procuradoria do caso reabriu o inquérito com suspeitas de homicídio voluntário.

Depois do giallo que envolve políticos, travestis, drogas e mortes, a polícia determinou que todos os trans brasileiros que não tenham permissão para residir na Itália deixem o país. É a imensa maioria. Há condomínios inteiros em importantes cidades italianas onde só se fala português e onde o sexo alimenta famílias e cria pequenas fortunas. Como se trata da Itália, no entanto, a ordem será cumprida parcialmente. É provável que muitos fujam por medo: a maioria, no entanto, deve permanecer onde está, trocar de endereço ou, no máximo, dar um tempo no Brasil antes de voltar pra cá e continuar a vida profissional. A “soup brasiliana” dos travestis jamais terá fim.


Raciocinar

Do Estadão de hoje:

Tarso vê pressão ‘fascista’ da Itália e diz que Battisti deve ficar

BRASÍLIA – Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões “humanitárias e políticas”. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências “fascistas” nas ameaças de setores do governo italiano.

“A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana”, disse Tarso. “O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.

Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.

1. O Partido Democrático (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a favor da extradição;

2. Um de seus principais nomes, o ex-premier Massimo D´Alema, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, disse: ”Battisti é um criminoso, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e deve pagar por isso aqui na Itália, como é praxe”. D´Alema foi secretário nacional da Federação dos Jovens Comunistas Italianos, secretário nacional do Partido Democrático da Esquerda e presidente dos Democratas de Esquerda. Hoje, é vice-presidente da Internacional Socialista (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell’Ulivo (esquerda).

3. Giorgio Napolitano (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o Partido da Refundação Comunista e os Socialistas Democráticos Italianos) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.

4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas pedindo a extradição de Battisti. A moção classifica Battisti como “terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana” e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos “materialmente” por Battisti com tiros “na cabeça ou nas costas” das vitimas.

O texto lembra ainda que “a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados” que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.

Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França – mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.

O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, a melhor coisa é ficar calado.


Generatore automatico di proclami di Berlusconi

Fiz minha maior descoberta da internet italiana há 10 minutos, quando encontrei o “Gerador automático de declarações do Berlusconi” no blog Metilparaben, espécie de Nova Corja daqui da Bota. A cada F5 na página, frases novas. Impossível não colar algumas absolutamente mortais junto com o fumetto de Marco Martellini sobre a evolução da espécie na península.linvoluzione-della-specie

“Sono assolutamente il più grande perito industriale che si ricordi nell’area baltica dalla scoperta della penicillina. Chi lo nega è un figlio di mignotta senza timor di Dio al soldo delle lobby gay.”

“Sono a detta di tutti il più grande arrotolatore di sigari che abbia mai bazzicato nel Tavoliere delle Puglie dall’inizio dell’era industriale. Chi lo nega è un parassita senza spina dorsale al soldo dei terroristi.”

“Sono palesemente il più grande guidatore di gommone che abbia mai bazzicato a Paperopoli dallo scudetto della Sampdoria. Chi lo nega è un illiberale senza pudore al soldo dei trotzkisti.”

“Sono ovviamente il più grande bevitore di chinotto che abbia mai operato alle terme di Caracalla dall’uscita del primo numero di Famiglia Cristiana. Chi lo nega è un agitatore senza spina dorsale al soldo della mafia.”

“Sono certamente il più grande intonacatore di trulli che abbia mai messo piede su internet dalla nascita di San Giovanni Battista. Chi lo nega è un catastrofista senza inibizioni al soldo del KGB.”

“Sono palesemente il più grande levigatore di saponette che si ricordi nella striscia di Gaza dal Congresso di Vienna. Chi lo nega è un agitatore senza scrupoli al soldo delle sinistre.”


Imigração ilegal na Itália: muitos pontos sem nó

(Post longo, mas pode servir a quem se interessa pelo tema)

O assunto não é fácil. Moro na Itália há quase um ano, acompanho todos os movimentos em torno da questão e, ainda assim, sempre que penso em escrever algo sinto que não sei o suficiente. E não sei mesmo. É por isso que o Estadão arriscou e errou, errou feio ao tentar falar sobre imigração na Itália – por que também não sabe.

Colei abaixo a matéria publicada neste final de semana pelo jornal, comentarei trecho a trecho deixando aberta a discussão na caixa de comentários. Minha intenção é ampliar a reportagem, contextualizar parágrafos e corrigir algumas coisas, sempre deixando margem para erros que eu próprio possa cometer.

Em itálico, a reportagem do jornal. Sem formatação, minhas observações. Vamos lá.

Contra ilegais, Itália flerta com o fascismo
Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana

ROMA – Exatos 90 anos após Benito Mussolini lançar o Manifesto Fascista, a Itália está novamente diante do racismo. Com o objetivo de combater a imigração clandestina e a criminalidade, a Justiça italiana já está condenando os primeiros estrangeiros pelo recém-criado “crime de imigração”. Por todo o país, exemplos de intolerância alimentam a polêmica sobre o governo de Silvio Berlusconi, mas também sobre a sociedade italiana, cada vez mais acusada de racismo.

Aqui há dois problemas, um de ordem histórica, outro argumentativo.

1. Há 90 anos, Mussolini e outros 120 ex-combatentes, intelectuais e engajados italianos fundavam um grupo chamado “Fasci italiani di combattimento“, destinado a combater fisicamente o avanço do comunismo. Esse grupo foi usado, assim como outros, para ajudar o governo a frear as idéias do Leste Europeu representadas, sobretudo, pelas primeiras greves. O grupo “Fasci italiani di combattimento” foi o embrião do que viria a ser o Fascismo.

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O marco inicial da perseguição racial na Itália não foi a fundação do “Fasci italiani di combattimento”, e sim o decreto lei n. 880 de 1937 conhecido como “leggi razziali“. Posteriormente, outras “leis raciais” foram promulgadas, apertando a perseguição contra não-italianos. Portanto, o manifesto escrito há 90 anos não tem relação direta com o racismo, e sim a “Lei racial” de 1937.

2. Argumentativamente (e aqui vai uma opinião pessoal), comparar qualquer coisa com Mussolini, Hitler, Nazismo ou Fascismo é o caminho mais fácil para lugar nenhum.

A controvérsia sobre o que vem sendo chamado de “deriva fascista” na Itália surgiu há três semanas, quando um bote com cinco imigrantes eritreus foi resgatado na costa da Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo – a principal rota usada por imigrantes ilegais da África para entrar na Europa. Para trás, o grupo havia deixado 73 mortos, vítimas de 20 dias de sede e fome à deriva em águas territoriais europeias. A tragédia transformou-se em debate nacional depois que os imigrantes relataram ter sido avistados por embarcações que lhes negaram socorro durante o trajeto, contrariando uma lei marítima histórica.

A controvérsia sobre esse assunto, ou o estopim dele, surgiu no ano passado e se consolidou em janeiro deste ano quando a imigração ilegal passou a ser considerada, por projeto de lei, um reato passível de multa e expulsão, e não há três semanas.

O caso do barco eritreu é bem mais complexo do que o texto sugere: conforme relatos dos resgatados, o bote foi avistado por cerca de 10 embarcações (todas civis, algumas deram água mas não avisaram a marinha de nenhuma nação e não socorreram ninguém). Por fim, eles foram avistados pela marinha de Malta ainda em águas da Líbia (de onde partiram), que os monitorou também com um avião. Após receberem água da marinha maltesa, os sobreviventes foram “aconselhados” pelos oficias daquele país a continuarem remando em direção à Itália. Em águas italianas, foram salvos pelo governo local e levados à ilha da Lampedusa, ao sul da Sicília. Não por que o governo italiano seja “bonzinho”, mas por que simplesmente cumpriu a lei marítima vigente, coisa que Malta não fez e que não vem fazendo. O parágrafo descontextualizado faz entender que o socorro negado (e o peso dos mortos) cabe à Itália. É um erro grave.

A polêmica cresceu depois que a Justiça de Florença condenou o primeiro estrangeiro à luz da nova lei de “imigração clandestina”. Acusado de furtar uma bicicleta, Samer al-Shomaly, um palestino de 28 anos, foi condenado a pagar uma multa de 5 mil, pena sujeita à conversão em expulsão do país.

A condenação teve como base o Pacote de Segurança, aprovado pelo governo de coalizão de Silvio Berlusconi com o partido de extrema direita Liga Norte em 2 de julho. A legislação tornou-se símbolo do rigor da Itália em relação aos estrangeiros em situação irregular (leia quadro). O texto prevê, entre outras punições, a desapropriação de imóveis alugados a imigrantes ilegais e aumenta de 60 dias para 6 meses o tempo de detenção de clandestinos – palavra que virou sinônimo de “criminoso” no país .

Conheço pouco a lei americana ou as leis de outros países europeus, mas, do pouco que conheço, não vejo muita diferença, sobretudo, em relação à lei dos Estados Unidos. Imigrantes ilegais, na América e em outros países democráticos, também podem ser recolhidos, identificados e expulsos. A Itália não está inventando a roda. Não estou julgando se a lei é boa ou ruim, mas é forçado colocá-la em um contexto para dizer que ela “flerta com o fascismo”. Estamos falando de um imigrante ilegal que cometeu um reato, e não de um esforçado trabalhador com permissão de estadia e trabalho.

Quanto ao tempo de detenção, cabe contextualizar: o número de nacionalidades provenientes do exterior passa de 30. Muitos imigrantes, sobretudo africanos, se negam a falar qualquer coisa quando presos. Quando falam, é preciso identificar em que língua estão tentando se comunicar. Estima-se que a África possua cerca de mil idiomas (entre línguas oficiais e dialetos). Quando o tempo de detenção era de 60 dias, muitos presos eram soltos por que era simplesmente impossível saber de onde vinham.

Isso tudo por que, em casos de repatriação, não se pode mandar a pessoa de volta para o país de onde ela partiu, no caso, frequentemente da Líbia. É preciso mandá-la para casa, é preciso descobrir de que país, cidade ou tribo ela veio. O aumento da detenção provisória, conforme o governo, é para dar mais tempo a esse trabalho.

A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de críticas de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos humanos, da Igreja e de políticos de oposição na Itália e na Europa.

Traduzindo: desencadeou uma onda de críticas da esquerda. Esquerda que, ainda em 1998 (quando era governo), já fazia discursos e leis contra… a imigração ilegal, a mesma que hoje é usada para atacar a direita.

Em 2006, durante o segundo governo (de esquerda) de Romano Prodi, somente o número de imigrantes legais aumentou 21,6% no país. A taxa de ilegais, seguindo a lógica, cresceu de forma vertiginosa – e o governo pouco fez para integrá-los à sociedade. A esquerda está certa? A direita está certa? Não e não.

Esse é um dos motivos pelos quais a Itália não consegue resolver a questão: tudo se tornou, mais uma vez, uma grande brincadeira entre forças políticas alimentadas por gritaria e discussões sem fim, ambos os lados incompetentes a seu modo particular. O texto do Estadão reflete um lado, mas poderia refletir o outro (não menos verdadeiro e não menos incompetente) reescrevendo o parágrafo: “A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de adesões de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos civis italianos, de parte da Igreja que não pode se manifestar abertamente e de políticos de situação na Itália e na Europa.” As duas versões estariam “corretas”, as duas versões seriam simplistas.

Laura Boldrini, alta comissária das Nações Unidas para os Refugiados, considera a lei abusiva. “Há na Itália um estímulo ao ódio que não pode ser aceito em uma sociedade democrática. É como jogar combustível no fogo”, advertiu. “A opinião pública vem sendo alvo de uma campanha que confunde imigrantes com criminosos, ignorando que eles são importantes para a economia e para o bem-estar das famílias.”

Não, a Itália não vem sendo “alvo” de absolutamente nada. O país vive um momento, desde o ano passado, de forte discussão civil sobre o tema. Não passa um dia que não haja ao menos um programa na TV para debater a imigração – e a TV é um bom termômetro dos assuntos que pautam a sociedade deste país. Cada lado, e cada pessoa, expressa seu ponto de vista. Acreditar que haja um “estimulo ao ódio” e que ele vá transformar os italianos em xenófobos é achar que todos são robôs programáveis sem poder de decisão. Poderíamos dizer que, por outro lado, há o “estímulo à convivência pacífica” (e há), mas nem por isso todo mundo vai passar a amar imigrantes de uma hora para outra.

O “estímulo ao ódio” ao qual a Sra. Boldrini se refere é, na verdade, a opinião de parte da sociedade e da classe política italianas contra a imigração ilegal. Dizer que essa opinião “não pode ser aceita em uma sociedade democrática” é – veja só – algo nada democrático. Esse posicionamento pode (e deve) ser aceito em uma sociedade democrática, que supõe a livre expressão de idéias e pensamentos. Ele deveria ser contestado se fosse um pensamento imposto em um regime ditatorial, o que não é o caso. Conclamar o que pode ou não pode ser “aceito em uma sociedade democrática” nesta discussão é pobre e apelativo – ainda mais vindo das Nações Unidas, que deixam que Itália, Grécia, Espanha e outra nações-fronteiras se virem com a imigração ilegal que, no fundo, é um problema europeu e supranacional.

O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, tem posição semelhante: “A Itália não sabe lidar com o fenômeno da imigração porque o conheceu relativamente tarde. Há 10 ou 15 anos, ainda se considerava um país de emigrantes. Ainda não considero o conjunto da sociedade italiana racista, mas é verdade que grupos políticos e setores minoritários da sociedade têm um discurso racista, xenófobo e islamofóbico.”

Reli o parágrafo para ver se tinha perdido algo, mas acredito que não perdi. O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, NÃO tem posição semelhante à de Laura Boldrini. Enquanto ela pinta uma Itália inclinada ao ódio e à criminalização de estrangeiros, uma Itália que aceita opiniões que “não podem ser aceitas em uma sociedade democrática”, ele relativiza apontando duas coisas verdadeiras e fundamentais (essas, sim, parte importante da discussão): a Itália não sabe lidar com a imigração, pois ela é relativamente nova no país, e os setores radicais são minoria.

Além do mais, e Itália é um país de diversidades culturais e sociais enormes, não há unanimidade em praticamente nenhuma questão. Na cidade onde moro há um dialeto incompreensível. Na cidade vizinha, 20 km distante daqui, há outro, diferente deste e também incompreensível a quem é de fora da comunidade. Este é o país reunificado depois passar pela queda de Roma, por séculos vivendo em feudos, cidades-estados, domínios papais, franceses, austro-húngaros e de reis estrangeiros. É tarefa difícil dizer “a Itália é assim” ou “a Itália é assado”. Uma coisa que a Itália não é, contudo, em seu conjunto e na sua maioria, é xenófoba.

Foco das críticas, Roberto Maroni, ministro do Interior, vice-presidente do Conselho Italiano e líder da Liga Norte, argumenta que o Pacote de Segurança reduziu a imigração em 92% em um ano.

Reduziu a imigração ilegal em 92% (como o próprio Maroni diz abaixo), e não a imigração em si. Há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. Um físico japonês que vem para a Itália dar aulas na universidade de Padova é um imigrante, só que legal. Não se pode misturar os dados, até por que a lei não se aplica aos imigrantes, e sim, aos imigrantes ilegais.

Usando o discurso clássico de seu partido, que costuma responsabilizar os imigrantes pela violência, pela pobreza e até pela transmissão de doenças no país, Maroni sustenta que a criminalidade teria caído 14% desde a vigência das medidas: “A única resposta que continuo a dar é ligada à queda da imigração clandestina. Ano passado desembarcaram 14,2 mil clandestinos e neste ano, 1,3 mil.”

Como observação, acrescento: a Lega Nord culpa todo mundo que não seja do norte do país por qualquer coisa, e não somente imigrantes estrangeiros. Há outra migração silenciosa ocorrendo todos os dias na Itália, ainda não mensurada mas potencialmente maior do que a externa, que é a migração de cidadãos que saem do Sul do país (mais pobre) em direção ao rico Norte. Há, inclusive, outro fenômeno ligado a isso, que são as novas “cidades-fantasma”, pequenos municípios que estão sendo esvaziados por conta desse movimento migratório interno. Os discursos da Lega Nord, portanto, são também fortemente voltados contra o Sul italiano, o “Mezzogiorno”, mais ou menos na linha de ataques contra nordestinos no Brasil: “nós trabalhamos para sustentá-los”.

Maroni diz que a criação do “delito de imigração” é uma “medida de proteção” da Itália contra os clandestinos.

Dados do Departamento de Administração Penitenciária: dos 58 mil detentos nas prisões do país, 21,5 mil são estrangeiros (2008), o que representa 27% do total. Desses 21,5 mil, a maioria esmagadora é composta por imigrantes ilegais. Os números estão ao lado de Maroni (da extrema-direita) assim como estavam ao lado de Prodi (da esquerda) quando ambos fizeram leis contra a imigração ilegal alegando “medida de proteção”.

Quem atravessa o canal da Sicília em um barco tem dois problemas principais: ou foge de guerras, ou da miséria – ou ambos. No primeiro ponto, a Itália é o país que mais concede asilo político na Europa, conforme dados oficiais: dos 22 mil pedidos de 2008, quase 11 mil foram aceitos. A Grécia, outro destino marítimo dos ilegais, segundo a revista Panorama (importante publicação nacional), concede cerca de 1% dos asilos pedidos. Mais dados sobre a Grécia aqui.

Por outro lado, quem atravessa o mar fugindo da miséria, por mais duro que possa parecer, não tem permanência assegurada no país – assim como não teria em boa parte dos países do mundo. As leis para entrada de estrangeiros precisam ser observadas, as pessoas precisam ter trabalho e residência. Mais uma vez, a Itália não está inventando leis ou paradigmas, não consigo enxergar a “deriva fascista”.

A Liga Norte, que tem 8% dos votos no Parlamento, teve uma página na rede de relacionamentos Facebook bloqueada há dez dias. Criado pela seção do partido da cidade de Mirano, no norte do país, o perfil tinha como slogan o lema “Torturar clandestinos é legítima defesa!”.

A seção da Lega Nord de Mirano havia criado um jogo chamado “rimbalza il clandestino”, algo como “mande o clandestino de volta”. Vencia quem evitava que um maior número de barcos ilegais vindos da África aportassem na Itália. O aplicativo foi tirado do ar.

Um dos mais de 400 “amigos” da página era Umberto Bossi, fundador da Liga Norte e ministro do governo Berlusconi. Ao ser cobrado pela imprensa italiana sobre o conteúdo racista do perfil, Bossi evocou o apoio popular às suas causas: “O pecado que a Liga porta é o voto.”

Extremista entre os extremistas, Umberto Bossi é o fundador da Lega Nord e um separatista por convicção. Defende a criação do estado independente da Padania, que abrangeria as regiões Norte e algumas do Centro do país (Vale de Aosta, Piemonte, Ligúria, Lombardia, Trentino-Alto Adige, Vêneto, Friuli-Venezia Giulia, Emília-Romanha, Marche, Toscana e Úmbria). Se tiver tempo, farei outro post ainda esta semana sobre o assunto Lega Nord + Padania.

Em 2008, uma lei proposta pelo Ministério do Interior da Itália passou a autorizar prefeitos a receber denúncias anônimas que levem à prisão de imigrantes clandestinos em todo o país. A”permissão” foi bem aproveitada por Leonardo Ambrogio Carioni, prefeito de Turate, na Lombardia, norte da Itália.

Mais uma vez, não se trata de discutir a moralidade ou eficácia da lei, mas de saber se o mote da matéria faz sentido.

A Itália tem mais de 8 mil municípios, praticamente nenhum abraçou essa causa. Há outro exemplo mais esclarecedor: em julho, um desenho de lei foi aprovado nos moldes de uma norma existente na Alemanha e na Grécia, que dizia que os médicos deveriam denunciar os imigrantes ilegais que buscassem tratamento. Prontamente, a ordem médica italiana se posicionou contra a lei e, de fato, até hoje, houve apenas um caso de denúncia conhecido. Fazer a leitura desse episódio é importante para saber se, como diz a linha de apoio da reportagem, as “Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana.

Desde o início do ano, um escritório abre as portas na cidade uma vez por semana para receber a “colaboração” popular contra estrangeiros que vivam sem documentos no país. O Escritório de Controle da Polícia Judiciária de Turate funciona na prefeitura, às quintas-feiras à tarde.

O objetivo é estimular “o cidadão a se tutelar”, segundo argumentou Carioni ao Estado, por telefone. No dia em que a reportagem esteve na cidade, nenhum dos moradores apareceu para prestar queixa contra os estrangeiros da região, a maior parte marroquinos.

Aqui cabe uma ressalva: é uma convenção social chamar todos os imigrantes africanos de “marroquinos”. Marroquino, na Itália, não é necessariamente quem nasceu no Marrocos, assim como “bangladesh” é o vendedor de guarda-chuvas com traços indianos, e “senegal” é o vendedor de bolsas. Não encontrei as estatísticas da cidade para saber se a maioria é de marroquinos. A reportagem também não traz os dados.

“Nossa administração adotou esse método para permitir à população evitar que clandestinos ponham em risco sua segurança”, disse o prefeito, filiado à Liga Norte. Questionado sobre como encarava as críticas de racismo que sua administração vem recebendo, ele pediu para desligar e não atendeu mais a reportagem. Para Carioni, o novo órgão é um instrumento de combate à violência, não de perseguição de ilegais.

Entre os 9 mil habitantes de Turate, há cerca de 800 estrangeiros. Mas o número dos imigrantes em situação irregular é desconhecido.

Segundo funcionários da prefeitura, as delações normalmente são feitas por telefone e depois uma visita é programada. Entre os habitantes da região, as opiniões sobre o Escritório de Controle se dividem.

“Acho justo. Há muitos imigrantes que não trabalham, nem estudam. Eles não fazem nada”, afirmou uma comerciante que não quis se identificar. “Os marroquinos causam problemas.”

Exemplo do uso da palavra “marroquino” na Itália, como me referi acima.

Para o aposentado Giancarlo Rimoldi, de 75 anos, a iniciativa do prefeito tem fundo eleitoral. “Sou apolítico, mas não é difícil perceber que ele está só levando adiante uma bandeira da Liga Norte”, afirmou.

Contrário à medida, Rimoldi disse não ter nada contra os estrangeiros. “Não sou racista contra os que vêm de fora da União Europeia porque os problemas da Itália não têm nada a ver com eles”, afirmou.

E não têm mesmo. Ao contrário, sem imigrantes, a Itália teria decréscimo demográfico – culpa da baixa taxa de natalidade, de apenas 1,29 filho por casal. Sendo um país com número elevado de velhos, o processo produtivo certamente seria afetado. A economia italiana aproveitou mal a onda de crescimento do mundo pré-crise, mas estaria em situação muito pior se não fosse a imigração legal. O problema está, mais uma vez, na imigração ilegal, que não atua de forma consistente na economia e ainda trazem aumento visível da criminalidade.

Mas, em seguida, o aposentado revelou um preconceito mais antigo: “Sou racista em relação aos sulistas. O problema da Itália sempre foi e continua sendo o sul, sustentado por nós.”

Há muito mais coisa a ser dita sobre o assunto. O post ficou longo, mas é necessário que seja assim, – e poderia ter 4 ou 5 vezes mais conteúdo sem esgotar a discussão. Em meio a tudo o que escrevi, há certamente erros de avaliação e leitura de fatos e dados de minha parte, mas só me ative a comentar a reportagem do Estadão por acreditar que ela é incompleta e mostra uma fotografia muito estreita (e por vezes errada) sobre a imigração na Itália. Minhas observações não são a verdade, mas acredito que se aproximam mais dela do que a matéria do jornal. É o tipo do assunto que requer meses de apuração para ser tratado de forma correta. Mais: arrisco dizer que é preciso viver na Itália pra entender toda a sua complexidade.

Vou tentar preparar mais posts sobre o assunto assim que possível.


Francamente

Acabo a leitura diária de jornais e vejo que The Times e The Independent engrossaram o coro do La Repubblica, que pede a cabeça de Silvio Berlusconi. Inúmeros processos (alguns, inclusive, por ligações mafiosas e suborno de testemunhas) não foram suficientes para abalar o premier, que deve cair mesmo por conta dos escândalos sexuais dos últimos meses.

Os jornais não poupam ninguém. O The Independet, por exemplo, cita até mesmo a ministra Mara Carfagna, vedete da TV antes de entrar no mundo da política — mas que nada tem a ver com os acontecimentos que podem depor Berlusconi. Questionam o fato de ela ter entrado no governo usando como artifício a beleza.

Carfagna dirige o contestado Dipartimento per la Pari Opportunità, também conhecido como Ministério do Bem-Estar Social, e cairia junto com Silvio.

Sinceramente?

Olhem bem para esta foto:

mara-carfagna-hot

Não sei quanto a vocês, mas meu bem-estar social melhora consideravelmente sempre que a vejo.

É um absurdo demitir uma pessoa competente como essa.


Lei sobre internet e política: melhor rasgar

Aprendi ao longo dos anos que a maioria das situações exige menos tolerância do que a cartilha de bons modos costuma pregar. O projeto de lei que nossos parlamentares pretendem enviar ao Congresso sobre campanhas políticas na internet fortalece a lição.

Exercito um pouco mais da minha intolerância diante do texto deixando uma contriubuição para a deputada Manuela D´Avila, que agora está com twitter e blog para discutir pública-e-democraticamente a questão.

E aí, Manu, beleza? Ó: rasguem tudo e recomecem do zero, ok? De preferência com uma noção mais clara do universo, tentando minimamente se basear em modelos que funcionam para evitar o delírio.

Não me alongo, posto aqui que o Fernando Rodrigues analisa todos os pontos com propriedade e reitera a demência. Atenho-me somente a um deles e, intolerantemente, vou ao coração da lei — lei que, aliás, sequer precisa existir, já que a internet não é um mundo paralelo e pode muito bem obedecer as determinações que já foram criadas.

“Art. 57-D É vedado aos provedores de conteúdo e empresas de comunicação social na Internet, nos conteúdos disponibilizados em suas páginas eletrônicas, por eles produzidos ou não:

II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular propaganda com esse efeito;”

Vamos ao beabá da internet: o Google é um provedor de conteúdo. Não vou entrar na discussão sobre o site de buscas em si (que também é), vou especificar pra não restar dúvida: o You Tube, do Google, provém conteúdo. Por esse artigo, ninguém poderia fazer um vídeo/sátira de um candidato e disponibilizar no site. Simples assim.

O mesmo valeria para Flickr, Picasa, Twitter e etc ad infinitum. Todos, sem exceção, podem ser chamados de provedores de conteúdo — e a lei especifica bem que esse conteúdo pode ser produzido por eles “ou não”. Ou seja, em época de campanha, o Twitter poderia ser enquadrado por essas duas frases que postei hoje, logo depois de acordar:

Sonhei que estava em uma reunião do PT. Precisei dormir uma hora a mais pra conhecer todos os CCs.

Faz sentido?

Não, não faz.

Rasguem esse projeto.


Eleições no Irã, a Wikipedia explica

Verbete sobre a força paramilitar Basij, aliada à teocracia local e que age nos últimos dias tentando acabar com as manifestações.

basij_iran_wikipedia_fuck_them

UPDATE: menos de 5 minutos depois que fiz esse print, o “FUCK THEM” foi retirado do ar.


Moda verão

berlusconi_papi_noemi

Noemi Letizia – todos os direitos (p)reservados.


Recordar Valdemar

Google Reader proporcionando momentos de pura nostalgia:

TSE: suspenso julgamento de recurso que pede cassação do deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP)

“O plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu o julgamento de recurso em que o Ministério Público Eleitoral em São Paulo pede a cassação do deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP). Após o voto do relator, ministro Marcelo Ribeiro, negando o pedido, o ministro Joaquim Barbosa pediu vista.

O MPE pede a cassação do deputado com base no artigo 41-A da Lei 9504/97 (Lei das Eleições) com a alegação de que o candidato teria feito um churrasco para muitos eleitores, na cidade litorânea de Bertioga (SP), com distribuição de comida e bebida e realização de propaganda eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) julgou improcedente o pedido, dizendo que não houve prova de fornecimento de benesses condicionadas à obtenção de voto.”

Lembram do Valdemar?

É aquele deputado que cortou a luz e a água da mansão que dividia com a ex-mulher, em Brasília, pra forçar Maria Christina Mendes Caldeira (socialite e herdeira) a deixar a casa. Ela obviamente achou aquilo u ó e denunciou ele no Conselho de Ética da Câmara por envolvimento com o Mensalão: disse que Valde tinha recebido dinheiro em nome do PL (10,8 milhões) das mãos de Delúbio Soares.

O deputado negou veementemente (disse que eram só R$ 6 milhões), mas não aguentou o tran$torno p$icológico e renunciou em 2005. Por sorte, ele levou pra casa uma pensão de R$ 5,542 mil por mês (acho ju$to).

Como deus ajuda “us trabaiadô i perçeverânti” do Braziu, Valdemar Costa Neto foi devidamente reeleito em 2006. Hoje, está lá na Câmara cuidando muito b€m do teu dinheiro.

valdemar_costa_netoMedalhas: do Pacificador, MEx, 1993; do Mérito Tamandaré, MM, 1994. Ordens: de Rio Branco, MRE, 1994.


Coincidências

A polícia italiana prendeu hoje 6 homens acusados de terrorismo. Com eles, armas e artefatos explosivos que, conforme as forças de ordem, teriam como objetivo explodir em l´Aquila entre 8 e 10 de julho, quando acontecerá a reunião de cúpula do G8. Entre os presos está Ernesto Morlacchi, filho de Pierino Morlacchi, fundador do grupo de extrema-esquerda Brigate Rosse, que sequestrou e assassinou o premier italiano Aldo Moro em 1978.

A prisão do grupo armado que pretendia atacar a reunião do G8 só foi possível graças a escutas telefônicas iniciadas em 2007 – para o ministro Roberto Maroni, fundamentais para golpear a refundação de um grupo terrorista.

Praticamente ao mesmo tempo em que a polícia concedia entrevista sobre a prisão do grupo armado, um importante desenho de lei era aprovado na Câmara. Controverso, o DDL sobre escutas telefônicas prevê mudanças nas regras vigentes no país. Entre elas, diz que investigados serão alvo de grampos somente sob “grave idício de culpa”, ao contrário dos “suficientes indícios” como é hoje. Os pedidos deverão passar por um colégio de três juizes, contra apenas um necessário nas regras atuais. Exceções serão admitidas em casos explícitos de máfia, terrorismo ou penas maiores de 5 anos.

A mudança mais sensível, no entanto, é a de limitar o tempo da investigação. Pelo desenho, a nova lei permitirá escutas por no máximo 40 dias, podendo haver prorrogação para mais 20. Ou seja, 60 dias.

O anúncio da prisão do grupo armado e a aprovação do desenho de lei com claras motivações políticas de quem tem medo de ser investigado confrontam, no mesmo dia, como as coisas são e como elas poderiam ser. Pelas novas regras, haveria grande chance de vermos o encontro do G8 ir pelos ares.


A realidade é insuperável

A visita de Muammar Gheddafi à Itália tem tons tão rocambolescos que chega quase a ser a negação da realidade. Ao contrário, é a super-realidade.

A começar pelas dúvidas da imprensa local sobre como chamar aquela estranha figura vestida como um fã de Star Trek. General? Presidente? Primeiro ministro? De fato, Muammar Gheddafi não tem uma designação no governo do país que comanda, a Líbia. Por lá, ele é conhecido como “Guia da Revolução” – termo que, por motivos óbvios, não vem sendo usado por aqui.

A sucessão de acontecimentos super-reais começou logo no desembarque. Berlusconi, com torcicolo, aparece em quase todas as fotos na mesma posição, ombros duros, pescoço estirado e uma cara de quase dor.

Na imagem de boas-vindas, Gheddafi, em trajes militares, trouxe pendurada no peito uma foto nada discreta, em preto-e-branco. A foto mostrava a prisão de Omar al Muktar, herói líbico anti-italiano conhecido como “Leão do Deserto”, capturado pelas forças militares fascistas na Líbia em 1931, durante a ocupação do país pela Itália.

gheddafi_berlusconi

A foto não veio só. Atrás do Guia da Revolução, um senhor de idade avançada e trajes típicos era reverenciado pela comitiva líbica: trata-se de Mohamed Omar al Muktar, neto e último descendente do Leão do Deserto. Em seu discurso, no entanto, Gheddafi fez questão de ressaltar que a Itália colonial ficou no passado, e que a foto e a visita eram para “comemorar” as relações entre os dois países. Estranho modo.

É a primeira vez que o Guia da Líbia vem à Itália desde que assumiu o governo, após derrubar o rei Idris I, há 40 anos. Isso não significa que ele seja um desinformado. Hoje mesmo, sem perder tempo, Gheddafi pediu ao premier italiano um encontro com mulheres. Foi no cara certo.

Pra fechar o dia, o líder líbico irá dormir em uma tenda beduína, montada nos jardins de uma mansão do século 17. Questão de manter as tradições.

Ah, sim: Gheddafi veio visitar empresários e discutir imigração ilegal com Berlusconi. A Líbia é a principal rota de saída dos africanos que buscam a Europa em balsas pelo Mediterrâneo – todos desembarcam ilegalmente na Itália. Os dois países já têm acordos de cooperação nesse campo. Não funcionam.


Camisas Negras

A Câmara italiana aprovou o decreto pela segurança que vinha sendo objeto de discussões na Itália desde o início deste ano. Existem muitos pontos controversos além dos que foram limados – a idéia original restringia, por exemplo, o acesso à escola a filhos de imigrantes em estado ilegal. Essa parte do texto caiu, mas muitas outras ficaram.  Agora, o decreto percorre seu caminho natural ao Senado, onde ainda há duvida se passará, mas tem tudo para ser aprovado.

O decreto tem três eixos principais: imigração clandestina passa a ser punida criminalmente; imigrantes irregulares estão excluídos dos serviços públicos (exceto saúde e escola); foram aprovadas as rondas comunitárias.

Dos três eixos, as “rondas” me chamam mais a atenção . É como se minha vizinha (uma senhora de seus 70 anos) resolvesse montar um grupo, legalizá-lo, comprar uns pares de coletes e sair pela rua a “fiscalizar a ordem pública”. Minha vizinha (e os amigos dela) não poderiam andar armados, não teriam poder legal para pedir documentos ou intervir em atos de criminalidade, sequer poderiam questionar qualquer atitude do cidadão sem que este consentisse, mas passariam a ter legitimidade perante a lei para o vago “fiscalizar a ordem pública”.

A idéia de minha vizinha montar uma ronda e importunar o cara que não recolhe o cocô do cachorro na calçada não me faz temer – apesar de eu acreditar que isso seja dever do estado, o mesmo que aprovou a lei que multa quem não recolhe a merda canina. Mas substitua a minha vizinha por qualquer outro sociopata com idéias menos nobres à esquerda e à direita e comece a temer.

A imigração ilegal é primeira pauta na Itália. Todos os dias, centenas de pessoas cruzam de bote o Mediterrâneo em busca do paraíso. A pressão interna faz com que os legisladores fatalmente se percam. Por outro lado, ONU e Comunidade Européia entretêm a torcida com um blablabla lisérgico de direitos humanos que não serve para absolutamente nada. Não tem coisa mais chinelo de couro e cabelo rasta do que esse papo de “direitos humanos”, uma plataforma social que serve a um bando de neohippies que, na prática, mais atrapalham do que ajudam (exceções nos dedos).

Na prática, querem que a Itália aceite todos os refugiados do mundo, dê asilo e um país para que eles vivam a vida, mas não movem um dedo para entender as fronteiras, discutir a imigração forçada ou (como deveríamos esperar de quem defende os abstratos “direitos humanos”) se perguntar por que essa gente precisa desesperadamente deixar o país onde vive. Talvez, defender os “direitos humanos” no Niger não renda manchetes nos jornais.


Antes tarde

Vai o .pdf da reportagem que fiz para a revista Galileu sobre as relações de Barack Obama com a internet.


Sob terremotos, o “berlusconismo” se fortalece

Há exatamente uma semana, mais ou menos nesta mesma hora, um casal de amigos que estava passando uns dias aqui em casa resolveu dar uma caminhada na praia. O tempo aos poucos melhora e o vento não corta mais os lábios de quem se aventura à noite pelas areias da riviera adriática italiana. Poucos minutos depois, Ana me faz sacar subitamente os fones do ouvido e diz atemorizada: “terremoto”.

Mal a palavra havia saído de sua boca os móveis já paravam de tremer. Terremotos são assim traiçoeiros, você não tem tempo para pensar, é pego de surpresa e a única coisa que consegue pensar é exatamente isso, “terremoto”, assim como o personagem de um filme travado diante de um trem. Já havíamos passado por um no natal, na casa de amigos em Vicenza, e foi a mesma coisa. É compreensível o número de mortos em um abalo sísmico que golpeia a madrugada.

O terremoto que sentimos na costa também foi sentido no interior do país e precedeu aquele das 3h30 da manhã de segunda que destruiu cidades inteiras na província de l´Aquila, em Abruzzo.

Como vocês sabem, estive em l´Aquila para cobrir a tragédia durante toda a semana (fotos aqui e aqui). Fui um dos primeiros jornalistas da imprensa internacional a chegar no local – e seguramente o primeiro jornalista brasileiro. Não tenho experiência com coberturas deste tipo, jamais estive em zonas de risco natural ou guerras. L´Aquila havia sofrido um terremoto, mas parecia saída de um bombardeamento.

A cidade estava um caos. O nível de tensão aumentava a cada hora, o som de sirenes e helicópteros era constante e muitas vezes eu não conseguia ouvir minha própria voz. Paradoxalmente, as casas estavam vazias, portas e janelas abertas pelo terror da evacuação precipitada. Do dia para a noite, fim. Foi uma sensação aterradora.

Minha experiência como jornalista se fez em vários capítulos, partindo do risco de ir para a zona atingida (senti mais 4 tremores em l´Aquila e um no hotel, em plena madrugada) até a indecisão de saber se conseguiria chegar ao epicentro. Durante a semana, precisei explorar diferentes rotas na espinha dorsal montanhosa italiana para poder sair e chegar das cidades.

No último dia da cobertura, sentado na arquibancada de um estádio convertido em uma das 31 cidades-tendas para os desabrigados, me peguei pensando em política. Diante daquele pensamento não tão inesperado, reafirmei uma convicção que tenho desde que cheguei à Itália, sobre a vitória do “berlusconismo” contra a esquerda. Existem muitas causas que renderão outro post em breve (oposição risível, esquerda caricata, envelhecimento populacional, conservadorismo, controle da mídia…), mas uma delas está na essência da vitória desse pensamento e, de certa forma, explica ou se confunde com todas as outras: italianos ainda precisam de pais.

A valorização excessiva da família produz efeitos colaterais visíveis à política italiana, isso salta aos olhos de qualquer estrangeiro que passe algum tempo por aqui. Não que eu acredite que a família seja desimportante, mas na Itália essa centralização do núcleo familiar como instituição já atinge níveis de doença. Filhos com 30 anos morando com os pais são mais comuns do que o contrário – frequentemente, sem trabalhar. A essas figuras se dá o nome de “mamones”, ou “mamões”, os que com três décadas de vida ainda mamam.

Casais só moram sob o mesmo teto depois de passar pelos ritos formais (leia-se Igreja) e, mesmo depois disso, as coisas não mudam muito: 66% dos recém-casados vivem em um raio de 1km da casa dos pais de um deles. Italianos passam o dia pendurados no telefone, na maioria das vezes com alguém da família. Basta um problema ou contratempo em um local onde haja alguns italianos e logo você verá uma legião de pessoas sacando celulares e pronunciando a mesma palavra antes de uma frase de lamentação ou explicação: “mamma”.

Ao ver Berlusconi caminhar pelas “tendópolis” de l´Aquila, senhor de si, pai da pátria, fica fácil entender por que seu projeto de poder não parece ter hora para acabar. Carismático e sedutor, Silvio encarna com perfeição o paternalismo que não tem mais lugar na maioria das democracias, o paternalismo sem disfarces, aquele que funda suas bases em cima da assistência direta, da mão na cabeça, do personalismo em detrimento do Estado. Para sustentar a condição de pai que a maioria dos italianos que já o elegeu por 4 vezes pede, Berlusconi não distribui somente sorrisos ou frases de efeito (muitas temerosas), mas também eficiência cirúrgica.

Incapaz de fazer a Itália avançar economicamente, o premier não costuma vacilar em situações como esta do terremoto. Apesar das críticas feitas por parte dos desabrigados, a maioria estava satisfeita com as verdadeiras cidades de barracas que o governo montou. E foi, de um certo ponto, impressionante – até por que eu não esperava tanta eficiência da burocratizada e enrolada Itália.

Em dois dias estava tudo lá: atendimento médico, comida, roupas, camas, psicólogos. A falta de algumas coisas (como água quente ou aquecimento contra o frio) foi compensada por uma ação conjunta entre governo e voluntários que, se no primeiro dia pareciam bater cabeça, rapidamente se organizaram para acolher aquelas pessoas.

Aos que preferiram sair das cidades, Berlusconi mandou distribuir uma espécie de carta-recomendação oficial. Era chegar em um dos hotéis da costa, apresentar a carta e se hospedar. Somente as cidades do Adriático receberam mais de 25 mil pessoas em três dias – boa parte delas bancadas pelo governo. No dia em que voltei para casa a imprensa anunciava uma ajuda em dinheiro vivo para as famílias atingidas (de 300 a 400 euros por mês), além de reforçar o compromisso com a reconstrução das casas, comércios, escolas, hospitais. Tudo isso em 4 dias, enquanto as equipes de resgate trabalhavam para a remoção de feridos e corpos. O premier sabe que o jogo de cena é importante e raramente erra quando a situação pede um salvador.

Silvio Berlusconi faz parte de uma casta de políticos muito popular no Brasil, uma erva-daninha difícil de combater: é centralizador, pessoalista, dono de emissoras de TV, empresas de construção, instituições financeiras, com interesses espalhados por todos os cantos da sociedade de seu país. A mesma sociedade que, carente de um pai, repetidamente o coloca no centro do poder.


Como se ganha uma guerra

Winston Churchill had whisky and a cigar with breakfast

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“Grapefruit, Sugar Bowl, Glass orange squash (ice), Whisky soda.” He then adds: “Wash hands, cigar.”
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[Telegraph]


Sua vida vale menos que um discurso

Certas profissões têm a capacidade inerente de lhe tirar a alma, é preciso ser muito cuidadoso para não se tornar um bloco de gelo. Falo especialmente do jornalismo, a que conheço melhor. São frequentes as reclamações de colegas por não sentirem mais a dor alheia. Manter-se humano é um exercício diário.

Consegui fugir desse lado robotizante (e até sarcástico) das redações. Foi uma escolha. Não que eu seja sensível ao ponto de não poder, por exemplo, ver fotos de vítimas de homicídios – comuns em um de meus antigos locais de trabalho –, mas certas coisas ainda me dão aquele nó na garganta. Gosto de me sentir vivo.

A morte de Eluana Englaro, ontem, me trouxe tristeza por lembrar de modo tão claro que a vida pode ser desligada. A lei italiana não permite a eutanásia, mas garante a qualquer paciente o direito de recusar tratamento médico. No caso de Eluana, o pedido foi feito pela família ainda nos anos 90 e, ao passar por todas as instâncias legais, acatado. Depois de 17 anos em coma Eluana podia, enfim, morrer.

É estúpido pensar na indignidade de um fim por inanição. Na cama, imóvel, depois de ter a alimentação cortada, Eluana levou quatro dias para morrer. Partiu em silêncio, talvez sofrendo sem poder denunciar a sua dor, como se parassem de regar uma planta. Seu estado real de saúde ainda é um mistério, a imprensa italiana chegou a divulgar que ela não respirava com ajuda de aparelhos, não corria risco de morte, tinha até mesmo ciclos menstruais. Sem comida foi murchando, se apagando aos poucos.

Os acontecimentos políticos que cercaram sua morte mostram mais uma vez que não há limites para a demência. As atitudes de Berlusconi foram além da conta mesmo para os italianos que o avaliam mais como um personagem sem graça de Benigni do que como um estadista. O premier tentou aprovar um decreto-lei de última hora para impedir a morte. Queria passar por cima da Constituição e dos tribunais e foi barrado pelo presidente Giorgio Napolitano. A própria Igreja, obviamente contra a suspensão da alimentação, pediu que “deus perdoasse os envolvidos, mas agora basta de polêmica”. O combate de Napolitano e da Igreja é contra o oportunismo de cena. Para Berlusconi, quem se importa?, sua vida vale menos que 30 segundos no telejornal.

A Itália tem problemas sérios com a imigração ilegal, está ladeira abaixo em termos de crescimento econômico, tem previsões tétricas de PIB para este ano, mas o primeiro ministro fareja os embates, se move no solo arenoso da política como uma planta rasteira que busca os fachos de luz, vive de repercussões e holofotes, a maquiagem e as luzes da ribalta são essenciais para sua fotossíntese neopopulista.

Berlusconi é o pai que se vende sempre como o tradicional protetor do povo (seus filhos), mas que muitas vezes não dá tudo o que esses mesmos filhos pedem. Neste caso as opiniões estavam divididas, mas por seu faro polemicista o premier “lutaria pela vida” – eis o motivo “nobre”, afinal. É o papel de um pai que tenta aprovar um decreto-lei para impedir a morte de um filho, mesmo que outros filhos digam “basta ao sofrimento da família, são 17 anos em estado vegetativo”. É como o genitor que diz: “isso aqui parece bom, mas EU sei que não é, e EU faço isso pelo teu próprio bem”. No fim, o que importa é estar em evidência. Para Berlusconi, “the show must go on”, mesmo que o herói morra no final.


Pesquisa de opinião

Ainda repercute por aqui a frase de Berlusconi sobre estupros, dita no domingo. Segundo o chefe supremo da Gesticulândia, “estupros vão continuar a acontecer enquanto não houver tantos soldados quanto meninas bonitas na cidade”. Berlusca estava sendo questionado sobre a possibilidade de enviar tropas para conter a onda de violência sexual na cidade de Sardinia.

Este blog fez uma rápida pesquisa de opinião pública ontem e constatou que, DESTA VEZ, a maioria dos italianos reprova a opinião do Premier. Nove entre dez gringos machos preferem que a quantidade de mulheres bonitas se mantenha superior a de soldados – e Berlusconi que dê outro jeito para acabar com a violência.

* * *

A AMPLA PESQUISA de opinião do blog ainda abordou a polêmica questão da venda da Alitalia para a Air France. Para a maioria dos italianos, não importa que a dona da companhia seja estrangeira, o importante mesmo é que sejam mantidas as tradições como essa:

Digo, essa:

 

Quer dizer:


If you can hear this whispering you are dying

As histórias de Barack Obama e Frederico de Montefeltro são diversas e não cabem uma na outra. Para efeitos de comparação, Obama é um político da maior democracia do mundo, terra das liberdades e dos direitos individuais. Frederico de Montefeltro, ao contrário, foi um hábil comandante de tropas que conquistou seu lugar nas enciclopédias pela lâmina da espada.

São muitas as histórias sobre Obama.
São muitas as histórias sobre Montefeltro.

Para todos os fins, o Duque-guerreiro foi um amante das artes que transformou a cidade de Urbino, na Itália, em uma galeria impressionante, símbolo (juntamente com Firenze) do Renascimento. Obama, por sua vez, é o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, um país profundamente marcado por intolerâncias raciais. Frederico de Montefeltro e Barack Obama são, de fato, muito mais do que isso. Mas é assim que a história exige biografias.

Apesar de distantes no tempo, há um ponto de confluência entre os dois personagens: o lado escuro da face. Nos contam os livros que Frederico de Montefeltro perdeu um olho durante um treinamento militar e, por isso, jamais se deixou registrar de perfil direito. Para chegar ao poder, um dos mais célebres guerreiros italianos sacrificou o próprio legado pessoal. Assim como Montefeltro, Barack Obama também sacrificou um lado da face em busca do topo – não foi exceção em prometer coisas que, logo ali, se mostrarão impossíveis, e será rápido em dizer que, enfim, as coisas não são “bem assim”.

Assim como o Duque de Urbino, Obama ascende com um lado da face virado para o pintor e outro para a história desconhecida. Que presidente dos Estados Unidos o mundo terá? O mito negro, o reformista, o indutor de uma nova América? Tudo indica que não. Os presidentes americanos sempre chegaram ao posto cientes do que tem que ser feito. Não há improvisos no jazz da Casa Branca.

***

A Europa espera ansiosa pela posse de Obama, é um verdadeiro acontecimento por aqui. Praticamente todas as redes transmitirão flashes durante o dia e cobrirão, desde as 17h, a posse. Ontem, antecipando a história já contada 44 vezes, um canal transmitiu W., o filme de Oliver Stone que conta a história de George W. Bush. Se fosse dada a mim a tarefa de escrever a sinopse da película, assim seria: “W. é um filme sobre aceitação. Conta a história de um rico universitário beberrão que, para se livrar da sombra do irmão mais virtuoso e ter o amor do pai, se torna presidente da maior nação do planeta.” A história de George W. Bush pode ser contada através de seus acertos (um dos mais prósperos momentos econômicos do mundo) e erros (o estouro da bolha de crédito e a invasão do Iraque), mas pode também ser resumida em uma só frase: “George W. Bush, presidente dos Estado Unidos, fez o que deveria ser feito porque assim é a América”.

A partir de hoje, muitos esperam pelo governo de Obama como se fosse a volta do próprio messias. Para ser assim, o 44º presidente dos EUA não poderá repetir Frederico de Montefeltro ou George W. Bush. Em troca da redenção, Cristo precisou oferecer o outro lado da face.


Sinto minha consciência flanar

Campanha de Esclarecimento ao Eleitor estimulou voto consciente nas eleições

A Campanha de Esclarecimento ao Eleitor, veiculada na televisão e no rádio de julho a outubro do ano passado, motivou o brasileiro a votar e estimulou o voto consciente nas eleições de 2008. A avaliação da campanha, feita pelo Instituto de Pesquisa Nexus, revela que 39% dos eleitores se sentiram muito motivados a votar após assistirem na TV ou ouvirem no rádio as inserções da campanha feita pela Justiça Eleitoral. Já 33% dos consultados pela pesquisa ficaram razoavelmente animados a votar. O índice de eleitores muito motivados a votar em 2008 foi maior que os 34% das eleições de 2006.

(…)

Dos entrevistados na avaliação, 83% dos eleitores afirmaram que estavam bem informados sobre as eleições no momento de votar.”

Léo Kret do Brasil, eleito com 12.861 votos em Salvador: motivadáásso

No Sul, 9,10% dos eleitores admitiram que estavam mal informados sobre o pleito no instante do voto.”

MOMENTO MALDADE: sacanagem dizer isso dos eleitores da Luciana Genro.

Em outra pesquisa divulgada ontem, o TSE afirma que os “Eleitores estão mais preocupados com a lisura dos candidatos“.

Ou seja, quanto mais liso o candidato, melhor.


PêTê da Pizza naum tendeu a tenéti

Se você saiu anteontem de uma fenda cósmica e lê três linhas de notícias a mais do que a média diária dos brasileiros já deve saber que o $enador Azeredo não tendeu a tenéti. Apesar de se esforçar para atingir um bom nível de demência, Azeredo precisará suar um pouco mais para bater os níveis italianos de favela digital.

Aqui na Pizza, um projeto de lei apresentado em 2007 e reapresentado no final de 2008 é mais difuso do que o da Banana, porém, verdadeiramente um desastre. A abobrinha oficial fala sobre reformar o mercado editorial do país. O texto, no entanto, dá poderes para esvaziar a combativa blogosfera italiana. O projeto é chamado por aqui de “ammazzablogger” (algo como “mata-blogs”).

Apresentada pelo braço direito do renunciado esquerdista Romano Prodi, Ricardo Franco Levi, a lei previa que todos os blogs deveriam se registrar no Registro degli Operatori della Comunicazione (Roc) . Na prática, precisariam virar empresas, pagar taxas e arcar com toda a burocracia (à ITALIANA) que isso acarreta.

A lei caminhava para uma aprovação silenciosa quando foi descoberta pelo site Civile.it. Foi o ponto de partida para protestos em blogs, jornais de grande circulação e petições online. A gritaria tomou proporções tão grandes que fez o governo recuar – além forçar o próprio Levi a se pronunciar oficialmente sobre um post de Beppe Grillo, o mais influente blogueiro do país e um dos mais lidos do mundo.

Há alguns dias, no entanto, o projeto de lei voltou para apreciação do legislativo com algumas alterações. O texto não prevê mais o registro de todos os blogs, mas somente dos meios de comunicação editoriais com finalidade comercial na internet. Um desastre, nova tentativa de enganar a blogosfera e controlar politicamente as opiniões. Por “finalidade comercial” entenda-se, por exemplo, Google Ads. Na prática, o projeto continua o mesmo, já que a maioria dos blogs italianos que realmente incomodam tem banners e espaços comerciais.

A consequência de uma aprovação seria catastrófica. Se for assinada, a lei dará margem para processar blogs não registrados (aka: que não virarem empresas) por stampa clandestinadois anos de cadeia + sanções econômicas – como, aliás, já vem acontecendo.

Cada vez mais tenho a sensação de que vivemos o melhor momento da internet. A festa acabou.

Campanha contra a nova lei, agora chamada de Levi/Veltroni (Walter Veltroni, PêTê da Pizza).


Barackannibale

Impossível não empilhar posts sobre Barack Obama vivendo no Velho Mondo. Depois da declaração do imperador Berlusconi sobre bronze & beleza de Barry, agora é a vez do ministro de relações exteriores da Polônia mostrar com quanta demência se constrói a superioridade branca européia.

Do mirror.co.uk:
“Obama’s grandfather was a cannibal’, alleges Poland’s foreign minister”
Poland’s foreign minister is being investigated after allegedly making racist jibes that Barack Obama’s grandfather was a cannibal.

Oxford-educated Radoslaw Sikorski, 45, outraged colleagues when he joked that the US president-elect had Polish roots.

He told them: “His grandad ate a Polish missionary. (…)”

[Demori´s translator pra você qui não lê us livru: "Seu avô comeu um missionário Polaco".]


Eu já disse que este senhor não é o meu avô


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