L E A N D R O . D E M O R I

Máfia

Cosa Nostra no Terra

“Último chefe da Cosa Nostra desafia autoridades italianas”

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

Poucas cenas podem representar melhor a oposição de forças entre o Estado italiano e a máfia do que a divulgada pelo jornal La Repubbilca na terça-feira, 27 de julho de 2010: o último dos grandes capos da histórica e violenta máfia siciliana de Corleone sentado serenamente no estádio Renzo Barbera, na cidade de Palermo, assistindo à partida de futebol do time local contra a Sampdoria. O personagem é Matteo Messina Denaro, foragido da Justiça italiana desde 1993 e tido como o último dos grandes chefes históricos da Cosa Nostra. Desde 2006, quando o big boss Bernardo Provenzano foi capturado após uma fuga de 43 anos, Denaro assumiu o controle da mais famosa das máfias italianas.

O futebol nunca esteve no topo da lista de preferências dos vários hobbies cultivados por Matteo Messina Denaro. O videogame, os quadrinhos, os relógios de marca, as roupas de grife e os carrões esportivos são suas verdadeiras fixações. A partida entre Palermo e Sampodoria serviu, segundo investigações da Divisão Antimáfia, somente como pretexto para um encontro entre importantes chefes de famílias históricas e novos mafiosos em ascensão para decidir se (e quando) atacarão a bombas o Palácio de Justiça e a sede da polícia de Palermo. Mesmo vivendo na clandestinidade há 17 anos, a palavra de Denaro é lei em questões sensíveis como os atentados.

Bombas
As bombas são velhas companheiras da Cosa Nostra e do chefe mafioso mais procurado da Itália. Elas foram as armas mais utilizadas pelos clãs sicilianos durante a guerra declarada contra o Estado nos anos 80, que atingiu seu pico em 1992, quando Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, dois dos mais ativos juízes antimáfia do país, foram mortos em atentados alimentados com TNT. A Divisão Antimáfia acredita ser fundamental a participação de Messina Denaro nesses e em outros atentados do mesmo gênero.

Na história centenária da Cosa Nostra (originalmente chamada apenas de “Máfia”), Matteo Messina Denaro representa um anel entre a velha e a nova organização criminosa. Foi criado dentro da criminalidade em um momento de tensão, aprendeu as antigas lições dos clãs predominantes na Sicília e se tornou guardião dos segredos de dois dos principais chefes históricos da malavita: Totó Riina e Bernardo Provenzano, ambos presos sob regime perpétuo após anos de homicídios, atentados e desafios à lei.

Hobbies
Denaro herdou o poder e parte do estilo dos mafiosos de outrora, mas fundiu sua própria personalidade absorto em ícones de uma nova geração de malviventi. Nascido em abril de 1962, viveu infância e adolescência em meio à explosão da cultura pop digital representada pelos então recentes videogames e pela redescoberta dos nem tão novos quadrinhos. Seu apelido no submundo do crime, Diabolik, é apropriação direta do personagem de ficção e anti-herói dos quadrinhos italianos criado pelas irmãs Angela e Luciana Giussani justamente em 1962, ano em que Denaro nasceu.

A partir de uma carta de amor apreendida pela polícia em 1998 se pode medir a importância dos hobbies nos anos de esconderijo do mafioso. Escrita pela suposta mulher de Messina Denaro, a carta revela a paixão pelos games: “Te peço, não me diga ‘não’. Desejo tanto te dar um presente. Sabe, li em uma revista de videogames que saiu a fita de Donkey Kong 3 e não vejo a hora de poder comprá-la para você. Aquela de Secret of Mana 2 não chegou ainda”.

Por seu perfil, traçado à base de horas quase infinitas de investigações, é possível imaginar o modo como Messina Denaro estava vestido e de que maneira chegou ao estádio de Palermo na partida de maio deste ano. Obrigatória (e “camuflante”) camisa do time local, calça Giorgio Armani (ou Versace), relógio Rolex, sapatos de alto nível, perfume caro. Denaro pode ter estacionado calmamente um Smart, carro de locomoção simples nas grandes cidades por seu tamanho compacto – mas também símbolo de status na Itália – ou pode ter arriscado um pouco mais, indo ao jogo dentro de um esportivo Porsche de muitos cavalos. Não se pode separar exatamente o que é lenda do que é realidade na vida do boss Denaro, mas, por suas conhecidas extravagâncias, ele foi apelidado de “O Playboy” – estilo diametralmente oposto aos velhos capi da organização, sempre envoltos em mistérios e vidas que remontavam à origem rural da Máfia.

“Bilhetinhos”
Apesar do estilo reluzente na hora de se vestir, as quase duas décadas em que vive como foragido da Justiça só estão sendo possíveis graças aos arcaicos sistemas da malavita. Denaro não possui telefone, computador ou qualquer outro meio de comunicação eletrônica. As ordens aos demais mafiosos são passadas pelos tradicionais “bilhetinhos” (pizzini), frases quase telegráficas, tomadas por códigos e senhas para esconder nomes, ações e datas escritas em pequenas nesgas de papel.

O sistema é usado historicamente pela organização, que montou, ao longo dos anos, um verdadeiro mecanismo postal paralelo para possibilitar a comunicação dentro da pirâmide de poder. Os pizzini passam por muitas mãos até chegar ao destino, como forma de eliminar qualquer modo de descobrir seu paradeiro. O chefe, seguindo a tradição, nem mesmo os escreve de próprio punho: dita as ordens a um comandado direto. Poucas vezes ao ano, acreditam os investigadores.

Perseguição
A importância de capturar Matteo Messina Denaro é cada vez maior para as forças da lei que estão em seu encalço. Do ponto de vista legal, a Divisão Antimáfia acredita que é Denaro o fiel depositário dos preciosos arquivos de Totó Riina, papéis que podem conter nomes importantes dos círculos de poder italiano envolvidos com a máfia nas últimas décadas – políticos, empresários, juízes, jornalistas, homens de boa posição e boa reputação. Além disso, prender Denaro significaria um golpe emblemático ao sistema siciliano.

Empenhados nessa tarefa, os 007 italianos circundaram algumas pessoas nas províncias de Trapani (da cidade natal do mafioso, Castelvetrano) e Agrigento nos últimos meses. Em mãos, uma mala escura, lacrada à chave. Dentro, notas de euro empilhadas somando um total de 1,5 milhão, dispostas a serem dadas como prêmio a quem trouxer informações sobre o paradeiro do chefe fugitivo. Os espiões negam a oferta, confirmada pela revista L’Espresso sob a assinatura do jornalista Lirio Abbate, um dos maiores conhecedores de máfia e crime organizado italiano. Só o tempo poderá dizer se o cheiro do dinheiro levará ao cativeiro de Matteo Messina Denaro. O boss não pode fazer outra coisa se não esperar – possivelmente, diante de uma TV, jogando o mais novo lançamento do mundo dos games.


Ouvindo entrevista

Que fiz com um empresário calabrês sobre as tentativas de extorsão da máfia local, a ‘Ndrangheta.

Trecho recém degravado:

“Quantas vezes pediram [os mafiosos] para empregarmos pessoas? Muitas. Se fizéssemos isso estaríamos ‘tranquilos’. Mas negamos sempre. E sempre que negamos, sofremos atentados.

Atearam fogo em um furgão da empresa em 1985. Depois, começaram a disparar contra nossos carros, contra nossas casas. De 85 até hoje queimaram seis carros e um galpão. Recebemos telefonemas no meio da madrugada, ameaças, sofremos perseguições. Em 1995 encontrei no terreno da minha casa a cabeça de um lobo com a própria cauda na boca, costurada. Aquilo era uma recado claro: na próxima, te matamos.”

A reportagem sairá na edição de maio da revista Comunità Italiana.


“Tiros, trapaças e laranjas de papel”

Artigo assinado por mim, publicado hoje no caderno “Cultura” do jornal Zero Hora. É o post prometido sobre os confrontos entre italianos e trabalhadores africanos na Calábria.

Bom final de semana.

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Por trás dos conflitos entre locais e imigrantes africanos em Rosarno, na Itália, no início deste ano, está, mais do que o racismo, a extensa influência criminosa da máfia calabresa ‘Ndrangheta

Cerca de 6 mil afiliados; bases na Itália, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Bolívia, Inglaterra, Suíça, Holanda e outra dezena de países pelo mundo; oligopólio de mercado na Europa; controle da produção e do transporte por meio de joint-ventures; faturamento de 44 bilhões de euros ao ano. Esta potência econômica não está ao lado do Google na lista das melhores empresas para trabalhar, tampouco se pode mandar currículo para ela. A multinacional bilionária se chama ‘Ndrangheta, máfia calabresa que faz companhia às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em outra lista, o Kingpin Act, elenco seleto elaborado pelo governo dos Estados Unidos com os nomes mais perigosos e influentes no mundo subterrâneo do tráfico global de drogas.

É a inflamável ‘Ndrangheta, e não a xenofobia puramente ideológica, a responsável pela revolta de cerca de 1,5 mil trabalhadores africanos na cidade calabresa de Rosarno, na Itália, que há duas semanas incendiaram carros, quebraram latões de lixo, trancaram a principal rodovia da região, instauraram o caos. Os confrontos teriam começado por um episódio particularmente sádico. Dois italianos brancos passeiam de carro quando, no caminho, avistam dois africanos negros.

Os italianos brancos – e xenófobos – pegam um fuzil de pressão que, por acaso, está no carro, e desferem dois tiros contra os africanos negros. Feridos, os africanos contam o fato a outros africanos, também negros. Todos saem às ruas e transformam a cidade em praça de guerra. Revoltada, a população local (cidadãos brancos e xenófobos como os dois atiradores casuais) sai às ruas para defender sua terra.

O episódio dos atiradores é verdadeiro. Apontá-lo como ato de xenofobia pura e simples e dar a ele o título de causa isolada do quebra-quebra, não. As 48 horas de confrontos entre africanos, cidadãos locais e polícia caíram na vala comum do racismo que faz manchetes: italianos brancos versus africanos negros. Foi planejada exatamente para isso. A estratégia da máfia local é empurrar a população contra o governo que vem combatendo os clãs com prisões, sequestro de bens e cassação de políticos corruptos – em 2008, o prefeito de Rosarno foi preso e todos os dirigentes políticos cassados por infiltração mafiosa junto à ‘Ndrangheta. A intenção é passar a velha imagem de que, se não incomodados, os clãs mafiosos locais mantêm a ordem pública costumeira.

O crime não faz aflorar somente a desgraça dos atentados, do medo e da lei do silêncio. Toda atividade criminal de tipo mafioso busca a estabilidade social e financeira em seu território de controle. Na Campania – Napoli e seus arredores – a Camorra representa concreto, obras, prosperidade. Na Calábria, terra dos mais poderosos clãs mafiosos da atualidade, o benessere social também se reproduz pelos canais da ‘Ndrangheta. Ali, como um organismo vivo que escorre do terreno montanhoso da península, reluz a planície de Gioia Tauro e sua potente cultura de laranjas e tangerinas, gerida direta ou indiretamente pela máfia. Além disso, os clãs exercem poder sobre o principal porto de contâineres do Mediterrâneo, na cidade de Gioia Tauro, destino de 80% da cocaína que abastece a Europa. É a máfia que contrata, transporta e semi-escraviza a maior parte dos trabalhadores estrangeiros em situação precária como os que se rebelaram. É ela que, agora, em tempos de crise, degradou ainda mais suas posições sociais e os provocou esperando motim.

A simplificação da realidade tanto conforta quanto emburrece. É claro que há racismo na Itália e na Europa como um todo (e não só), mas explicar os horrores do mundo de modo familiar e conhecido para apontar de forma clara os bandidos e os mocinhos é um caminho tão fácil quanto desleal. Para entender histórias como a dos confrontos em Rosarno, ninguém na Calábria passa os olhos em artigos de antropologia social, em notícias rasteiras de jornais ou nas reconfortantes e sempre éticas declarações da ONU. Todos procuram esqueletos nos porões da ‘Ndrangheta, senhora de todas as coisas e lei de todas as leis.

Nesses porões se esconde o caso das “Laranjas de Papel”. Até 2004, uma fraude aplicada por cooperativas guiadas pelos clãs engordou mafiosos, dirigentes e donos de terra com dinheiro de subsídios da União Europeia. Para cada quilo de laranja colhida, a UE versava na conta de cooperativas rurais um percentual extra que engrossava os ganhos dos produtores. Em 2004, inspeções ruíram o sistema: dos 250 caminhões de laranja declarados em uma operação, apenas 12 existiam. Com base em papéis fraudados, milhões de euros abasteciam o sistema criminal de modo rápido e eficiente. Era a multiplicação das frutas. Há dois anos, aconteceram outras 45 prisões pelo mesmo golpe das “Laranjas de Papel”. Os 11 milhões de toneladas declarados? Jamais existiram. O tiro mortal foi desferido pela crise econômica mundial: sem o dinheiro fácil dos subsídios e com a economia no vermelho, as vagas no campo diminuíram. Grupos de coletores nômades que se revezam entre a colheita de tomates no verão e laranjas no inverno foram se acumulando sem emprego de maneira vertiginosa. Era preciso “se livrar” deles.

Após os confrontos em Rosarno, 1,1 mil trabalhadores braçais foram transferidos para outras regiões. A cidade vive, por agora, dias sem imigrantes. O tempo, no entanto, não para, laranjas e tangerinas voltarão a colorir os pés na próxima colheita e trarão de volta a mão-de-obra sem a qual a planície calabresa não sobrevive. E eles trabalharão lá, como fazem desde o início dos anos 90, vivendo em harmonia com a comunidade local – a xenofobia ideológica e sem controle não é roteiro-chave para explicar a história da revolta africana na Itália. Não porque o Estado italiano evitaria aqueles disparos que foram o estopim da crise, ou porque puniria seus autores, até hoje desconhecidos. Em Rosarno, na Calábria, ninguém tem medo do Estado. Todo mundo sabe que em Rosarno, e em toda a Calábria, a única coisa a temer é a máfia, verdadeira dona dos canos fumegantes.”

LEANDRO DEMORI *

* Jornalista, mora na Itália e estuda Investigação, Máfia e Sistemas criminais pela Associação de Jornalismo Investigativo de Roma


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