Silêncio em Siena
“Véspera do Palio, noite de verão aos pés de Siena. As ruas de ontem são hoje e para sempre. Pessoas sem rosto, sem data. Cruzei a Piazza Il Campo vigiado pela terracota dos palácios: o piso de ladrilhos oblíquos, sua forma igual a concha de um molusco. Fachadas de pedra ocre enfeitadas por célebres janelas. Bandeiras tremulam nos nichos, nas sacadas. Vermelhas, azuis, brancas. E pelas balaustradas os pombos do tempo, infatigáveis, vigiam aquele céu, aquela terra, em nome de um Deus piedoso.
Dentro das muralhas da cidade, nas praças, pelas ladeiras estreitas, não se distingue morador ou visitante. Difícil encontrar nesse cenário aquele que nada sabe e vai percorrer o mesmo caminho todos os dias, insensível ao lugar. Os que andam por Siena não conhecem hábito e rotina. Possuem no olhar um êxtase. São viajantes imóveis, penetrando nos instantâneos imaginários. Porque é Siena quem captura qualquer alma humana e a faz saborear as ruas pedregosas, os degraus, o fino silêncio medieval, como se todos fossem filhos.”
[trecho do conto "Silêncio em Siena", do amigo Flávio Wild. O livro homônimo também traz fotos como as abaixo e pode ser comprado aqui]


