Raciocinar
Do Estadão de hoje:
Tarso vê pressão ‘fascista’ da Itália e diz que Battisti deve ficar
BRASÍLIA – Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões “humanitárias e políticas”. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências “fascistas” nas ameaças de setores do governo italiano.
“A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana”, disse Tarso. “O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.“
Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.
1. O Partido Democrático (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a favor da extradição;
2. Um de seus principais nomes, o ex-premier Massimo D´Alema, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, disse: ”Battisti é um criminoso, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e deve pagar por isso aqui na Itália, como é praxe”. D´Alema foi secretário nacional da Federação dos Jovens Comunistas Italianos, secretário nacional do Partido Democrático da Esquerda e presidente dos Democratas de Esquerda. Hoje, é vice-presidente da Internacional Socialista (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell’Ulivo (esquerda).
3. Giorgio Napolitano (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o Partido da Refundação Comunista e os Socialistas Democráticos Italianos) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.
4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas pedindo a extradição de Battisti. A moção classifica Battisti como “terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana” e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos “materialmente” por Battisti com tiros “na cabeça ou nas costas” das vitimas.
O texto lembra ainda que “a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados” que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.
Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França – mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.
O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, a melhor coisa é ficar calado.
Lei sobre internet e política: melhor rasgar
Aprendi ao longo dos anos que a maioria das situações exige menos tolerância do que a cartilha de bons modos costuma pregar. O projeto de lei que nossos parlamentares pretendem enviar ao Congresso sobre campanhas políticas na internet fortalece a lição.
Exercito um pouco mais da minha intolerância diante do texto deixando uma contriubuição para a deputada Manuela D´Avila, que agora está com twitter e blog para discutir pública-e-democraticamente a questão.
E aí, Manu, beleza? Ó: rasguem tudo e recomecem do zero, ok? De preferência com uma noção mais clara do universo, tentando minimamente se basear em modelos que funcionam para evitar o delírio.
Não me alongo, posto aqui que o Fernando Rodrigues analisa todos os pontos com propriedade e reitera a demência. Atenho-me somente a um deles e, intolerantemente, vou ao coração da lei — lei que, aliás, sequer precisa existir, já que a internet não é um mundo paralelo e pode muito bem obedecer as determinações que já foram criadas.
“Art. 57-D É vedado aos provedores de conteúdo e empresas de comunicação social na Internet, nos conteúdos disponibilizados em suas páginas eletrônicas, por eles produzidos ou não:
II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular propaganda com esse efeito;”
Vamos ao beabá da internet: o Google é um provedor de conteúdo. Não vou entrar na discussão sobre o site de buscas em si (que também é), vou especificar pra não restar dúvida: o You Tube, do Google, provém conteúdo. Por esse artigo, ninguém poderia fazer um vídeo/sátira de um candidato e disponibilizar no site. Simples assim.
O mesmo valeria para Flickr, Picasa, Twitter e etc ad infinitum. Todos, sem exceção, podem ser chamados de provedores de conteúdo — e a lei especifica bem que esse conteúdo pode ser produzido por eles “ou não”. Ou seja, em época de campanha, o Twitter poderia ser enquadrado por essas duas frases que postei hoje, logo depois de acordar:
“Sonhei que estava em uma reunião do PT. Precisei dormir uma hora a mais pra conhecer todos os CCs.”
Faz sentido?
Não, não faz.
Rasguem esse projeto.
STF derruba exigência de diploma para jornalistas
“O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira, 17, que jornalista não precisa ter diploma para exercer a profissão. Por 8 votos a 1, o STF derrubou a exigência do diploma de jornalismo. Essa obrigatoriedade tinha sido imposta por um decreto-lei de 1969, época em que o País era governado pela ditadura militar.”
Considerações 5-minut no twitter:
. Agora que caiu exigência do diploma, todo mundo vai querer ser jornalista pra ganhar milhões.
. As empresas, claro, irão contratar semi-analfabetos para escrever nos jornais (ops, isso algumas já fazem).
. “Agora um padeiro pode roubar o meu emprego?” Se depois de 4 anos na faculdade tu escreve pior do que o padeiro, sim.
. “Mas o padeiro VAI querer roubar o meu emprego?”. Não.
. “Sem diploma nossos salários serão horríveis!”. Claro! O diploma é que garantia o teu salário de marajá, agora fodel!
. Fim da vida mágica nas redações, dos altos salários, da baixa carga horária e da proteção da classe.
. “E agora, a faculdade de jornalismo não serve pra nada?”. Minha filha, é AGORA que serve (ou não, depende dela).
. “E o sindicato dos jornalistas, se tornou obsoleto?”. Pergunta com 30 anos de atraso (mas talvez agora se torne útil).
Quando até o diabo avisa
O regime militar brasileiro teve um desfecho de pior novela, a começar pela escolha dos candidatos. O último presidente, João Figueiredo, odiava os dois, tanto por um lado quanto pelo outro: Paulo Maluf e Tancredo Neves.
Pra decepção do general, nenhum deles assumiu (foi pior). Trancedo morreu e deixou na cadeira José Sarney, que anda atolado até o pescoço na cirandinha paternalista estatal que ele tanto se acostumou a aproveitar.
Figueiredo apertou as botinas, odiava Sarney de morte, e no dia da posse não apareceu – se negava a passar a faixa presidencial ao maranhense, que ele considerava um “impostor”.
Recordar Valdemar
Google Reader proporcionando momentos de pura nostalgia:
“O plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu o julgamento de recurso em que o Ministério Público Eleitoral em São Paulo pede a cassação do deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP). Após o voto do relator, ministro Marcelo Ribeiro, negando o pedido, o ministro Joaquim Barbosa pediu vista.
O MPE pede a cassação do deputado com base no artigo 41-A da Lei 9504/97 (Lei das Eleições) com a alegação de que o candidato teria feito um churrasco para muitos eleitores, na cidade litorânea de Bertioga (SP), com distribuição de comida e bebida e realização de propaganda eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) julgou improcedente o pedido, dizendo que não houve prova de fornecimento de benesses condicionadas à obtenção de voto.”
Lembram do Valdemar?
É aquele deputado que cortou a luz e a água da mansão que dividia com a ex-mulher, em Brasília, pra forçar Maria Christina Mendes Caldeira (socialite e herdeira) a deixar a casa. Ela obviamente achou aquilo u ó e denunciou ele no Conselho de Ética da Câmara por envolvimento com o Mensalão: disse que Valde tinha recebido dinheiro em nome do PL (10,8 milhões) das mãos de Delúbio Soares.
O deputado negou veementemente (disse que eram só R$ 6 milhões), mas não aguentou o tran$torno p$icológico e renunciou em 2005. Por sorte, ele levou pra casa uma pensão de R$ 5,542 mil por mês (acho ju$to).
Como deus ajuda “us trabaiadô i perçeverânti” do Braziu, Valdemar Costa Neto foi devidamente reeleito em 2006. Hoje, está lá na Câmara cuidando muito b€m do teu dinheiro.
Medalhas: do Pacificador, MEx, 1993; do Mérito Tamandaré, MM, 1994. Ordens: de Rio Branco, MRE, 1994.
Ainda o blog da Petrobras: efeitos práticos
Talvez todo esse fogo vire fumaça já na semana que vem, essa é a aposta de muita gente, mas fato é que se a Petrobras levar seu blog adiante da maneira como o pintou (divulgando perguntas e respostas a entrevistas antes mesmo que elas sejam publicadas pelos próprios jornalistas) teremos algumas situações para analisar.
A notícia publicada pela BBC, ontem, é um exemplo bem ilustrativo. A emissora inglesa mostra que o governo de Santa Fe, na Argentina, bloqueou contas da Petrobras por calote no pagamento de impostos. A notícia foi publicada sem a versão da empresa, acrescentada depois.
Algumas considerações:
1. Não acredito que a publicação das perguntas e respostas feitas por jornalistas à Petrobras seja, em si, o problema. Quer ver?
A BBC diz que a Petrobras deve impostos ao governo da província de Santa Fe, na Argentina, e que por isso a Justiça local bloqueou R$ 4,4 milhões de reais da estatal brasileira. Se a repórter quisesse checar a informação com a Petrobras, dar o fundamental “outro lado”, poderia fazê-lo sem problemas: bastaria perguntar à empresa se ela está em dia com suas obrigações fiscais nas plantas que possui fora do Brasil, por exemplo. É uma pergunta aberta, genérica, mas que cumpre seu papel no caso da denúncia – e sobretudo, não entrega pauta alguma para a concorrência, a grande birra dos jornais.
Talvez se possa argumentar que a pergunta é “aberta” demais, mas não se pode dizer que ela é “pega-ratão” ou protocolar. A situação é forçada pela própria empresa, é o preço a pagar pela decisão de “entregar o furo”, que não tem nada de ilegal, mas afasta a pergunta objetiva por motivos óbvios.
2. Vamos a notícia em si para entender o que realmente muda, e se essa mudança é positiva.
Ao ser publicada ontem, por volta das 19h20, a notícia não trazia qualquer declaração oficial da Petrobras, seja por meio de entrevista, nota oficial ou post no blog da empresa. A BBC havia checado a informação com duas fontes: a assessoria do governador Hermes Binner e o administrador provincial de Impostos, Nicolas Ruejas.
Na matéria, sequer menção sobre qualquer tentativa de procurar a empresa para ouvir a sua versão do fato.
Por volta das 21h, no entanto, a notícia recebeu o acréscimo do entretítulo “Comunicado”, cinco parágrafos dando a versão da Petrobras em nota emitida pela própria empresa.
Como temos uma situação em que a publicação é online, digamos que houve um gap entre a denúncia e a resposta, um intervalo de cerca de uma hora e meia em que a notícia permaneceu sem a versão da acusada. Não é o melhor dos mundos, mas se pode editar o texto a qualquer momento, e agora a resposta da empresa está lá. Pelo andar da edição, me parece óbvio que a BBC não procurou a Petrobras antes de publicar a reportagem.
Agora imaginemos essa notícia em um jornal impresso. O que aconteceria? Obviamente não haveria como “emendar” a nota depois do papel rodado. Teríamos em mãos, hoje, uma manchete mostrando que a Justiça argentina bloqueou R$ 4,4 milhões da empresa, acusada de calote. E só. Se o jornal seguisse a lógica de apuração da BBC, não haveria o lado da Petrobras.
Se, mesmo assim, em nome da igualdade, o jornal quisesse dar a versão da empresa, a ouviria no outro dia, e publicaria outra matéria na edição de amanhã. Obviamente essa matéria não teria o mesmo destaque, o mesmo peso e o mesmo interesse de público.
Quem sai perdendo com esse sistema de apuração e edição? Os jornais? A Petrobras? O leitor?
A empresa poderia acusar o jornal de ser parcial por não ter ouvido sua posição?
Blog da Petrobras: para entender
A BBC Brasil acaba de soltar esta notícia:
“Província argentina bloqueia contas da Petrobras
O governo da Província argentina de Santa Fé bloqueou as contas bancárias da Petrobras Energia S.A. na Argentina acusando a empresa de não pagar dívidas tributárias com a administração local no valor de 8,5 milhões de pesos (cerca de R$ 4,4 milhões), entre 2003 e 2009.
A medida foi autorizada pela Justiça provincial, atendendo a pedido da Subsecretaria de Ingressos Públicos – o fisco local – ligada à Secretaria de Economia do governo de Santa Fé.
A informação foi confirmada à BBC Brasil, nesta terça-feira, pela assessoria do governador Hermes Binner e pelo administrador provincial de Impostos, Nicolas Ruejas.
“A Petrobras foi notificada, mas ainda não respondeu à nossa iniciativa. As dívidas tributárias atrasadas com a província vão de 2003 até hoje”, disse Ruejas à BBC Brasil.
(…)”
Dada toda a polêmica envolvendo o blog criado pela empresa para dar a sua versão dos fatos (até mesmo antes que as matérias saiam na imprensa), deixo quatro perguntas:
1. A BBC Brasil procurou a Petrobras antes de publicar o “furo” reproduzido acima?
2. Se sim, por que a Petrobras não se antecipou à publicação e postou de antemão sua defesa?
3. Se não, a Petrobras irá se defender através do blog? Parece que, diante dos fatos envolvendo a estatal e seu novo canal de comunicação, isso se torna uma obrigação. Como bem lembra a própria empresa, “a publicação das respostas no blog, antes da decisão editorial de o jornal publicar ou não a reportagem em questão, reforça o objetivo da Petrobras de alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.”
4. Caso não mencione nada em seu blog sobre a denúncia da BBC (ou sobre qualquer outra), a Petrobras admite que não tem outra versão para dar ao fato além daquele que saiu na imprensa?
Se a moda é ditar novos rumos nessa relação, vamos lá, façam a coisa direito para que todo mundo possa entender.
Agora o blog da Petrobras
Todo mundo em chamas defendendo e atacando o Papa e o Cristo, recebo um e-mail pedindo pra postar sobre o blog da Petrobras.
Li muita coisa por aí, faço o resumo do mundo em dois atos:
1) Há os que odiaram a idéia por que a Petrobras “entrega” os furos dos jornalistas, os pressionando. Alguns até a chamam de “ilegal”.
Bem, bem, BEM: ilegal ela não é. No máximo, quebra uma relação de confiança entre jornalista e fonte – uma relação importante, sem dúvida, mas nem por isso um dogma. Jornalistas, aliás, quando acham que o furo vale a pena, fritam a fonte no George Foreman Grill – não deveriam se espantar, portanto, quando a brasa pega fogo do outro lado.
Isso se aplica também na parte sobre “entregar os furos ou informações exclusivas” obtidas pelos jornalistas ao divulgar as perguntas. Pode ser uma tremenda implosão no relacionamento, mas continua sendo do jogo. Além do mais, me espanto em saber que tem gente por aí entregando “furo” em perguntas via e-mail.
2) Há os que acharam genial que uma estatal tenha criado um blog para publicar as perguntas feitas por jornalistas e suas versões do fato. Acham genial por que, nossa, olha aí a tão pedida transparência. Desiludam-se, farrapos: esse blog não foi criado para dar transparência a absolutamente nada, foi criado, isso sim, para defender a opinião de quem comanda a empresa. No meio de tudo o que será postado haverá tantas verdades, mentiras e omissões quanto há em qualquer um dos jornais que foram expostos no próprio blog.
Acreditar que “A VERDADE” sobre a Petrobras aparecerá em um blog gerido pela… Petrobras? Menos.
Se não tivesse com mais coisas para me preocupar (minha vida), eu faria o seguinte: uma trolha de perguntas pertinentes, suscintas e objetivas à Petrobras. Aposto muito que jamais obteria respostas. Então publicaria todas as perguntas (sem respostas) aqui.
Ficaria tudo bem tran$parente.
O Bar do Bandidos
Tem um bar na minha cidade natal que se chama Bar dos Bandidos. Na verdade eu não sei o seu verdadeiro nome – não tem placa lá -, não sei nem se o Bar dos Bandidos tem mesmo um nome-nome.
O Bar do Bandidos nem sempre foi o Bar dos Bandidos. Teve uma época que ele se chamava Bar dos Milagres. Era assim chamado (dizem hoje os bandidos) por que certa vez um sujeito chegou lá de muletas, caminhando desgraçadamente, sentou-se, pediu umas cachaças com mel, levantou-se meia hora depois e foi-se embora na maior, deixando as muletas escoradas na mesa de sinuca. Um milagre.
Não estou certo sobre o momento da história em que o Bar dos Milagres passou a se chamar “Bar dos Bandidos”, não sei se os bandidos fizeram um levante, uma revolução armada, se tomaram o balcão e a mesa de sinuca de assalto; ou se foram chegando por lá aos poucos, ocupando os espaços sem serem notados; ou se talvez os bandidos eram antes não-bandidos e, lentamente, entraram na malavita. Na verdade eu não sei nem se os bandidos são mesmo bandidos.
O que eu sei, seguramente, é que muitos dos bandidos (?) bebem todos os dias pinga com mel, a mesma que deu fama ao antigo Bar dos Milagres. E neste final de semana eu ganhei de presente um litro de pinga. E mel.
Operar um milagre ou ser um bandido é tudo a mesma cachaça.

“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
O jornal Corriere della Sera publicou hoje uma reportagem sobre as ruas da prostituição em Milão. O texto mostra que as recentes declarações do prefeito contra a atividade ilegal e as multas (€ 500) aplicadas na zona (ops) não estão sendo capazes de esvaziar os quarteirões do sexo na mais rica cidade italiana.
Deixarei de lado a ingenuidade geral (prostituição jamais terá fim) para me concentrar na legenda de uma das fotos da reportagem:
“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
Obviamente há uma falha jornalística grave na legenda.
Faltou dizer que tem “um cliente viado italiano no carro”.
Esses jornalistas,
(tsc tsc)
nunca aprendem.
Látex
Se para um brasilianista é preciso morar por algum tempo no Brasil para tentar entende-lo, para um brasileiro é preciso fugir dele. Se logo nos primeiro dias você se dá conta que nosso problema maior não é a corrupção – na Itália é muito pior – já é um avanço. Se pouco depois você entende que toda a América foi criada pela & para a corrupção aí bate o momento do peralá, por que os EUA são os EUA e nós ainda somos a Selva Inatingível do Turismo Sexual? já começamos a nos etender. Um bom caminho é evitar relativizar tudo e tentar reescrever suas frases, uma a uma, evitando inclusive abrir um texto mental com três delas no condicional como as que escrevi acima, se for possível. Um dos nossos problemas é certamente o excesso de “se”.
Há algumas semanas eu precisava apresentar uma capa para o livro sobre games que estamos escrevendo por aqui. Acabei viajando para a Áustria por conta do caso Josef Fritzl e, quando voltei, a colega Michela já tinha feito uma capa. Era feia. Era terrivelmente feia, assustadoramente feia a tal da capa da Michela. Mas eu que tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-a-minha-capa é que não ia dizer isso. Bem, não precisei. A turma toda resumiu a capa da Michela como uma escolha de vida para ela, foi um verdadeiro teste vocacional o debate sobre a obra. No fim, a Michela entendeu que jamais em hipótese alguma deveria pensar em trabalhar com arte gráfica. Fiquei meia hora sentado sozinho, no final da manhã, café na mesa: “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“. Bananas.
Aqui na Europa eu vejo algumas coisas interessantes que, mais umas vez, nos dão a chance de nos tornarmos uma nação relativamente relevante no universo. Porque não somos nem um pouco, o Lula é só um bufão, aquele cara “figo” com o qual todos se divertem na cachaça mas, na hora de decidir o rumo das coisas, beijinho beijinho. O Lula (o Brasil) não representa nada fora da nossa turma do churrasco, os líderes mundiais acham ele (o Lula, o Brasil, eu, você) um cara LEGAL. E só. Isso é a derrota por inteiro, ser só um “cara legal” é a pior coisa que pode acontecer a alguém. “Esse é o cara”, diz o Obama pro Lula (pro Brasil, pra mim, pra você), e você ri e se sente o máximo por que o imperador do mundo, o filho do tio mais rico da cidade, dono daquela casa com piscina e todos os Comandos em Ação “te considera”. Você só pode estar brincando.
Os gringos têm uma visão estereotipada sobre o Brasil como nós temos sobre eles (neste momento eu não estou pisando uvas ou gritando MATEO pro meu vizinho, por exemplo). Para eles nós somos o país da putaria (e somos), do turismo sexual e do turismo sexual infantil no nordeste (e somos), do crime (e somos), do sol o ano todo (não somos) e da selva inatingível (não somos, o Brasil é urbano há meio século). Na semana passada, enquanto conversava com pessoas que tinham perdido tudo por causa do terremoto, um dos donos do hotel onde estávamos disse que morria de vontade de conhecer o Brasil. “E por que tu não vai?”, perguntei, no que ele me aponta com o indicador a aliança de casamento. É a terceira vez que faço idiotamente a mesma pergunta. Ninguém em sã consciência, casado, vai querer visitar o Brasil. Ao menos não se tiver que levar a mulher junto (não olhem pra mim, a imagem já estava quebrada quando eu cheguei aqui).
Há um outro lado mais lúdico e até ingênuo dos europeus – europeus são muito mais ingênuos do que você pensa –, muitos acreditam fortemente que somos o “país do futuro”, aquele velho papo de sempre mas, hoje, bem revigorado. Dizem isso por que nossa sociedade nutre poucos preconceitos visíveis (fato que certamente formou nosso caráter de gelatina), por que nossa classe média é, em geral, mais estudada, culta e inovadora do que a européia (europeu não estuda) e por que temos espaço para crescer economicamente (é aqui que sempre, sempre aniquilamos com tudo).
Os gringos acreditam nessas coisas mas têm a plena certeza de que tudo isso só será possível por causa deles. Eles sabem que andamos em carros italianos, trabalhamos em computadores japoneses, usamos celulares finlandeses e preservativos americanos. Quer dizer, mesmo fodidos precisamos de látex importado.
O Brasil tem potencial para se tornar um grande país até meados deste século, o nosso problema é a capacidade de conseguir estragar tudo quando podemos avançar alguns dedos na história. É assim desde sempre. Vivo na Itália e, daqui, vejo todos os dias a nossa incompetência como nação. Conseguimos ter um PIB per capita (que é um dos indicadores que mais importa) pior do que o dos italianos. Creiam, amigos, isso é o ápice do fracasso.
Eu prefiro pensar sempre que vamos conseguir estragar tudo novamente, esse pensamento ativa automaticamente a minha zona de conforto mental, vou até o supermercado, pedalo pra casa, bebo umas cervejas e depois, se alguma coisa der certo, vocês me avisem que eu volto correndo e digo “ê, meu país, eu sempre soube, eu sempre soube”.
Mandar no mundo requer uma dose de ousadia, mau-caratismo, mentiras, banditismo e competência administrativa. Fazer tudo isso e ainda passar por evoluído é o que diferencia a França do Níger, a Itália da Líbia ou o Brasil de nós mesmos.
O Brasil é um anúncio de TV
Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.
A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.
A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.
Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.
Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.
Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.
O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.
É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.
Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.
Sinto minha consciência flanar
“Campanha de Esclarecimento ao Eleitor estimulou voto consciente nas eleições
A Campanha de Esclarecimento ao Eleitor, veiculada na televisão e no rádio de julho a outubro do ano passado, motivou o brasileiro a votar e estimulou o voto consciente nas eleições de 2008. A avaliação da campanha, feita pelo Instituto de Pesquisa Nexus, revela que 39% dos eleitores se sentiram muito motivados a votar após assistirem na TV ou ouvirem no rádio as inserções da campanha feita pela Justiça Eleitoral. Já 33% dos consultados pela pesquisa ficaram razoavelmente animados a votar. O índice de eleitores muito motivados a votar em 2008 foi maior que os 34% das eleições de 2006.
(…)
Dos entrevistados na avaliação, 83% dos eleitores afirmaram que estavam bem informados sobre as eleições no momento de votar.”

Léo Kret do Brasil, eleito com 12.861 votos em Salvador: motivadáásso
“No Sul, 9,10% dos eleitores admitiram que estavam mal informados sobre o pleito no instante do voto.”
MOMENTO MALDADE: sacanagem dizer isso dos eleitores da Luciana Genro.
Em outra pesquisa divulgada ontem, o TSE afirma que os “Eleitores estão mais preocupados com a lisura dos candidatos“.
Ou seja, quanto mais liso o candidato, melhor.
Não se preocupe, nós temos um bom plano de marketing para reverter a situação, comandante
[Do terra]

