Arab Di$ney
A menor notoriedade em relação à Suíça, às Ilhas Caimã ou às Bahamas não rebaixa Dubai na lista de destinos preferidos do dinheiro suspeito que circula pelo mundo. O emirado é, há muitos anos, um dos paraísos fiscais mais movimentados do planeta (paraíso para quem tem o que esconder, obviamente). Quadrilhas de traficantes colombianos, lavanderias de dinheiro europeias, contrabandistas asiáticos, mafiosos russos, traficantes de armas iranianos e terroristas islâmicos estão entre os clientes VIP dos bancos locais – aportam quantidade desconhecida de dinheiro no mais suntuoso, liberal e ocidental dos Emirados Árabes Unidos.
Dubai escolheu a estrada do capital externo por que jamais seria um dos barões do petróleo. Suas reservas, exploradas industrialmente a partir dos anos 50, hoje representam parte ínfima da economia local. Pior: devem secar em 20 ou 30 anos. A rota traçada foi mais extrema a do vizinho mais poderoso e conservador, Abu Dhabi. Ambos apontaram em investimentos imobiliários assustadores para atrair turistas e dinheiro de todo o mundo, mas Dubai foi além. É, de longe, um dos países árabes mais liberais nos costumes sociais, nas relações empresariais e nas aplicações financeiras (com o Dubai International Finance Centre), fato que ajuda a atrair dinheiro e hábitos ocidentais e despertar certo desconforto na vizinhança islâmica.
Conheço um caso verídico que conta resumidamente a função de Dubai no jogo do dinheiro sujo (não posso citar nomes, mas é uma história corriqueira): traficantes colombianos levavam cocaína ao Brasil. De lá, em navios mercantes, faziam a droga chegar ao porto de Roterdã, na Holanda, de onde partia para o resto da Europa. O dinheiro da venda era transportado em carros alugados e parava nas mãos de um gerente financeiro de contas particulares na Suiça, que se encarregava de transferi-lo, via Espanha, para, entre outros destinos, Dubai.
A investigação deste caso prendeu diversos envolvidos mas não conseguiu descobrir, até hoje, onde o dinheiro era realmente lavado. Dubai está na lista de suspeitos com um adendo que ajuda a explicar a moratória da dívida decretada ontem pela estatal Dubai World: a grana suja do pó seria investida no setor imobiliário do emirado – saía de lá limpinha para ser reinvestida em negócios legais ou de economia cinza na Europa. Não que todo o dinheiro que pouse no deserto seja sujo, mas parte importante é. Essa crise de Dubai ainda tem muito o que contar.
A dívida da Dubai World e de sua subsidiária Nakheel empurrada com a barriga para daqui a 6 meses é de declarados 59 bilhões de dólares. Para cobrir os rombos deixados pela falência do banco Lehman Brothers e pelos problemas da seguradora AIG em 2008, o Banco Central Europeu (BCE) injetou em uma operação importante cerca de 40 bilhões de dólares na economia. Serve pra dar a dimensão do estrago em Dubai, que pode ser ainda maior do que o anunciado.
Os principais credores da Dubai World são bancos, de novo eles e seus negócios de alto risco e – por tantas vezes – pouca clareza. O Credit Suisse divulgou ontem que “bancos europeus podem ter exposição de US$ 40 bilhões no país“. É grana.
Há muito, analistas alertam que o mercado de imóveis de Dubai era uma bolha pronta a explodir. A queda dos preços dos imóveis já vinha acontecendo, mas ontem o conjunto da obra explodiu de vez. Agora é questão de tempo até saber quantos corpos como o da Dubai World ainda estão escondidos nas paredes do mundo.