A lógica do pinheirinho de natal
Ontem fui dar minha primeira contribuição anual às festas cristãs e ao mundo ao andar pela praça da cidade jogando cascas de castanha pelo chão. As castanhas (recém saídas da brasa) estavam ótimas, as cascas eu tenho certeza que alguém com renda mensal melhor do que a minha recolheu. Gosto do natal como quase todo bom ateu, principalmente da decoração quase brega de morrer, da corrida infantil, luzinhas que piscam e bobalhões gordos de barba falsa e suas renas de madeira aterrorizantes.
Ando aproveitando ao máximo as luzinhas quase bregas desse ano porque gosto mesmo delas e já não tenho certeza quanto tempo durarão. No início do mês, a Corte Europeia proclamou que a Itália deveria retirar das salas de aula todos os crucifixos em nome do “pluralismo religioso” em órgãos públicos. Para a Corte, o Estado não pode “patrocinar” uma religião em detrimento das outras – que crescem a cada dia juntamente com a imigração. A decisão poderá ser estendida a todos os órgãos públicos: nada de crucifixos em hospitais, estações de trem, pontos de atendimento, prefeituras, palácios de governo, delegacias ou correios, nada nada, deve prevalecer a assepsia estatal, já é assim logo ali na França e etc no que concordam – surpreendentemente – boa parte dos italianos.
Andando pelas ruas e cultivando o ódio dos catadores de lixo com meus marrones, andando pelas ruas e vendo as luzes de natal pela última vez. Os acende-e-apaga (e o pinheirinho) foram colocados (e pagos) pela prefeitura da minha cidade, por seu sindaco do Partido Democrático. O prefeito pode sucumbir, já no próximo ano, em nome do pluralismo. Luzinhas de natal e arvorezinha patrocinadas pelo Estado não não, Sr. Luca Ceriscioli, que é o nome do recém eleito. Recém reeleito, aliás. Pega meu voto e ordena que uma equipe da prefeitura, paga com meus impostos, compre símbolos do cristianismo e os espalhe pelo centro histórico? Sr. Prefeito, ora Sr. Prefeito.
Ontem, em referendo, a população da Suíça proibiu a construção de minaretes, aquelas torres que adornam as mesquitas. “Nada de minaretes, Srs. muçulmanos”, disse o povo do país ali de cima, e aqui na Itália a Igreja Romana saiu em defesa das torres. A Igreja, que alega que os crucifixos são parte da cultura e da tradição italianas – e que, portanto, devem permanecer nas escolas – defende também que os minaretes são parte da cultura muçulmana e que devem ser liberados em nome do pluralismo (o mesmo que pode acabar com as luzes de natal). É claro que “cada qual com seu minarete”, que é construído com dinheiro privado e lá bem diferente de Jesus Morto no Colégio. Mas, no fim, acaba dando no mesmo: Jesus Morto e Minaretes e Luzinhas de Natal são cavalos de batalhas de propósitos nem sempre claros a quem só quer comer as castanhas e congelar no frio.
A sociedade italiana, pelo bem da integração com quem chega, pode perder seus crucifixos. A sociedade suíça, pelo bem de quem está lá, poupou a própria vista das torres de outro planeta. Eu, que só quero passear e emporcalhar a praça, posso perder a foto do ano que vem. E você até acha que certos assuntos são “coisa dos políticos” e que não tem nada a ver com isso.

Tá servido?
Arab Di$ney
A menor notoriedade em relação à Suíça, às Ilhas Caimã ou às Bahamas não rebaixa Dubai na lista de destinos preferidos do dinheiro suspeito que circula pelo mundo. O emirado é, há muitos anos, um dos paraísos fiscais mais movimentados do planeta (paraíso para quem tem o que esconder, obviamente). Quadrilhas de traficantes colombianos, lavanderias de dinheiro europeias, contrabandistas asiáticos, mafiosos russos, traficantes de armas iranianos e terroristas islâmicos estão entre os clientes VIP dos bancos locais – aportam quantidade desconhecida de dinheiro no mais suntuoso, liberal e ocidental dos Emirados Árabes Unidos.
Dubai escolheu a estrada do capital externo por que jamais seria um dos barões do petróleo. Suas reservas, exploradas industrialmente a partir dos anos 50, hoje representam parte ínfima da economia local. Pior: devem secar em 20 ou 30 anos. A rota traçada foi mais extrema a do vizinho mais poderoso e conservador, Abu Dhabi. Ambos apontaram em investimentos imobiliários assustadores para atrair turistas e dinheiro de todo o mundo, mas Dubai foi além. É, de longe, um dos países árabes mais liberais nos costumes sociais, nas relações empresariais e nas aplicações financeiras (com o Dubai International Finance Centre), fato que ajuda a atrair dinheiro e hábitos ocidentais e despertar certo desconforto na vizinhança islâmica.
Conheço um caso verídico que conta resumidamente a função de Dubai no jogo do dinheiro sujo (não posso citar nomes, mas é uma história corriqueira): traficantes colombianos levavam cocaína ao Brasil. De lá, em navios mercantes, faziam a droga chegar ao porto de Roterdã, na Holanda, de onde partia para o resto da Europa. O dinheiro da venda era transportado em carros alugados e parava nas mãos de um gerente financeiro de contas particulares na Suiça, que se encarregava de transferi-lo, via Espanha, para, entre outros destinos, Dubai.
A investigação deste caso prendeu diversos envolvidos mas não conseguiu descobrir, até hoje, onde o dinheiro era realmente lavado. Dubai está na lista de suspeitos com um adendo que ajuda a explicar a moratória da dívida decretada ontem pela estatal Dubai World: a grana suja do pó seria investida no setor imobiliário do emirado – saía de lá limpinha para ser reinvestida em negócios legais ou de economia cinza na Europa. Não que todo o dinheiro que pouse no deserto seja sujo, mas parte importante é. Essa crise de Dubai ainda tem muito o que contar.
A dívida da Dubai World e de sua subsidiária Nakheel empurrada com a barriga para daqui a 6 meses é de declarados 59 bilhões de dólares. Para cobrir os rombos deixados pela falência do banco Lehman Brothers e pelos problemas da seguradora AIG em 2008, o Banco Central Europeu (BCE) injetou em uma operação importante cerca de 40 bilhões de dólares na economia. Serve pra dar a dimensão do estrago em Dubai, que pode ser ainda maior do que o anunciado.
Os principais credores da Dubai World são bancos, de novo eles e seus negócios de alto risco e – por tantas vezes – pouca clareza. O Credit Suisse divulgou ontem que “bancos europeus podem ter exposição de US$ 40 bilhões no país“. É grana.
Há muito, analistas alertam que o mercado de imóveis de Dubai era uma bolha pronta a explodir. A queda dos preços dos imóveis já vinha acontecendo, mas ontem o conjunto da obra explodiu de vez. Agora é questão de tempo até saber quantos corpos como o da Dubai World ainda estão escondidos nas paredes do mundo.
Soup brasiliana, i viados
Sapatos, ternos, passarela. Automobilismo, futebol, máfia. Pasta, pizza, política, gritaria. A Itália de tantos clichês sustenta a maioria deles com poucas exceções (ninguém por aqui sai dançando a “tarantella”). Um dos clichês italianos menos famosos e que parece cada vez mais se abrir para o mundo é a adoração por travestis. A quantidade de homenzarrões com feições masculinas nítidas mesmo em um corpo transformado para feminilizar as expressões chama atenção não só em Roma ou Milão, mas em todas as importantes cidades do país.
É um fato consumado e contra isso não há muito o que fazer: talvez a mistura do conservadorismo pouco laico com a personalidade mais ou menos expansiva dos italianos tenha transformado o país no paraíso da transgressão “trans”, centro mundial dos travestis. Os brasileiros (ao menos os que consideram a prostituição uma profissão como qualquer outra) podem se orgulhar de um feito nessa nem tão nova tradição da península: somos os maiores exportadores de mão-de-obra qualificada. Travestis “brasiliani” trabalham a peso de ouro, estão espalhados por todo o país em maior número do que qualquer outra nacionalidade e chegam a faturar 10, 15, 20 mil euros por mês. Depende quase sempre do tamanho da “experiência”. Conforme depoimentos dos próprios trans, a maior parte dos clientes quer “ser a mulher” – e exige grandes emoções.
Em geral, nossos “viados” (como são normalmente chamados por aqui) vivem por seis meses na Itália e fazem uma pequena fortuna antes de retornar para o verão do Brasil. Com os euros, podem levar a boa vida tropical, muitas vezes sem precisar trabalhar enquanto estiverem em casa. Boa parte vive essa vida dupla há mais de 10 anos e não trocaria por nada as ruas e condomínios italianos pelo Brasil que antes conheciam: favelas, sertão nordestino, pobreza.
O longo caso de paixão entre parte da Itália e os travestis brasileiros vem sofrendo abalos. No último mês, uma das principais regiões do país, a Lazio, onde está Roma, perdeu seu governador por um escândalo de drogas e extorsão que tinha entre os protagonistas alguns dos nossos “trans”. Piero Marrazzo foi um famoso jornalista de TV antes de se tornar governador em 2005. Teria conhecido Natalie – codinome de um dos travestis brasileiros – em 2001, antes da vida política. Os 8 anos de relações com Natalie terminaram em outubro deste ano, quando a imprensa divulgou a existência de um vídeo que mostrava o governador com o “trans” em cenas gravadas dentro do apartamento de Natalie, na via Gradoli, em uma zona conhecida por ser um dos centros de travestis da capital italiana. Três dias depois, Marrazzo renunciou admitindo sua segunda vida no mundo “dei trans” e se refugiou em um mosteiro às portas de Roma.
O caso de Marrazzo com Natalie não se resume a um jogo de amizade, sexo e cocaína (que o governador admitiu usar frequentemente). O vídeo foi gravado por dois policiais à paisana fora do horário de serviço que, depois, passaram a extorquir Marrazzo – dinheiro em troca de silêncio, euros em troca de viver ou morrer politicamente. Os policiais teriam descoberto o endereço de Natalie e a presença de Marrazzo no apartamento graças à Brenda, outro travesti brasileiro acusado de dedurar o encontro. A história veio à tona e os policiais foram presos acusados de extorsão.
Brenda, de alegadas relações com Marrazzo, morreu nesta semana sufocada por fumaça devido a um incêndio em sua casa. Para a procuradoria, Brenda foi assassinada. Seu computador, que pode conter peças importantes para o mistério, foi encontrado no bidê do banheiro sob água corrente. Um sinal, uma ameaça a quem mais ousasse abrir a boca? O problema não seria mais Piero Marrazzo, e sim a lista de outros políticos, empresários e personalidades importantes que frequentam o mundo tropical e de perversão dos “trans brasiliani”. Muitos temem o mesmo destino do ex-governador da Lazio: o apredejamento midiático.
Há ainda outro cadáver a carregar. Um dos envolvidos no caso é Gianguerino Cafasso, denominado pela imprensa italiana como “il pusher” por seu papel na história. Cafasso, um frequentador do sub-mundo romano, se encontrou com diversos jornalistas na tentativa de vender o vídeo. Ninguém comprou a história por dois motivos claros: a filmagem não era “mostrável”, ou seja, era suja demais para ir à público; Marrazzo não faria notícia suficiente para compensar a relação custo/benefício. No mercado dos escândalos na terra dos paparazzi, um vídeo desses pode custar facilmente 300 mil euros. No caso, era muito dinheiro para pouco personagem. Marrazzo por certo não é um Berlusconi.
Gianguerino Cafasso morreu em 12 de setembro, antes da história de Marrazzo se tornar pública, por overdose de cocaína, seu produto de uso habitual. Estava junto com outro travesti brasileiro, sua namorada Jennifer, que teria desistido de cheirar o pó por que “tinha um gosto muito amargo”. Esta semana, em nova autópsia depois da suspeita morte de Brenda, descobriu-se que Cafasso morreu por overdose de heroína, trabalhada com outro pó branco para que parecesse cocaína. A procuradoria do caso reabriu o inquérito com suspeitas de homicídio voluntário.
Depois do giallo que envolve políticos, travestis, drogas e mortes, a polícia determinou que todos os trans brasileiros que não tenham permissão para residir na Itália deixem o país. É a imensa maioria. Há condomínios inteiros em importantes cidades italianas onde só se fala português e onde o sexo alimenta famílias e cria pequenas fortunas. Como se trata da Itália, no entanto, a ordem será cumprida parcialmente. É provável que muitos fujam por medo: a maioria, no entanto, deve permanecer onde está, trocar de endereço ou, no máximo, dar um tempo no Brasil antes de voltar pra cá e continuar a vida profissional. A “soup brasiliana” dos travestis jamais terá fim.
Raciocinar
Do Estadão de hoje:
Tarso vê pressão ‘fascista’ da Itália e diz que Battisti deve ficar
BRASÍLIA – Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou nesta quinta-feira, 19, que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ativista Cesare Battisti no País por razões “humanitárias e políticas”. E resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências “fascistas” nas ameaças de setores do governo italiano.
“A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana”, disse Tarso. “O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo.“
Vamos admitir que a tese de Tarso esteja certa, e que o fascismo venha ganhando força em setores do governo. Agora vamos além do raciocínio raso e apelativo.
1. O Partido Democrático (gigante de centro-esquerda e com o qual o PT se identifica) é a favor da extradição;
2. Um de seus principais nomes, o ex-premier Massimo D´Alema, se reuniu com Lula em Roma no último final de semana. Na saída do encontro, disse: ”Battisti é um criminoso, foi condenado no nosso país por crimes contra pessoas e deve pagar por isso aqui na Itália, como é praxe”. D´Alema foi secretário nacional da Federação dos Jovens Comunistas Italianos, secretário nacional do Partido Democrático da Esquerda e presidente dos Democratas de Esquerda. Hoje, é vice-presidente da Internacional Socialista (sim, ela ainda existe) e deputado eleito pela coalisão dell’Ulivo (esquerda).
3. Giorgio Napolitano (presidente da Itália, ex-comunista e eleito por uma coalisão que tem, entre outros partidos de esquerda, o Partido da Refundação Comunista e os Socialistas Democráticos Italianos) pediu oficialmente a extradição a Lula. Napolitano é o primeiro presidente ex-comunista da Itália.
4. A Câmara dos Deputados italiana aprovou moção assinada por parlamentares de diversas correntes políticas pedindo a extradição de Battisti. A moção classifica Battisti como “terrorista condenado com sentença definitiva segundo as leis da República italiana” e lembra que o ex-membro do grupo Proletários Armados pelos Comunismo (PAC) é autor, co-autor ou organizador de quatro homicídios, dois deles cumpridos “materialmente” por Battisti com tiros “na cabeça ou nas costas” das vitimas.
O texto lembra ainda que “a decisão de status de refugiado político concedido a Battisti foi feita de maneira isolada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, antes da conclusão do julgamento sobre a extradição e em flagrante contraste com a decisão do Comitê Nacional para os Refugiados” que já havia manifestado parecer negativo ao asilo do italiano.
Não sou jurista, não entrarei no mérito sobre a extradição. Há divergências até mesmo entre os representantes da corte máxima do país, o STF, com votação apertada a favor de mandar Battisti de volta pra cá. Há os extraditados do Proletários Armados pelo Comunismo (o PAC, grupo de Battisti) e há os refugiados, sobretudo na França – mais de uma centena que vivem do lado de lá dos Alpes.
O apelo à luta do bem contra as forças do mal (fascistas) ajuda pouco ou nada a resolver esse impasse. Numa hora dessas, a melhor coisa é ficar calado.
