L E A N D R O . D E M O R I

Látex

Se para um brasilianista é preciso morar por algum tempo no Brasil para tentar entende-lo, para um brasileiro é preciso fugir dele. Se logo nos primeiro dias você se dá conta que nosso problema maior não é a corrupção – na Itália é muito pior – já é um avanço. Se pouco depois você entende que toda a América foi criada pela & para a corrupção aí bate o momento do peralá, por que os EUA são os EUA e nós ainda somos a Selva Inatingível do Turismo Sexual? já começamos a nos etender. Um bom caminho é evitar relativizar tudo e tentar reescrever suas frases, uma a uma, evitando inclusive abrir um texto mental com três delas no condicional como as que escrevi acima, se for possível. Um dos nossos problemas é certamente o excesso de “se”.

Há algumas semanas eu precisava apresentar uma capa para o livro sobre games que estamos escrevendo por aqui. Acabei viajando para a Áustria por conta do caso Josef Fritzl e, quando voltei, a colega Michela já tinha feito uma capa. Era feia. Era terrivelmente feia, assustadoramente feia a tal da capa da Michela. Mas eu que tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-a-minha-capa é que não ia dizer isso. Bem, não precisei. A turma toda resumiu a capa da Michela como uma escolha de vida para ela, foi um verdadeiro teste vocacional o debate sobre a obra. No fim, a Michela entendeu que jamais em hipótese alguma deveria pensar em trabalhar com arte gráfica. Fiquei meia hora sentado sozinho, no final da manhã, café na mesa: “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“. Bananas.

Aqui na Europa eu vejo algumas coisas interessantes que, mais umas vez, nos dão a chance de nos tornarmos uma nação relativamente relevante no universo. Porque não somos nem um pouco, o Lula é só um bufão, aquele cara “figo” com o qual todos se divertem na cachaça mas, na hora de decidir o rumo das coisas, beijinho beijinho. O Lula (o Brasil) não representa nada fora da nossa turma do churrasco, os líderes mundiais acham ele (o Lula, o Brasil, eu, você) um cara LEGAL. E só. Isso é a derrota por inteiro, ser só um “cara legal” é a pior coisa que pode acontecer a alguém. “Esse é o cara”, diz o Obama pro Lula (pro Brasil, pra mim, pra você), e você ri e se sente o máximo por que o imperador do mundo, o filho do tio mais rico da cidade, dono daquela casa com piscina e todos os Comandos em Ação “te considera”. Você só pode estar brincando.

Os gringos têm uma visão estereotipada sobre o Brasil como nós temos sobre eles (neste momento eu não estou pisando uvas ou gritando MATEO pro meu vizinho, por exemplo). Para eles nós somos o país da putaria (e somos), do turismo sexual e do turismo sexual infantil no nordeste (e somos), do crime (e somos), do sol o ano todo (não somos) e da selva inatingível (não somos, o Brasil é urbano há meio século). Na semana passada, enquanto conversava com pessoas que tinham perdido tudo por causa do terremoto, um dos donos do hotel onde estávamos disse que morria de vontade de conhecer o Brasil. “E por que tu não vai?”, perguntei, no que ele me aponta com o indicador a aliança de casamento. É a terceira vez que faço idiotamente a mesma pergunta. Ninguém em sã consciência, casado, vai querer visitar o Brasil. Ao menos não se tiver que levar a mulher junto (não olhem pra mim, a imagem já estava quebrada quando eu cheguei aqui).

Há um outro lado mais lúdico e até ingênuo dos europeus – europeus são muito mais ingênuos do que você pensa –, muitos acreditam fortemente que somos o “país do futuro”, aquele velho papo de sempre mas, hoje, bem revigorado. Dizem isso por que nossa sociedade nutre poucos preconceitos visíveis (fato que certamente formou nosso caráter de gelatina), por que nossa classe média é, em geral, mais estudada, culta e inovadora do que a européia (europeu não estuda) e por que temos espaço para crescer economicamente (é aqui que sempre, sempre aniquilamos com tudo).

Os gringos acreditam nessas coisas mas têm a plena certeza de que tudo isso só será possível por causa deles. Eles sabem que andamos em carros italianos, trabalhamos em computadores japoneses, usamos celulares finlandeses e preservativos americanos. Quer dizer, mesmo fodidos precisamos de látex importado.

O Brasil tem potencial para se tornar um grande país até meados deste século, o nosso problema é a capacidade de conseguir estragar tudo quando podemos avançar alguns dedos na história. É assim desde sempre. Vivo na Itália e, daqui, vejo todos os dias a nossa incompetência como nação. Conseguimos ter um PIB per capita (que é um dos indicadores que mais importa) pior do que o dos italianos. Creiam, amigos, isso é o ápice do fracasso.

Eu prefiro pensar sempre que vamos conseguir estragar tudo novamente, esse pensamento ativa automaticamente a minha zona de conforto mental, vou até o supermercado, pedalo pra casa, bebo umas cervejas e depois, se alguma coisa der certo, vocês me avisem que eu volto correndo e digo “ê, meu país, eu sempre soube, eu sempre soube”.

Mandar no mundo requer uma dose de ousadia, mau-caratismo, mentiras, banditismo e competência administrativa. Fazer tudo isso e ainda passar por evoluído é o que diferencia a França do Níger, a Itália da Líbia ou o Brasil de nós mesmos.

31 Comentários Assine os comentários


  1. Diogo

    What you mean classe média brasileira é mais ilustrada que a europeia?

    Ninguém lê a porra de um livro; ninguém sabe escrever nada com dois parágrafos.

    Talvez tomando como parâmetro a classe média gaúcha a coisa seja um pouco menos trágica.

    Apr 16, 2009 @ 2:07 am

  2. Mesma experiência « Getting Personal with Fabs

    [...] conseguiria descrever tão bem quanto o Demori, que conhece o Bruno – que está por aqui, e o Walter, que está por lá. Mas com quem, por algum [...]

    Apr 16, 2009 @ 2:22 am

  3. EGS

    Belo texto.

    Apr 16, 2009 @ 2:38 am

  4. Praia de Xangri-Lá » Blog Archive » Látex

    [...] [...]

    Apr 16, 2009 @ 4:21 am

  5. van

    Até parece que tu voltou de um terremoto e viu um monte de desgraça….
    Ou então parece que vc. teve que ir na cidade daquele louco pinel que mantinha a filha em cárcere privado e a obrigava a manter relações sexuais com ele na frente dos filhos entre outras coisinhas meigas.
    Cara, recomendo um ashram por um mes, no mínimo. Não queria ser portadora de más notícias, mas assim vc. vai pirar.
    Relaxa, por Deus. Bj me liga.

    Apr 16, 2009 @ 4:34 am

  6. Bruno Galera

    Ninguém lê porra nenhuma em lugar nenhum. Classe média gaúcha certamente é a pior de todas.

    Apr 16, 2009 @ 12:53 pm

  7. Leandro Demori

    Diogo, ler livros não significa nada. E como bem disse o Bruno, ninguém lê em lugar algum. A classe média européia, no geral, é uma desgraça.

    Apr 16, 2009 @ 2:02 pm

  8. Fernando

    Outro dia estava pensando se não tinha um fator a mais além do conhecido (corrupção, mentalidade de extrativismo, essas bobagens) para o eterno atra$o pindorameiro. Aí você diz:

    > “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“

    Tive uma conclusão que chegou mais ou menos perto, uma “conclusão-prima”, por se dizer assim. Falta objetividade. A objetividade assusta, te faz perder amigos; pessoas que vão direto ao assunto são frias, fechadas, malvadas.

    Ou seja, acaba acontecendo que ‘todo mundo tem que conviver bem e suportar as bobagens que os outros dizem’; porque sim, porque somos todos amigos. Somos todos caras bem legais.

    Ou porque, como temos que mascarar que nada fazemos, temos que enrolar para chegar até o ponto onde dizemos que nada podemos fazer ou que nada está feito (serviço público me vem à mente, por exemplo). Essas coisas.

    Mas um dia passa. Com a torcida diária para que o primeiro mundo se iguale a nós (pisando o freio, lógico) um dia chegamos lá (porque daí todo mundo vai ser medíocre igual).

    Apr 16, 2009 @ 2:36 pm

  9. Leandro Demori

    Fernando: brasileiro não suporta críticas, as feitas e as sofridas, pela mania geral de querer se dar bem com todo mundo. Obviamente não funciona.

    Apr 16, 2009 @ 4:36 pm

  10. Tiele

    Boa! Talvez nossa cultura seja basicamente não assumir outra cultura melhor. Viver exatamente como o vento sempre mandou e se orgulhar disso. E pra isso, os governantes ajudam e não incentivam ninguém a estudar e entender o que eles aprontam enquanto trabalhamos, total “laissez faire, laissez passer”. Isso vai nos impedir de avançar, até que surja um “Lula simpático e conquistador de humildes” que pense diferente desse. Ou um que pense, apenas.

    E essa não é a visão atual de quem estuda e quer mais sumir daqui, buscar um melhor. É a visão de quem trabalha o dia todo hoje, pra garantir o jantar (de hoje). Maioria, creio!

    (Mas pra quem afirma que as pessoas NÃO LÊEM NADA EM LUGAR ALGUM, esse post tá móito longo.
    deusolivre!)

    :P

    Apr 16, 2009 @ 8:45 pm

  11. van

    Fui no Aurélio consultar Brasilianista. OK.
    Procurei tb. Italianista, não tem.
    Isso diz alguma coisa coisa pra alguém?
    Talvez a explicação mais coerente – com o texto – seja pelo fato de que Brasileiro é bonzinho, “legau”…então que venham os brasilianistas nos estudarem, nos pesquisarem, nos roubarem…NÃO! peralá! até porque todos,até os índios sabem, que de boas intenções o inferno está cheio.

    O tal do italiano machista e engraçadinho tá doido pra vir ao Brasil sem a patroa… Pra mandar ver, pra afogar o ganso? Que babaca.

    A Itália, ops, aquele paizinho que faz parte da União Européia, “Minas não há mais, José, e agora?” acredita fortemente, que somos o ‘país do futuro’.
    Eu acredito não por ingenuidade, mas pelo que vejo, que vence o mais forte. Darwin está aí e não me deixa mentir: É a lei da seleção natural. Não é a toa que essa bota tá balança mais não cai.
    E me desculpe muito mas “caráter de gelatina” quem o teve foram os colonizadores que entraram aqui roubando e matando.
    “O ápice do fracasso, nosso problema maior é o o PIB per capita, menor do que o da Itália”.
    Sim, pois 80% do PIB Brasil está concentrado em 7 estados e DF, assim como a desilgualdade entre os países é cada vez mais concentrada e alarmante.
    Todos temos que nos dar conta disso. É preciso dar capacitação aos indivíduos.Por que gastamos mais em previdência do que em Educação, no nosso capital humano?

    Apr 17, 2009 @ 1:24 am

  12. Paulo

    Já li textos bons. Sofrível o atual. Lembre que estás na decadente Europa.

    Apr 17, 2009 @ 3:40 am

  13. Reginaldo Lemos Oliveira

    Eu vou ter que ler e reler, e ler de novo para entender a “fábula da capa do livro”. A moça foi rechaçada porque a capa estava uma merda ou ela foi tão elogiada (hipoteticamente falando) que resolveu mudar de vida porque é austríaca e austríaco não está acostumado com elogios? Ma que bela porcamiséria!! Eu vou ter que parafrasear aqui o “poetinha”: A Europa é boa mas é uma merda, o Brasil é uma merda mas é bom !

    Volta

    Apr 17, 2009 @ 1:32 pm

  14. van

    ahahah Reginaldo Lemos Oliveira, a Michella a meu ver, é italiana e está desempregada, talvez à caminho do Braziu pra fazer artes gráficas, já que sentiu o potencial do Lelê.

    Áustríaco é o Fritz, mixto de pedófilo, pederasta, estuprador, sequestrador e fodão… figura das mais pervertidas como só se fazem aí na Zoropa.
    No Braziu tem o senhor dos castelos, tem o senhor do Maranhão e Amapá, tem a senhora dona do templo, estelionatária e socialite, tem o Dom padre que condena o aborto, excomunga os médicos e a mãe, mas não condena o estuprador, e assim caminha a humanidade.

    Abraço, Obrigada.

    Apr 17, 2009 @ 2:09 pm

  15. Leandro Demori

    Van: o Fritzl estupra mas não mata, filosofia Malufiana. É o Braziu, enfim, influenciando a Europa. Vencemos.

    Apr 17, 2009 @ 2:24 pm

  16. van

    Oi Lelê miss uuu… Matou o filho sim, se informe melhor. Bjinho. V.

    Apr 17, 2009 @ 2:34 pm

  17. Leandro Demori

    Morreu sem assistência médica 2 dias depois do parto. Esqueceu que eu cobri o caso?

    :)

    Apr 17, 2009 @ 2:44 pm

  18. Reginaldo Lemos Oliveira

    Se um pai nega socorro a um recém-nascido por razões que a própria razão desconhece e a criança morre.quem matou a criança? foi a odete rhoitman?

    Apr 17, 2009 @ 2:53 pm

  19. van

    Não,foi o Bispo. Ou então faz iqual ao Chico: Chama o ladrão, chama o ladrão…

    Apr 17, 2009 @ 3:00 pm

  20. Fernando

    Tiele: por isso que eu acho que o maior malfeitor no Brasil hoje é o Zeca Pagodinho. Ele e a filosofia do “deixa a vida levar”.

    Apr 17, 2009 @ 3:48 pm

  21. van

    Ah, Fernando, vamos combinar: “Na cama com Madonna: “Jesus, ME chicoteia!”
    Zeca Pagodinho: “Deixa a vida ME levar” nénão?

    Apr 17, 2009 @ 4:03 pm

  22. Pedro

    “Mas eu que tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-a-minha-capa é que não ia dizer isso. Bem, não precisei. A turma toda resumiu a capa da Michela como uma escolha de vida para ela, foi um verdadeiro teste vocacional o debate sobre a obra. No fim, a Michela entendeu que jamais em hipótese alguma deveria pensar em trabalhar com arte gráfica. Fiquei meia hora sentado sozinho, no final da manhã, café na mesa: “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“. Bananas. ”

    No Brasil as discussões (em especial as acadêmicas) não se focam nas idéias, mas nas pessoas! E a pessoalização da argumentação!
    E, aí sim, como tu disse acima, ninguém quer ficar brabinho com ninguém!

    Baita texto!

    Apr 17, 2009 @ 5:56 pm

  23. Leandro Demori

    “Se um pai nega socorro a um recém-nascido por razões que a própria razão desconhece e a criança morre.quem matou a criança? foi a odete rhoitman?”

    Reginaldo e Van: não foi a Odete. E nem o pai. O pai pode ser julgado e condenado por omissão de socorro ou assassinato por negligência, como no caso do Fritzl. Tecnicamente são coisas bem distintas, ambas terríveis, mas incomparáveis do ponto de vista jurídico para podermos dizer assim com tanta convicção que “foi o pai que matou”.

    Apr 17, 2009 @ 7:21 pm

  24. van

    eu-tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-minha-capa= ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ
    Não sou advogada mas negar socorro à um recém nascido é pior que atirar pedra na mãe, nénão?

    Apr 17, 2009 @ 7:44 pm

  25. van

    @Pedro: No Brasil, as discussões(em especial as acadêmicas) não se focam nas idéias.

    Discussões acadêmicas seja no Cadaqués, no Cudisquistão ou no Brasil são SEMPRE sobre idéias.

    Apr 17, 2009 @ 8:01 pm

  26. van

    @Pedro: No Brasil, as discussões(em especial as acadêmicas) não se focam nas idéias.

    Discussões acadêmicas seja no Cadaqués, no Cudisquistão ou no Brasil são SEMPRE sobre idéias.
    Aliás discussões acadêmicas são de um convencionalismo estreito, hostil a qualquer inovação, praticamente bizantino. Aff!

    Apr 17, 2009 @ 8:11 pm

  27. carol bensimon

    é. hehehe. não ter feito a capa e ido viajar foi a coisa mais Brasil que tu fez.

    Apr 18, 2009 @ 10:18 am

  28. Leandro Demori

    carol bensimon: fui chamado às pressas pra ir à Áustria e, como não sou de dar desculpas, mandei um e-mail no mesmo dia da viagem dizendo que não poderia mais fazer. ;)

    Mas ei, esqueci de dizer: eu fiz uma capa, depois, e o livro vai sair com ela. Braziu wins.

    Apr 18, 2009 @ 1:36 pm

  29. nego

    a Austrália tá me deixando bem confuso sobre essas coisas: aqui as pessoas são MAIS simpáticas que no Brasil. todo mundo trabalha MENOS. e também é menor a porcentagem da classe média que faz faculdade. e o país foi FUNDADO POR BANDIDOS – e há bem menos tempo que o Brasil. e, CÉUS, ainda assim é superior. desisto de entender.

    May 06, 2009 @ 1:48 pm

  30. Diogo

    Excelente.

    May 20, 2009 @ 2:32 pm

  31. Reginaldo Almeida

    Genial! Fazia tempo que eu não via um diagnóstico tão preciso e tão poético, e ainda por cima engraçado.

    Quanto ao PIB per capita menor que o da Itália, nem precisa ir tão longe. É menor do que o do México, este país onde sobrevivo.

    Van: quando se falou de PIB per capita, nem se entrou no mérito da concentração de renda. PIB per capita fala de riqueza de menos ou gente de mais, ou os dois juntos.

    Jun 10, 2009 @ 8:00 pm

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