L E A N D R O . D E M O R I

Sob terremotos, o “berlusconismo” se fortalece

Há exatamente uma semana, mais ou menos nesta mesma hora, um casal de amigos que estava passando uns dias aqui em casa resolveu dar uma caminhada na praia. O tempo aos poucos melhora e o vento não corta mais os lábios de quem se aventura à noite pelas areias da riviera adriática italiana. Poucos minutos depois, Ana me faz sacar subitamente os fones do ouvido e diz atemorizada: “terremoto”.

Mal a palavra havia saído de sua boca os móveis já paravam de tremer. Terremotos são assim traiçoeiros, você não tem tempo para pensar, é pego de surpresa e a única coisa que consegue pensar é exatamente isso, “terremoto”, assim como o personagem de um filme travado diante de um trem. Já havíamos passado por um no natal, na casa de amigos em Vicenza, e foi a mesma coisa. É compreensível o número de mortos em um abalo sísmico que golpeia a madrugada.

O terremoto que sentimos na costa também foi sentido no interior do país e precedeu aquele das 3h30 da manhã de segunda que destruiu cidades inteiras na província de l´Aquila, em Abruzzo.

Como vocês sabem, estive em l´Aquila para cobrir a tragédia durante toda a semana (fotos aqui e aqui). Fui um dos primeiros jornalistas da imprensa internacional a chegar no local – e seguramente o primeiro jornalista brasileiro. Não tenho experiência com coberturas deste tipo, jamais estive em zonas de risco natural ou guerras. L´Aquila havia sofrido um terremoto, mas parecia saída de um bombardeamento.

A cidade estava um caos. O nível de tensão aumentava a cada hora, o som de sirenes e helicópteros era constante e muitas vezes eu não conseguia ouvir minha própria voz. Paradoxalmente, as casas estavam vazias, portas e janelas abertas pelo terror da evacuação precipitada. Do dia para a noite, fim. Foi uma sensação aterradora.

Minha experiência como jornalista se fez em vários capítulos, partindo do risco de ir para a zona atingida (senti mais 4 tremores em l´Aquila e um no hotel, em plena madrugada) até a indecisão de saber se conseguiria chegar ao epicentro. Durante a semana, precisei explorar diferentes rotas na espinha dorsal montanhosa italiana para poder sair e chegar das cidades.

No último dia da cobertura, sentado na arquibancada de um estádio convertido em uma das 31 cidades-tendas para os desabrigados, me peguei pensando em política. Diante daquele pensamento não tão inesperado, reafirmei uma convicção que tenho desde que cheguei à Itália, sobre a vitória do “berlusconismo” contra a esquerda. Existem muitas causas que renderão outro post em breve (oposição risível, esquerda caricata, envelhecimento populacional, conservadorismo, controle da mídia…), mas uma delas está na essência da vitória desse pensamento e, de certa forma, explica ou se confunde com todas as outras: italianos ainda precisam de pais.

A valorização excessiva da família produz efeitos colaterais visíveis à política italiana, isso salta aos olhos de qualquer estrangeiro que passe algum tempo por aqui. Não que eu acredite que a família seja desimportante, mas na Itália essa centralização do núcleo familiar como instituição já atinge níveis de doença. Filhos com 30 anos morando com os pais são mais comuns do que o contrário – frequentemente, sem trabalhar. A essas figuras se dá o nome de “mamones”, ou “mamões”, os que com três décadas de vida ainda mamam.

Casais só moram sob o mesmo teto depois de passar pelos ritos formais (leia-se Igreja) e, mesmo depois disso, as coisas não mudam muito: 66% dos recém-casados vivem em um raio de 1km da casa dos pais de um deles. Italianos passam o dia pendurados no telefone, na maioria das vezes com alguém da família. Basta um problema ou contratempo em um local onde haja alguns italianos e logo você verá uma legião de pessoas sacando celulares e pronunciando a mesma palavra antes de uma frase de lamentação ou explicação: “mamma”.

Ao ver Berlusconi caminhar pelas “tendópolis” de l´Aquila, senhor de si, pai da pátria, fica fácil entender por que seu projeto de poder não parece ter hora para acabar. Carismático e sedutor, Silvio encarna com perfeição o paternalismo que não tem mais lugar na maioria das democracias, o paternalismo sem disfarces, aquele que funda suas bases em cima da assistência direta, da mão na cabeça, do personalismo em detrimento do Estado. Para sustentar a condição de pai que a maioria dos italianos que já o elegeu por 4 vezes pede, Berlusconi não distribui somente sorrisos ou frases de efeito (muitas temerosas), mas também eficiência cirúrgica.

Incapaz de fazer a Itália avançar economicamente, o premier não costuma vacilar em situações como esta do terremoto. Apesar das críticas feitas por parte dos desabrigados, a maioria estava satisfeita com as verdadeiras cidades de barracas que o governo montou. E foi, de um certo ponto, impressionante – até por que eu não esperava tanta eficiência da burocratizada e enrolada Itália.

Em dois dias estava tudo lá: atendimento médico, comida, roupas, camas, psicólogos. A falta de algumas coisas (como água quente ou aquecimento contra o frio) foi compensada por uma ação conjunta entre governo e voluntários que, se no primeiro dia pareciam bater cabeça, rapidamente se organizaram para acolher aquelas pessoas.

Aos que preferiram sair das cidades, Berlusconi mandou distribuir uma espécie de carta-recomendação oficial. Era chegar em um dos hotéis da costa, apresentar a carta e se hospedar. Somente as cidades do Adriático receberam mais de 25 mil pessoas em três dias – boa parte delas bancadas pelo governo. No dia em que voltei para casa a imprensa anunciava uma ajuda em dinheiro vivo para as famílias atingidas (de 300 a 400 euros por mês), além de reforçar o compromisso com a reconstrução das casas, comércios, escolas, hospitais. Tudo isso em 4 dias, enquanto as equipes de resgate trabalhavam para a remoção de feridos e corpos. O premier sabe que o jogo de cena é importante e raramente erra quando a situação pede um salvador.

Silvio Berlusconi faz parte de uma casta de políticos muito popular no Brasil, uma erva-daninha difícil de combater: é centralizador, pessoalista, dono de emissoras de TV, empresas de construção, instituições financeiras, com interesses espalhados por todos os cantos da sociedade de seu país. A mesma sociedade que, carente de um pai, repetidamente o coloca no centro do poder.

6 Comentários Assine os comentários


  1. Tiele

    Baita texto! (cansando de comentar isso!) :)

    Mas os casamentos costumam dar certo por aí? Mania doida de família. Cruzes!
    asjdsasds.

    Evitar italianos! Demais. :P
    Abra$$um.

    Apr 13, 2009 @ 5:27 pm

  2. Camilo

    http://tinyurl.com/dfpj8l

    FORZA aê.

    Apr 13, 2009 @ 7:50 pm

  3. Praia de Xangri-Lá » Blog Archive » Acontecimentos recentes na Itália

    [...] Sob terremotos, o “berlusconismo” se fortalece [...]

    Apr 13, 2009 @ 8:48 pm

  4. Jefinho

    Talves seja por isso que a ajuda chega imediatamente aos atingidos, por essa mania paternalisata, tão diferente do que acontece aqui em Santa Catariana/Brasil, em que cada um tem que se virar como pode!
    -Ótima Cobertura!

    Abraços meu amigo.

    Apr 13, 2009 @ 9:06 pm

  5. Leandro

    Tiele: não sei o que seria “dar certo”, mas a taxa de separações está em menos de 15%.

    Apr 14, 2009 @ 6:27 pm

  6. van

    Achei a sua análise muito madura. A forma como vc.fotografa a sociedade italiana sempre colocando a mamma em primeiro lugar, normalmente uma mulher gorda e insatisfeita mas que fica LÁ, dentro de casa fazendo a pasta e mantendo as aparências.
    E todos sabemos que as aparências enganam. A figura paterna é veramente apagada por essa figura introjetada da mamma. Daí os Berlusconis, Mussolinis, mafiosos deitarem e rolarem sem lenço e sem documento.
    Não esqueço há pouco tempo, no encontro entre líderes da Otan, Berlusconi descendo do carro à menos de 10 m de Angela Merkel, e ao invés de ir cumprimentá-la, ignorou-a, num gesto de extrema cavalice, uma falta de educação sem
    precedentes. Completamente bizarro,ficou fazendo uns sinais apontando pro celular como se estivesse falando com Deus, deixando-a perplexa. Tomara êle esteja agora precisando da primeira-ministra para ajudá-lo e ela lhe vire as costas e vá falar no celular olhando o horizonte.
    Lelê, dizem que se reconhece um belo trabalho na emoção que desperta em quem o aprecia. Se é assim vc. conseguiu. Adorei.

    Apr 14, 2009 @ 11:51 pm

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