Tudo por vocês
Eu tenho 3 leitores paraguaios, tenho mesmo (são 3), diz o google analytics. Não são leitores que vieram aqui em busca de algo fortuito, fugaz, em busca da última dose de speed, não são leitores que caíram aqui atraídos pelas drogas, pelo sexo fácil ou por videogames desbloqueados – são leitores leitores, passam por aqui quase todos os dias, não minto. Eu tenho 3 leitores paraguaios e hoje, em vez de escrever sobre como funciona a TV pública RAI ou sobre o que Angra 3 tem a ver com usinas nucleares e imigração africana na Itália, eu não – vou divagar sobre eles.
Passei semanas pensando em meus leitores paraguaios (em todos os 3) com carinho especial. Cada leitor paraguaio que cai aqui, calculo, vale mais do que 10 leitores brasileiros (10 não, 100). A explicação matemática eu não entrego.
Como seriam meus leitores paraguaios? Belas morenas de cor indecifrável? Espanhóis de terceira ou quarta geração ricos e cafonas com seus BMW batidos e cheios de massa de arrumar? Descendentes de coreanos baixos e mal vestidos com tênis brancos branquíssimos? Motoqueiros da morte que cruzam a Ponte da Amizade com quilos de mercadoria contrabandeada (e maconha)? Quanta estrada ao pensamento o Paraguai me dá
Espero que nenhum de meus leitores paraguaios (nenhum dos 3) seja brasiguaio, aquela mistura latina de nós com eles. Você acredita que um brasiguaio é o produto do nosso melhor [preencha ziriguidum] com o melhor deles (as morenas de cor indecifrável)? Eu sou pessimista, caros, e sei que essa nova espécie não é lá das mais. Se algum de meus leitores paraguaios for brasiguaio ele vale menos, bem menos do que 10 leitores legitimamente brasileiros. Ao menos os brasileiros têm ficha corrida e conhecida, os brasiguaios eu não sei.
E eu não os quero aqui.
Eu quero continuar o sonho de ser um escriba internacional. Eu quero ser lido por 3 paraguaios. Vou bloquear o blog para brasiguaios assim que aprovarem aquelas leis sobre guardar os dados de navegação das pessoas.
Aproveita enquanto é tempo. Seu misto.
“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
O jornal Corriere della Sera publicou hoje uma reportagem sobre as ruas da prostituição em Milão. O texto mostra que as recentes declarações do prefeito contra a atividade ilegal e as multas (€ 500) aplicadas na zona (ops) não estão sendo capazes de esvaziar os quarteirões do sexo na mais rica cidade italiana.
Deixarei de lado a ingenuidade geral (prostituição jamais terá fim) para me concentrar na legenda de uma das fotos da reportagem:
“Un viado brasiliano in piazzale Lagosta”
Obviamente há uma falha jornalística grave na legenda.
Faltou dizer que tem “um cliente viado italiano no carro”.
Esses jornalistas,
(tsc tsc)
nunca aprendem.
Látex
Se para um brasilianista é preciso morar por algum tempo no Brasil para tentar entende-lo, para um brasileiro é preciso fugir dele. Se logo nos primeiro dias você se dá conta que nosso problema maior não é a corrupção – na Itália é muito pior – já é um avanço. Se pouco depois você entende que toda a América foi criada pela & para a corrupção aí bate o momento do peralá, por que os EUA são os EUA e nós ainda somos a Selva Inatingível do Turismo Sexual? já começamos a nos etender. Um bom caminho é evitar relativizar tudo e tentar reescrever suas frases, uma a uma, evitando inclusive abrir um texto mental com três delas no condicional como as que escrevi acima, se for possível. Um dos nossos problemas é certamente o excesso de “se”.
Há algumas semanas eu precisava apresentar uma capa para o livro sobre games que estamos escrevendo por aqui. Acabei viajando para a Áustria por conta do caso Josef Fritzl e, quando voltei, a colega Michela já tinha feito uma capa. Era feia. Era terrivelmente feia, assustadoramente feia a tal da capa da Michela. Mas eu que tinha-ido-viajar-e-não-tinha-feito-a-minha-capa é que não ia dizer isso. Bem, não precisei. A turma toda resumiu a capa da Michela como uma escolha de vida para ela, foi um verdadeiro teste vocacional o debate sobre a obra. No fim, a Michela entendeu que jamais em hipótese alguma deveria pensar em trabalhar com arte gráfica. Fiquei meia hora sentado sozinho, no final da manhã, café na mesa: “no Brasil todo mundo ia elogiar o esforço e dizer que com uma melhoradinha aqui e ali, ai amiga, ia ficar béin legau“. Bananas.
Aqui na Europa eu vejo algumas coisas interessantes que, mais umas vez, nos dão a chance de nos tornarmos uma nação relativamente relevante no universo. Porque não somos nem um pouco, o Lula é só um bufão, aquele cara “figo” com o qual todos se divertem na cachaça mas, na hora de decidir o rumo das coisas, beijinho beijinho. O Lula (o Brasil) não representa nada fora da nossa turma do churrasco, os líderes mundiais acham ele (o Lula, o Brasil, eu, você) um cara LEGAL. E só. Isso é a derrota por inteiro, ser só um “cara legal” é a pior coisa que pode acontecer a alguém. “Esse é o cara”, diz o Obama pro Lula (pro Brasil, pra mim, pra você), e você ri e se sente o máximo por que o imperador do mundo, o filho do tio mais rico da cidade, dono daquela casa com piscina e todos os Comandos em Ação “te considera”. Você só pode estar brincando.
Os gringos têm uma visão estereotipada sobre o Brasil como nós temos sobre eles (neste momento eu não estou pisando uvas ou gritando MATEO pro meu vizinho, por exemplo). Para eles nós somos o país da putaria (e somos), do turismo sexual e do turismo sexual infantil no nordeste (e somos), do crime (e somos), do sol o ano todo (não somos) e da selva inatingível (não somos, o Brasil é urbano há meio século). Na semana passada, enquanto conversava com pessoas que tinham perdido tudo por causa do terremoto, um dos donos do hotel onde estávamos disse que morria de vontade de conhecer o Brasil. “E por que tu não vai?”, perguntei, no que ele me aponta com o indicador a aliança de casamento. É a terceira vez que faço idiotamente a mesma pergunta. Ninguém em sã consciência, casado, vai querer visitar o Brasil. Ao menos não se tiver que levar a mulher junto (não olhem pra mim, a imagem já estava quebrada quando eu cheguei aqui).
Há um outro lado mais lúdico e até ingênuo dos europeus – europeus são muito mais ingênuos do que você pensa –, muitos acreditam fortemente que somos o “país do futuro”, aquele velho papo de sempre mas, hoje, bem revigorado. Dizem isso por que nossa sociedade nutre poucos preconceitos visíveis (fato que certamente formou nosso caráter de gelatina), por que nossa classe média é, em geral, mais estudada, culta e inovadora do que a européia (europeu não estuda) e por que temos espaço para crescer economicamente (é aqui que sempre, sempre aniquilamos com tudo).
Os gringos acreditam nessas coisas mas têm a plena certeza de que tudo isso só será possível por causa deles. Eles sabem que andamos em carros italianos, trabalhamos em computadores japoneses, usamos celulares finlandeses e preservativos americanos. Quer dizer, mesmo fodidos precisamos de látex importado.
O Brasil tem potencial para se tornar um grande país até meados deste século, o nosso problema é a capacidade de conseguir estragar tudo quando podemos avançar alguns dedos na história. É assim desde sempre. Vivo na Itália e, daqui, vejo todos os dias a nossa incompetência como nação. Conseguimos ter um PIB per capita (que é um dos indicadores que mais importa) pior do que o dos italianos. Creiam, amigos, isso é o ápice do fracasso.
Eu prefiro pensar sempre que vamos conseguir estragar tudo novamente, esse pensamento ativa automaticamente a minha zona de conforto mental, vou até o supermercado, pedalo pra casa, bebo umas cervejas e depois, se alguma coisa der certo, vocês me avisem que eu volto correndo e digo “ê, meu país, eu sempre soube, eu sempre soube”.
Mandar no mundo requer uma dose de ousadia, mau-caratismo, mentiras, banditismo e competência administrativa. Fazer tudo isso e ainda passar por evoluído é o que diferencia a França do Níger, a Itália da Líbia ou o Brasil de nós mesmos.
Sob terremotos, o “berlusconismo” se fortalece
Há exatamente uma semana, mais ou menos nesta mesma hora, um casal de amigos que estava passando uns dias aqui em casa resolveu dar uma caminhada na praia. O tempo aos poucos melhora e o vento não corta mais os lábios de quem se aventura à noite pelas areias da riviera adriática italiana. Poucos minutos depois, Ana me faz sacar subitamente os fones do ouvido e diz atemorizada: “terremoto”.
Mal a palavra havia saído de sua boca os móveis já paravam de tremer. Terremotos são assim traiçoeiros, você não tem tempo para pensar, é pego de surpresa e a única coisa que consegue pensar é exatamente isso, “terremoto”, assim como o personagem de um filme travado diante de um trem. Já havíamos passado por um no natal, na casa de amigos em Vicenza, e foi a mesma coisa. É compreensível o número de mortos em um abalo sísmico que golpeia a madrugada.
O terremoto que sentimos na costa também foi sentido no interior do país e precedeu aquele das 3h30 da manhã de segunda que destruiu cidades inteiras na província de l´Aquila, em Abruzzo.
Como vocês sabem, estive em l´Aquila para cobrir a tragédia durante toda a semana (fotos aqui e aqui). Fui um dos primeiros jornalistas da imprensa internacional a chegar no local – e seguramente o primeiro jornalista brasileiro. Não tenho experiência com coberturas deste tipo, jamais estive em zonas de risco natural ou guerras. L´Aquila havia sofrido um terremoto, mas parecia saída de um bombardeamento.
A cidade estava um caos. O nível de tensão aumentava a cada hora, o som de sirenes e helicópteros era constante e muitas vezes eu não conseguia ouvir minha própria voz. Paradoxalmente, as casas estavam vazias, portas e janelas abertas pelo terror da evacuação precipitada. Do dia para a noite, fim. Foi uma sensação aterradora.
Minha experiência como jornalista se fez em vários capítulos, partindo do risco de ir para a zona atingida (senti mais 4 tremores em l´Aquila e um no hotel, em plena madrugada) até a indecisão de saber se conseguiria chegar ao epicentro. Durante a semana, precisei explorar diferentes rotas na espinha dorsal montanhosa italiana para poder sair e chegar das cidades.
No último dia da cobertura, sentado na arquibancada de um estádio convertido em uma das 31 cidades-tendas para os desabrigados, me peguei pensando em política. Diante daquele pensamento não tão inesperado, reafirmei uma convicção que tenho desde que cheguei à Itália, sobre a vitória do “berlusconismo” contra a esquerda. Existem muitas causas que renderão outro post em breve (oposição risível, esquerda caricata, envelhecimento populacional, conservadorismo, controle da mídia…), mas uma delas está na essência da vitória desse pensamento e, de certa forma, explica ou se confunde com todas as outras: italianos ainda precisam de pais.
A valorização excessiva da família produz efeitos colaterais visíveis à política italiana, isso salta aos olhos de qualquer estrangeiro que passe algum tempo por aqui. Não que eu acredite que a família seja desimportante, mas na Itália essa centralização do núcleo familiar como instituição já atinge níveis de doença. Filhos com 30 anos morando com os pais são mais comuns do que o contrário – frequentemente, sem trabalhar. A essas figuras se dá o nome de “mamones”, ou “mamões”, os que com três décadas de vida ainda mamam.
Casais só moram sob o mesmo teto depois de passar pelos ritos formais (leia-se Igreja) e, mesmo depois disso, as coisas não mudam muito: 66% dos recém-casados vivem em um raio de 1km da casa dos pais de um deles. Italianos passam o dia pendurados no telefone, na maioria das vezes com alguém da família. Basta um problema ou contratempo em um local onde haja alguns italianos e logo você verá uma legião de pessoas sacando celulares e pronunciando a mesma palavra antes de uma frase de lamentação ou explicação: “mamma”.
Ao ver Berlusconi caminhar pelas “tendópolis” de l´Aquila, senhor de si, pai da pátria, fica fácil entender por que seu projeto de poder não parece ter hora para acabar. Carismático e sedutor, Silvio encarna com perfeição o paternalismo que não tem mais lugar na maioria das democracias, o paternalismo sem disfarces, aquele que funda suas bases em cima da assistência direta, da mão na cabeça, do personalismo em detrimento do Estado. Para sustentar a condição de pai que a maioria dos italianos que já o elegeu por 4 vezes pede, Berlusconi não distribui somente sorrisos ou frases de efeito (muitas temerosas), mas também eficiência cirúrgica.
Incapaz de fazer a Itália avançar economicamente, o premier não costuma vacilar em situações como esta do terremoto. Apesar das críticas feitas por parte dos desabrigados, a maioria estava satisfeita com as verdadeiras cidades de barracas que o governo montou. E foi, de um certo ponto, impressionante – até por que eu não esperava tanta eficiência da burocratizada e enrolada Itália.
Em dois dias estava tudo lá: atendimento médico, comida, roupas, camas, psicólogos. A falta de algumas coisas (como água quente ou aquecimento contra o frio) foi compensada por uma ação conjunta entre governo e voluntários que, se no primeiro dia pareciam bater cabeça, rapidamente se organizaram para acolher aquelas pessoas.
Aos que preferiram sair das cidades, Berlusconi mandou distribuir uma espécie de carta-recomendação oficial. Era chegar em um dos hotéis da costa, apresentar a carta e se hospedar. Somente as cidades do Adriático receberam mais de 25 mil pessoas em três dias – boa parte delas bancadas pelo governo. No dia em que voltei para casa a imprensa anunciava uma ajuda em dinheiro vivo para as famílias atingidas (de 300 a 400 euros por mês), além de reforçar o compromisso com a reconstrução das casas, comércios, escolas, hospitais. Tudo isso em 4 dias, enquanto as equipes de resgate trabalhavam para a remoção de feridos e corpos. O premier sabe que o jogo de cena é importante e raramente erra quando a situação pede um salvador.
Silvio Berlusconi faz parte de uma casta de políticos muito popular no Brasil, uma erva-daninha difícil de combater: é centralizador, pessoalista, dono de emissoras de TV, empresas de construção, instituições financeiras, com interesses espalhados por todos os cantos da sociedade de seu país. A mesma sociedade que, carente de um pai, repetidamente o coloca no centro do poder.
Epicentro

Viajei por horas entre estradas vicinais para chegar hoje pela manhã à l´Aquila, no centro da Itália, capital da província golpeada por fortes terremotos desde a madrugada de segunda. As cidades parecem bombardeadas, tristes, em guerra nas ruas, fantasmas dentro das casas – todas vazias e abertas pelo abandono súbito dos moradores no momento de maior pânico, durante a madrugada de dois dias atrás. Deixo aqui algumas fotos aproveitando o tempo de conexão do hotel. Amanhã volto pra lá.
[Fui enviado pelo portal Terra.]

