L E A N D R O . D E M O R I

O Brasil é um anúncio de TV

Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.

A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.

A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.

Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.

Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.

Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.

O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.

É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.

Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.

15 Comentários Assine os comentários


  1. marlon

    o Oriente Médio É a insanidade da eterna guerra. e tô falando do futuro, não de presente e passado [nos quais a afirmação não é menos verdadeira].

    no mais, cada vez melhores, teus textos.

    Feb 02, 2009 @ 1:01 am

  2. Van

    Oi Lê,
    Vim invadir tua praia. Puta polêmica ridícula, man, aprendi,a duras penas, q. tudo na vida tem cara e coroa. Veja por outro lado, q. assuntinho mais nada a ver. Coleciono a revista “Photo” ever, o policial, é um mito de pegador, ou vc. não sabia? As fotos seriam sexy e bonitas se o fotógrafo italiano, com certeza, não fosse péssimo. O escândalo está nos olhos de quem vê. Aquilo é uma representação. Não seja careta!

    In time, adorei o filme, a pedra da Gávea, o Morro Dois Irmãos…Ah o Rio, lindo! O resto é inveja, pura inveja.

    E eu que pensei que a era a França,a nossa percepção semiótica, AHAHA, da Europa…
    domage…
    A bientõt.
    V

    Feb 02, 2009 @ 10:02 pm

  3. Van

    Daqui a pouco tu vai querer colocar cueca em Davi, como fez Berluska num quadro que ele tem no escritório. Vou pesquisar pra te contar… Oh Gosh!

    Feb 02, 2009 @ 10:05 pm

  4. Leandro Demori

    Van, força, releia o texto. Em nenhum momento critico o anúncio, ao contrário, digo que não deveria haver espanto diante dele. É o Braziu em sua mais pura representação.

    Feb 02, 2009 @ 10:15 pm

  5. Van

    Ok., eu entendi a analogia com a terrorista. E entendi que você, achou um deboche do governador o fato dele parecer chocado e se defender, saindo pela tangente, dizendo q. mulheres são revistadas por mulheres, portanto a foto não teria cabimento,vamos proibí-la! Quando, na real, nossas mulheres são vistas sim, como putas e nossa polícia como truculenta.

    Bem, o quê vc.diria, ou melhor o quê vc. faria se um italiano te dissesse que as brasileiras são putas ou travestis carreiristas? Concordaria? Eu NÃO.
    Quanto à polícia brasileira, nós sabemos.
    Mas, não precisa espalhar.

    Feb 03, 2009 @ 12:28 am

  6. ariela

    Eu não entendi direito o porquê de tanto escândalo por causa de uma foto publicitária. Concordo inteiramente com o argumento de que tentou-se justificar pela tangente o indefensável [a violência da polícia]. E tenho percebido umas de o governo brasileiro [Tarso?] dar uma de Yeda Lôca e tentar estender seus tentáculos seja para cima do que não concorda ou para não devolver o que não é seu (Battisti), mesmo que isso seja de ou em um outro país. Não cheira bem.

    As últimas edições de Piauí e do Le Monde Brasil têm excelentes artigos sobre a polícia brasileira, recomendo.

    Feb 03, 2009 @ 1:10 am

  7. Leandro Demori

    “Bem, o quê vc.diria, ou melhor o quê vc. faria se um italiano te dissesse que as brasileiras são putas ou travestis carreiristas?”

    Diria que eles têm razão. Ande pela Europa e descobrirá, Van.

    Ariela: É mais simples do que isso, Tarso Genro está protegendo um dos seus.

    Feb 03, 2009 @ 2:05 am

  8. Van

    Amore, ando pela Europa ever. Entre meus amigos residentes na Europa não tem nenhum(a)puto(a) ou travesti. No entanto em SP e no Rio, conheço alguns. Os respeito muito por isso. Deve ser uma vida nada fácil e sujeita à críticas.
    Quanto ao Renascimento muderno…Bauhaus…já ouviu falar?

    Feb 03, 2009 @ 1:28 pm

  9. Leandro Demori

    “Amore, ando pela Europa ever. Entre meus amigos residentes na Europa não tem nenhum(a)puto(a) ou travesti.”

    Aprendi desde cedo a não medir o mundo pela circunferência do meu umbigo. Entre os meus amigos não há nenhum chinês, o que não significa absolutamente nada para o universo inteiro.

    Feb 03, 2009 @ 4:21 pm

  10. Van

    Lendro Demori em chamas.

    Feb 03, 2009 @ 4:53 pm

  11. .

    Como é que os italianos podem ter importado uma palavra tão bárbara: burgo/borgo?

    Feb 03, 2009 @ 8:15 pm

  12. Bruno Galera

    Maior produto de exportação do Brasil: travestis, depois Escrava Isaura.

    Madrid: TODOS os travestis são brasileiros.

    Desistam.

    Feb 09, 2009 @ 1:14 am

  13. Camilo

    Ao contrário do Bruno, que passou EM REVISTA TODOS os travestis de Madrid srsrhsrhsrsrhsrs, não encontrei nenhum em Paris.

    Porém, falando com italianos, todos reconhecem a presença MASSIVA dos travecos brasileiros na BOTA.

    Feb 17, 2009 @ 12:23 pm

  14. Ms.Riverside

    Leandro, falou e disse. Sem qualquer retoque ao teu texto. O Brasil é sim a puta do mundo e parece que por aqui ninguém tá a fim de mudar essa imagem. As mulheres da Restinga ao Moinhos se atiram prá qualquer gringo que aparece, logo dançam funk e bancam a popozuda…e depois não querem que se diga que toda brasileira é bunda…
    Uma pessoa me contou que num congresso mundial de médicos algumas pessoas queriam saber sobre o tal “creu”… Precisa falar mais?

    Feb 23, 2009 @ 7:07 pm

  15. Arbo Menna

    maior produto de exportação é o Demori.
    te puxou, belo post. mto foda.

    Mar 02, 2009 @ 4:58 pm

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