Conviver é um exercício diário
Mulher entra no ônibus com o filho pela mão. Como não há cobrador ela pega algumas moedas e alimenta a máquina. Espera pelo bilhete. Há três tipos de ticket e, ao comprar aquele válido por apenas uma hora, ela pede ao motorista para assinalar o horário – o sistema é meio índio. Ele não tem caneta. Ela muito menos. Ele começa a explicar o que ela deveria fazer, enquanto ela argumenta que ele deveria ter caneta. Começa uma discussão à italiana, intimidante para quem vê de fora, normal para quem já se acostumou. No meio da gritaria o motorista pede para que ela olhe nos olhos dele enquanto conversam. Ela se irrita e vai sentar junto ao filho, no meio do carro. Lá na frente, um senhor de uns 80 anos puxa papo e o motorista solta um “gente que não te olha nos olhos não é boa”, alto, para que a mulher ouça. Ela resiste, faz de conta que não ouviu, mas o motorista repete a frase. Ela levanta, vai até perto dele e diz que, ao descer, vai pedir para que seu marido embarque no ônibus e lhe encare nos olhos. No meio de uma das avenidas mais movimentadas da cidade o motorista freia o ônibus, levanta do banco e vai até o meio do carro pedir para que alguém seja “testemunha” dele. “Testemunha do que?”, eu pergunto, “o senhor agiu mal, não merece testemunha que não seja de acusação”, emendo. Ele, tentando consertar, diz que só queria explicar o procedimento no caso de um bilhete não marcado e que, afinal de contas, seria importante que a mulher o encarasse enquanto estavam conversando. Ela volta para o meio do ônibus, pega o filho pela mão, pede para que o motorista abra a porta e diz, olhando para baixo:
“Eu não posso te olhar nos olhos, eu sou muçulmana.”
Convivência é algo que se aprende a duras lições.
Sua vida vale menos que um discurso
Certas profissões têm a capacidade inerente de lhe tirar a alma, é preciso ser muito cuidadoso para não se tornar um bloco de gelo. Falo especialmente do jornalismo, a que conheço melhor. São frequentes as reclamações de colegas por não sentirem mais a dor alheia. Manter-se humano é um exercício diário.
Consegui fugir desse lado robotizante (e até sarcástico) das redações. Foi uma escolha. Não que eu seja sensível ao ponto de não poder, por exemplo, ver fotos de vítimas de homicídios – comuns em um de meus antigos locais de trabalho –, mas certas coisas ainda me dão aquele nó na garganta. Gosto de me sentir vivo.
A morte de Eluana Englaro, ontem, me trouxe tristeza por lembrar de modo tão claro que a vida pode ser desligada. A lei italiana não permite a eutanásia, mas garante a qualquer paciente o direito de recusar tratamento médico. No caso de Eluana, o pedido foi feito pela família ainda nos anos 90 e, ao passar por todas as instâncias legais, acatado. Depois de 17 anos em coma Eluana podia, enfim, morrer.
É estúpido pensar na indignidade de um fim por inanição. Na cama, imóvel, depois de ter a alimentação cortada, Eluana levou quatro dias para morrer. Partiu em silêncio, talvez sofrendo sem poder denunciar a sua dor, como se parassem de regar uma planta. Seu estado real de saúde ainda é um mistério, a imprensa italiana chegou a divulgar que ela não respirava com ajuda de aparelhos, não corria risco de morte, tinha até mesmo ciclos menstruais. Sem comida foi murchando, se apagando aos poucos.
Os acontecimentos políticos que cercaram sua morte mostram mais uma vez que não há limites para a demência. As atitudes de Berlusconi foram além da conta mesmo para os italianos que o avaliam mais como um personagem sem graça de Benigni do que como um estadista. O premier tentou aprovar um decreto-lei de última hora para impedir a morte. Queria passar por cima da Constituição e dos tribunais e foi barrado pelo presidente Giorgio Napolitano. A própria Igreja, obviamente contra a suspensão da alimentação, pediu que “deus perdoasse os envolvidos, mas agora basta de polêmica”. O combate de Napolitano e da Igreja é contra o oportunismo de cena. Para Berlusconi, quem se importa?, sua vida vale menos que 30 segundos no telejornal.
A Itália tem problemas sérios com a imigração ilegal, está ladeira abaixo em termos de crescimento econômico, tem previsões tétricas de PIB para este ano, mas o primeiro ministro fareja os embates, se move no solo arenoso da política como uma planta rasteira que busca os fachos de luz, vive de repercussões e holofotes, a maquiagem e as luzes da ribalta são essenciais para sua fotossíntese neopopulista.
Berlusconi é o pai que se vende sempre como o tradicional protetor do povo (seus filhos), mas que muitas vezes não dá tudo o que esses mesmos filhos pedem. Neste caso as opiniões estavam divididas, mas por seu faro polemicista o premier “lutaria pela vida” – eis o motivo “nobre”, afinal. É o papel de um pai que tenta aprovar um decreto-lei para impedir a morte de um filho, mesmo que outros filhos digam “basta ao sofrimento da família, são 17 anos em estado vegetativo”. É como o genitor que diz: “isso aqui parece bom, mas EU sei que não é, e EU faço isso pelo teu próprio bem”. No fim, o que importa é estar em evidência. Para Berlusconi, “the show must go on”, mesmo que o herói morra no final.
Perfeito
Estávamos tendo um papo sobre a Wikipedia e fiz uma pesquisa aleatória pelo número “seis“, dia do meu aniversário.
Diz lá:
“É o primeiro número perfeito, visto que os seus divisores próprios (1, 2 e 3) somam 6. O número perfeito seguinte é o 28“.
Quer dizer, seis, dia do meu nascimento, é número perfeito.
E 28, a minha idade, é número perfeito.
Sabe o que isso quer dizer?
Nada.
Tchau.
Porre du Demon | Essa matou o barqueiro
Comprarei três hoje. Se eu não postar nada até amanhã mandem a Cruz Vermelha.
Hair of the dog that bit me, Lloyd
Essa cena nunca deixará de congelar minha espinha.

O Brasil é um anúncio de TV
Morar na Europa ainda é considerado “chique” para a maior parte das pessoas. Há uma concepção enganosa sobre a Europa e o “chique”, a Europa e a “moda”, a Europa e suas “tendências libertárias” que de fato, bem. É impactante a muitos constatar que não existe lugar no mundo que seja assim, “chique”. Vivemos em um planeta brega com papel de parede bege e poltronas Luís XV, bem-vindo e acostume-se.
A Europa é um continente moderno em um sentido Renascentista, aquela coisa de ciência natural, técnica, história, política – todas velhas e insuficientes receitas aos dias de hoje.
A Itália, em particular e ao contrário do que muitos pensam, representa melhor a Europa do que Alemanha, França ou Inglaterra jamais conseguirão. Na Itália ainda se pode ver e sentir o verdadeiro espírito europeu, os muros em torno das cidades, os pequenos feudos, os pequenos burgos, os pequenos prazeres, as diferenças culturais em raios menores do que o da cidade de São Paulo, as línguas que se confundem, a falta de habilidade [e gosto] para lidar com a imigração de baixa estima. A Itália é um clichê mediterrâneo, um museu com carta constituinte, metade em obras, metade aberto entre 15h e 17h – e tudo fechado durante o verão.
Assim como vive de um clichê humano, demasiado humano, a Europa consome clichês. A África representa o primitivismo, o Oriente Médio é a insanidade da eterna guerra, a Ásia, o desconhecido moderno do Japão e a derrota civilizacional chinesa, a América é o primo rico e invejado (imitá-lo ou revolucionar sua lógica?) e o Brasil, do lado de fora de seus muros imaginários, é um clichê sobre futebol, mulheres fáceis, travestis carreiristas, picaretagem e barbárie tropical.
Não deveria haver espanto quando uma grife italiana retrata policiais brasileiros desta forma. O brasileiro médio está muito bem representado por este policial carioca, o verdadeiro policial carioca. Não são muitos os brasileiros que se esforçam para serem um pouco melhores do que um agente corrupto porque ele representa todo o ideal de “se dar bem” no país: têm um poder ínfimo inflado pela fantasia, mas só o poder suficiente para não representar responsabilidade alguma.
Segundo o governo do Rio, a campanha não retrata a realidade porque “mulheres só são revistadas por policiais do sexo feminino”. A declaração mostra o bom senso involuntário de não se criticar o uso de imagens que remetem à violência – contra isso não haveria argumento.
O governo diz que estuda “medidas legais” para retirar a propaganda das ruas da Itália. Piada. Essa declaração é o poder ínfimo inflado pela fantasia em sua mais pura demonstração. É patética, uma síntese do Brasil muléqui, exportador de mulheres, travestis, baixaria e declarações sem sentido.
É ingênuo negar que somos uma nação de irresponsáveis, que elege irresponsáveis e que confunde poder com potência. É ingênuo e desonesto negar que só mostramos capacidade de indignação quando o terrorista é dos outros ou quando vendem nossa verdadeira imagem “lá fora” de outra forma que não retratando papagaios. Esqueçam. Todo mundo por aqui já sacou que Gisele Bündchen, Airton Senna e Oscar Niemeyer são exceções que confirmam a nossa farsa, a nossa derrota como sociedade organizada.
Na semana que passou conheci uma brasileira no ônibus. Estava perdida, não sabia exatamente em que parada descer. Só descobri que era brasileira no final da viagem e porque perguntei. “Não gosto de dizer, não quero assumir a fama de puta exportada pra cá ao longo dos anos”, confessou ela, doutoranda aqui na Itália. E está certa, é isso o que todos deveriam saber se quisessem mudar alguma coisa: o Brasil, em seu clichê mais reducionista e verdadeiro, é a puta do mundo.


