L E A N D R O . D E M O R I

Caso Battisti na revista IstoÉ

Reportagem minha e do Mário Camera sobre refugiados/ex-terroristas italianos em situações semelhantes a de Cesare Battisti.

Parceria com a Cartola Conteúdo.

Em Napoli

Palestra em Napoli

Estarei em Napoli no dia 3 de março para palestrar conversar sobre cobertura política na web (clica na imagem pra ver em tamanho grande). Se estiver pela cidade (hehe), me manda um comment pra gente comer uma pizza.

“Tiros, trapaças e laranjas de papel”

Artigo assinado por mim, publicado hoje no caderno “Cultura” do jornal Zero Hora. É o post prometido sobre os confrontos entre italianos e trabalhadores africanos na Calábria.

Bom final de semana.

///

Por trás dos conflitos entre locais e imigrantes africanos em Rosarno, na Itália, no início deste ano, está, mais do que o racismo, a extensa influência criminosa da máfia calabresa ‘Ndrangheta

Cerca de 6 mil afiliados; bases na Itália, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Bolívia, Inglaterra, Suíça, Holanda e outra dezena de países pelo mundo; oligopólio de mercado na Europa; controle da produção e do transporte por meio de joint-ventures; faturamento de 44 bilhões de euros ao ano. Esta potência econômica não está ao lado do Google na lista das melhores empresas para trabalhar, tampouco se pode mandar currículo para ela. A multinacional bilionária se chama ‘Ndrangheta, máfia calabresa que faz companhia às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em outra lista, o Kingpin Act, elenco seleto elaborado pelo governo dos Estados Unidos com os nomes mais perigosos e influentes no mundo subterrâneo do tráfico global de drogas.

É a inflamável ‘Ndrangheta, e não a xenofobia puramente ideológica, a responsável pela revolta de cerca de 1,5 mil trabalhadores africanos na cidade calabresa de Rosarno, na Itália, que há duas semanas incendiaram carros, quebraram latões de lixo, trancaram a principal rodovia da região, instauraram o caos. Os confrontos teriam começado por um episódio particularmente sádico. Dois italianos brancos passeiam de carro quando, no caminho, avistam dois africanos negros.

Os italianos brancos – e xenófobos – pegam um fuzil de pressão que, por acaso, está no carro, e desferem dois tiros contra os africanos negros. Feridos, os africanos contam o fato a outros africanos, também negros. Todos saem às ruas e transformam a cidade em praça de guerra. Revoltada, a população local (cidadãos brancos e xenófobos como os dois atiradores casuais) sai às ruas para defender sua terra.

O episódio dos atiradores é verdadeiro. Apontá-lo como ato de xenofobia pura e simples e dar a ele o título de causa isolada do quebra-quebra, não. As 48 horas de confrontos entre africanos, cidadãos locais e polícia caíram na vala comum do racismo que faz manchetes: italianos brancos versus africanos negros. Foi planejada exatamente para isso. A estratégia da máfia local é empurrar a população contra o governo que vem combatendo os clãs com prisões, sequestro de bens e cassação de políticos corruptos – em 2008, o prefeito de Rosarno foi preso e todos os dirigentes políticos cassados por infiltração mafiosa junto à ‘Ndrangheta. A intenção é passar a velha imagem de que, se não incomodados, os clãs mafiosos locais mantêm a ordem pública costumeira.

O crime não faz aflorar somente a desgraça dos atentados, do medo e da lei do silêncio. Toda atividade criminal de tipo mafioso busca a estabilidade social e financeira em seu território de controle. Na Campania – Napoli e seus arredores – a Camorra representa concreto, obras, prosperidade. Na Calábria, terra dos mais poderosos clãs mafiosos da atualidade, o benessere social também se reproduz pelos canais da ‘Ndrangheta. Ali, como um organismo vivo que escorre do terreno montanhoso da península, reluz a planície de Gioia Tauro e sua potente cultura de laranjas e tangerinas, gerida direta ou indiretamente pela máfia. Além disso, os clãs exercem poder sobre o principal porto de contâineres do Mediterrâneo, na cidade de Gioia Tauro, destino de 80% da cocaína que abastece a Europa. É a máfia que contrata, transporta e semi-escraviza a maior parte dos trabalhadores estrangeiros em situação precária como os que se rebelaram. É ela que, agora, em tempos de crise, degradou ainda mais suas posições sociais e os provocou esperando motim.

A simplificação da realidade tanto conforta quanto emburrece. É claro que há racismo na Itália e na Europa como um todo (e não só), mas explicar os horrores do mundo de modo familiar e conhecido para apontar de forma clara os bandidos e os mocinhos é um caminho tão fácil quanto desleal. Para entender histórias como a dos confrontos em Rosarno, ninguém na Calábria passa os olhos em artigos de antropologia social, em notícias rasteiras de jornais ou nas reconfortantes e sempre éticas declarações da ONU. Todos procuram esqueletos nos porões da ‘Ndrangheta, senhora de todas as coisas e lei de todas as leis.

Nesses porões se esconde o caso das “Laranjas de Papel”. Até 2004, uma fraude aplicada por cooperativas guiadas pelos clãs engordou mafiosos, dirigentes e donos de terra com dinheiro de subsídios da União Europeia. Para cada quilo de laranja colhida, a UE versava na conta de cooperativas rurais um percentual extra que engrossava os ganhos dos produtores. Em 2004, inspeções ruíram o sistema: dos 250 caminhões de laranja declarados em uma operação, apenas 12 existiam. Com base em papéis fraudados, milhões de euros abasteciam o sistema criminal de modo rápido e eficiente. Era a multiplicação das frutas. Há dois anos, aconteceram outras 45 prisões pelo mesmo golpe das “Laranjas de Papel”. Os 11 milhões de toneladas declarados? Jamais existiram. O tiro mortal foi desferido pela crise econômica mundial: sem o dinheiro fácil dos subsídios e com a economia no vermelho, as vagas no campo diminuíram. Grupos de coletores nômades que se revezam entre a colheita de tomates no verão e laranjas no inverno foram se acumulando sem emprego de maneira vertiginosa. Era preciso “se livrar” deles.

Após os confrontos em Rosarno, 1,1 mil trabalhadores braçais foram transferidos para outras regiões. A cidade vive, por agora, dias sem imigrantes. O tempo, no entanto, não para, laranjas e tangerinas voltarão a colorir os pés na próxima colheita e trarão de volta a mão-de-obra sem a qual a planície calabresa não sobrevive. E eles trabalharão lá, como fazem desde o início dos anos 90, vivendo em harmonia com a comunidade local – a xenofobia ideológica e sem controle não é roteiro-chave para explicar a história da revolta africana na Itália. Não porque o Estado italiano evitaria aqueles disparos que foram o estopim da crise, ou porque puniria seus autores, até hoje desconhecidos. Em Rosarno, na Calábria, ninguém tem medo do Estado. Todo mundo sabe que em Rosarno, e em toda a Calábria, a única coisa a temer é a máfia, verdadeira dona dos canos fumegantes.”

LEANDRO DEMORI *

* Jornalista, mora na Itália e estuda Investigação, Máfia e Sistemas criminais pela Associação de Jornalismo Investigativo de Roma

Ninguém acredita nos EUA

l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila l´Aquila

É opinião corrente nos programas de TV diários (são muitos) que mostram a situação do Haiti aqui na Itália. Lembram da falência completa após o Katrina em New Orleans. Chefe da Defesa Civil italiana disse ontem que dinheiro abundante não é questão central na primeira semana, o que conta mesmo é organizar as equipes de busca e socorro, saber o que fazer com elas. “Desde quando os americanos são especialistas em terremotos?”, se perguntam. “Para que servem porta-aviões e marines?”.

A Itália é autoridade no assunto, registra abalos desde a antiguidade – foram mais de 60 os “relevantes” só no século XX. Na semana passada, a terra tremia enquanto almoçávamos. Faz parte da rotina.

Estive no primeiro dia após o terremoto de L´Aquila, fiquei lá por quase uma semana. As primeiras 48 horas são fundamentais, indicam como será a operação nos dias sucessivos. Em L´Aquila, no terceiro dia, dezenas de “cidades de barracas” (tendopoli) haviam sido montadas, todos tinham onde dormir e o que comer de forma organizada — com percalços evidentes, é uma situação limite, afinal, — mas o cenário era incomparável ao mundo-cão de Porto Príncipe. No Haiti, as primeiras 48 horas foram um desastre, as horas sucessivas, a instauração do caos (veja as fotos de um “tribunal popular haitiano”, se tiver estômago).

Há um fator determinante que separa L´Aquila de Porto Príncipe: aqui há cidades vizinhas em condições de suprir o socorro e receber desabrigados; no Haiti, não.

Italianos estão indignados porque não conseguem chegar na ilha. Não têm autorização, são barrados pela burocracia e pela ausência de governo e comando no país. As melhores equipes de socorrro do mundo não assistem o Haiti, assistem ao Haiti, pela TV.

Vi, até agora, poucas fotos de cães de busca, “tecnologia” imbatível para encontrar desaparecidos e corpos. As manchetes falam nos milhões prometidos aqui e ali. Milhões que, numa hora dessas, soam como um pote de ouro em uma ilha deserta.

l´Aquila

Blog da década

A Nova Corja - meu ex-blog até o início deste ano - foi escolhido pelo jornal O Estado de S. Paulo como um dos 15 blogs mais importantes da década.

Está aberta a votação popular para eleger o vencedor.

http://www.estadao.com.br/retrospectiva/

Apesar das chances nulas de ganhar (há blogs com audiência brutal concorrendo), ter ficado nessa seleção já valeu muito.

Alpi italiane

Alpes

Itália, retrato de uma era

berlusconi_agressione

A lógica do pinheirinho de natal

Ontem fui dar minha primeira contribuição anual às festas cristãs e ao mundo ao andar pela praça da cidade jogando cascas de castanha pelo chão. As castanhas (recém saídas da brasa) estavam ótimas, as cascas eu tenho certeza que alguém com renda mensal melhor do que a minha recolheu. Gosto do natal como quase todo bom ateu, principalmente da decoração quase brega de morrer, da corrida infantil, luzinhas que piscam e bobalhões gordos de barba falsa e suas renas de madeira aterrorizantes.

Ando aproveitando ao máximo as luzinhas quase bregas desse ano porque gosto mesmo delas e já não tenho certeza quanto tempo durarão. No início do mês, a Corte Europeia proclamou que a Itália deveria retirar das salas de aula todos os crucifixos em nome do “pluralismo religioso” em órgãos públicos. Para a Corte, o Estado não pode “patrocinar” uma religião em detrimento das outras - que crescem a cada dia juntamente com a imigração. A decisão poderá ser estendida a todos os órgãos públicos: nada de crucifixos em hospitais, estações de trem, pontos de atendimento, prefeituras, palácios de governo, delegacias ou correios, nada nada, deve prevalecer a assepsia estatal, já é assim logo ali na França e etc no que concordam - surpreendentemente - boa parte dos italianos.

Andando pelas ruas e cultivando o ódio dos catadores de lixo com meus marrones, andando pelas ruas e vendo as luzes de natal pela última vez. Os acende-e-apaga (e o pinheirinho) foram colocados (e pagos) pela prefeitura da minha cidade, por seu sindaco do Partido Democrático. O prefeito pode sucumbir, já no próximo ano, em nome do pluralismo. Luzinhas de natal e arvorezinha patrocinadas pelo Estado não não, Sr. Luca Ceriscioli, que é o nome do recém eleito. Recém reeleito, aliás. Pega meu voto e ordena que uma equipe da prefeitura, paga com meus impostos, compre símbolos do cristianismo e os espalhe pelo centro histórico? Sr. Prefeito, ora Sr. Prefeito.

Ontem, em referendo, a população da Suíça proibiu a construção de minaretes, aquelas torres que adornam as mesquitas. “Nada de minaretes, Srs. muçulmanos”, disse o povo do país ali de cima, e aqui na Itália a Igreja Romana saiu em defesa das torres. A Igreja, que alega que os crucifixos são parte da cultura e da tradição italianas - e que, portanto, devem permanecer nas escolas - defende também que os minaretes são parte da cultura muçulmana e que devem ser liberados em nome do pluralismo (o mesmo que pode acabar com as luzes de natal). É claro que “cada qual com seu minarete”, que é construído com dinheiro privado e lá bem diferente de Jesus Morto no Colégio. Mas, no fim, acaba dando no mesmo: Jesus Morto e Minaretes e Luzinhas de Natal são cavalos de batalhas de propósitos nem sempre claros a quem só quer comer as castanhas e congelar no frio.

A sociedade italiana, pelo bem da integração com quem chega, pode perder seus crucifixos. A sociedade suíça, pelo bem de quem está lá, poupou a própria vista das torres de outro planeta. Eu, que só quero passear e emporcalhar a praça, posso perder a foto do ano que vem. E você até acha que certos assuntos  são “coisa dos políticos” e que não tem nada a ver com isso.

leandro_demori_natal

Tá servido?

Este senhor não me violentou

leandro_demori_lula_fao_roma

Eu não sou o “Menino do MEP”.

Achei que seria bom avisar.

Arab Di$ney

A menor notoriedade em relação à Suíça, às Ilhas Caimã ou às Bahamas não rebaixa Dubai na lista de destinos preferidos do dinheiro suspeito que circula pelo mundo. O emirado é, há muitos anos, um dos paraísos fiscais mais movimentados do planeta (paraíso para quem tem o que esconder, obviamente). Quadrilhas de traficantes colombianos, lavanderias de dinheiro europeias, contrabandistas asiáticos, mafiosos russos, traficantes de armas iranianos e terroristas islâmicos estão entre os clientes VIP dos bancos locais - aportam quantidade desconhecida de dinheiro no mais suntuoso, liberal e ocidental dos Emirados Árabes Unidos.

Dubai escolheu a estrada do capital externo por que jamais seria um dos barões do petróleo. Suas reservas, exploradas industrialmente a partir dos anos 50, hoje representam parte ínfima da economia local. Pior: devem secar em 20 ou 30 anos. A rota traçada foi mais extrema a do vizinho mais poderoso e conservador, Abu Dhabi. Ambos apontaram em investimentos imobiliários assustadores para atrair turistas e dinheiro de todo o mundo, mas Dubai foi além. É, de longe, um dos países árabes mais liberais nos costumes sociais, nas relações empresariais e nas aplicações financeiras (com o Dubai International Finance Centre), fato que ajuda a atrair dinheiro e hábitos ocidentais e despertar certo desconforto na vizinhança islâmica.

Conheço um caso verídico que conta resumidamente a função de Dubai no jogo do dinheiro sujo (não posso citar nomes, mas é uma história corriqueira): traficantes colombianos levavam cocaína ao Brasil. De lá, em navios mercantes, faziam a droga chegar ao porto de Roterdã, na Holanda, de onde partia para o resto da Europa. O dinheiro da venda era transportado em carros alugados e parava nas mãos de um gerente financeiro de contas particulares na Suiça, que se encarregava de transferi-lo, via Espanha, para, entre outros destinos, Dubai.

A investigação deste caso prendeu diversos envolvidos mas não conseguiu descobrir, até hoje, onde o dinheiro era realmente lavado. Dubai está na lista de suspeitos com um adendo que ajuda a explicar a moratória da dívida decretada ontem pela estatal Dubai World: a grana suja do pó seria investida no setor imobiliário do emirado - saía de lá limpinha para ser reinvestida em negócios legais ou de economia cinza na Europa. Não que todo o dinheiro que pouse no deserto seja sujo, mas parte importante é. Essa crise de Dubai ainda tem muito o que contar.

A dívida da Dubai World e de sua subsidiária Nakheel empurrada com a barriga para daqui a 6 meses é de declarados 59 bilhões de dólares. Para cobrir os rombos deixados pela falência do banco Lehman Brothers e pelos problemas da seguradora AIG em 2008, o  Banco Central Europeu (BCE) injetou em uma operação importante cerca de 40 bilhões de dólares na economia. Serve pra dar a dimensão do estrago em Dubai, que pode ser ainda maior do que o anunciado.

Os principais credores da Dubai World são bancos, de novo eles e seus negócios de alto risco e - por tantas vezes - pouca clareza. O Credit Suisse divulgou ontem que “bancos europeus podem ter exposição de US$ 40 bilhões no país“. É grana.

Há muito, analistas alertam que o mercado de imóveis de Dubai era uma bolha pronta a explodir. A queda dos preços dos imóveis já vinha acontecendo, mas ontem o conjunto da obra explodiu de vez. Agora é questão de tempo até saber quantos corpos como o da Dubai World ainda estão escondidos nas paredes do mundo.

ANALYTICS <--> ANALYTICS <-->